ISSN 1993-8616

2008 - número 2


Em foco





© Sophie Grenier
Robert Lepage: brincando muito com fogo corremos o risco de surpreender.

O Teatro deve se reinventar

O Dia Mundial do Teatro, estabelecido em 1961 em Viena, pelo Instituto Internacional de Teatro (ITI), é celebrado a cada dia 27 de março em todo o mundo. O ITI é uma das mais importantes organizações não-governamentais na área de interpretação teatral. Atualmente, existem Centros Nacionais da ITI em centenas de países.

Tradicionalmente, a cada ano, o Instituto Internacional de Teatro convida uma personalidade de renome mundial para escrever uma mensagem a ser veiculada internacionalmente.

Este ano, o famoso diretor de teatro canadense Robert Lepage (Quebec) conta a fábula do nascimento do teatro para encorajar aqueles que sentem medo de levar a tecnologia aos palcos.

Há muitas hipóteses da origem do teatro, mas uma das que eu acho mais provocativas tem a forma da seguinte fábula:

Certa noite, ainda no início dos tempos, um grupo de pessoas se reuniu numa caverna para se esquentar ao redor do fogo e contar histórias. De repente, uma delas teve a idéia de se levantar e usar a própria sombra para ilustrar sua idéia. Usando a luz do fogo, ela fez os personagens parecerem, em grande escala, nas paredes da caverna. Encantadas com essas novas imagens, as outras pessoas puderam reconhecer o forte e o fraco, o opressor e o oprimido, o deus e o mortal.

Hoje em dia, a luz dos projetores sucedeu à fogueira original, e equipamentos de palco, às paredes da caverna. E com todo o respeito a certos puristas, essa fábula nos lembra que a tecnologia está nas origens do teatro e de que isso não deve ser percebido como uma ameaça mas como um elemento que lhe dá liga.

A sobrevivência da arte teatral depende da sua capacidade de reinvenção, pela adoção de novas ferramentas e novas linguagens. De que modo poderia o teatro prosseguir expressando as grandes questões de nossa época e promovendo o entendimento entre as pessoas sem que ele tivesse, em si mesmo, um espírito de abertura? Como ele poderia se orgulhar de oferecer soluções aos problemas da intolerância, exclusão e racismo se, na sua própria prática, ele resiste a qualquer tentativa de fusão e integração?

Para representar o mundo em toda a sua complexidade, o artista deve trazer novas formas e idéias, e acreditar na inteligência do espectador, que é capaz de distinguir a silhueta da humanidade dentro desse perpétuo jogo de luz e sombras.

É verdade que ao brincar muito com fogo nós corremos riscos, mas também criamos uma oportunidade: podemos sair queimados, mas também encantados e iluminados.

Robert Lepage
Quebec, 17 de fevereiro de 2008.