2008 – número 8
Os tesouros intangíveis do Lago Tana

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 © UNESCO/Jasmina Šopova
Barcos de papiro carregados de madeira partem para o mercado de Bahir Dar.
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O país pode ter sido colocado à prova do fogo e da espada, mas nenhum invasor jamais interrompeu a serena paz do Lago Tana. Por isso, os reis da Etiópia mantinham seus tesouros seguros em igrejas escondidas no verde de suas ilhas. Mas, com atenta observação, outro tesouro é revelado na medida em que se descobrem as pinturas nos murais das igrejas: elas podem ser lidas como um livro de história da Etiópia.
Ao anoitecer, subindo até Dek, a maior das cerca de 30 ilhas e ilhotas espalhadas pelo Lago Tana, um rosário de embarcações de papiro carregadas de madeira, como se surgidas da antigüidade egípcia, aproxima-se de nós. “Hoje é sexta-feira, o dia do mercado de madeira em Bahir Dar,” diz o jovem guia Wedu. “Eles terão que remar cerca de oito horas até chegarem à cidade”.
Em nosso pequeno barco a motor, gastamos menos de uma hora e meia para fazer o mesmo trajeto no sentido oposto. Deixamos para trás a nascente do Nilo Azul, que vai se reunir ao Nilo Branco em Cartum, no Sudão, para formar o fabuloso rio que encarna o deus egípcio Hapy. Navegamos no meio do maior lago da Etiópia. Bahir Dar, capital da região de Amhara, forma uma meia-lua em grande parte de suas margens, em cujo lado oposto estão as ruínas de palácio reais.
“Há centenas de igrejas por aqui,” diz Wedu. Mas tudo o que se consegue ver são papiros à beira da água e árvores ilha adentro. “Nossos reis esconderam muitos de seus tesouros aqui. Alguns também estão enterrados nesse lugar. Você verá suas coroas e suas cruzes, seus mantos bordados em ouro...” Nos períodos mais complicados da história etíope, o Lago Tana permaneceu como um paraíso de paz. De fato, quem tentaria conquistar ilhas que pareciam conter apenas florestas virgens?
Um único portão é visível a distância, à beira d’água, em um cenário majestoso. Mas, uma vez passado o portão, percebe-se que a beleza tem um preço: a igreja Narga Selassie, dedicada à rainha etíope Mentaweb (veja o artigo “No país do rei com a língua pendurada”), pode ser vista apenas após uma longa caminhada por uma trilha cheia de ruínas.
Seu telhado cônico de palha se apóia em 29 pilares limitados pelo ambulatório externo (kena mahelate) reservado para os sacerdotes durante as cerimônias. Uma segunda série de arcadas forma outro círculo onde fica a congregação, com homens na seção norte e mulheres na seção sul. O santuário domina o centro. Suas paredes, ricamente decoradas com pinturas, elevam-se até o telhado, não deixando ver seu interior sacrossanto. Ela abriga, como todas as igrejas etíopes, uma réplica da Arca da Aliança, a arca que contém os dez mandamentos de Deus e que Menelik, primeiro rei legendário da Etiópia, disse ter trazido de Jerusalém há 3 mil anos (veja “O silêncio dos gigantes”).
Quando as imagens falam em vez das palavras
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 © UNESCO/Jasmina Šopova
Os sacerdotes Messarat (à esquerda) et Kesadana em frente ao pequeno museu da igreja Narga Sélassié.
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A maioria das igrejas do Lago Tana foi construída entre os séculos XIV e XVIII, seguindo a mesma planta arquitetônica. Os três círculos representam a Santíssima Trindade. Na iconografia etíope, ela é representada sempre por três homens velhos e idênticos. “Não se pode diferenciar pai, filho e espírito santo”, explica o sacerdote, que prossegue expondo detalhes da vida eclesiástica.
“Em um dia normal, rezamos três vezes, de manhã, ao meio-dia e à noite. Mas, na noite de sábado, todo o clero se reúne, juntamente com a gente de bem do vilarejo, para rezar. As orações se encerram no domingo, às 9 horas, e depois oferecemos à população uma hora de instrução.”
Que tipo de instrução? “Damos conselhos para a vida diária, dizemos a eles o que fazer para que possam ir ao paraíso quando morrerem, explicamos a diferença entre o Velho e o Novo Testamento.”
A igreja etíope tem tanto respeito pelo Velho Testamento quanto pelo Evangelho, a ponto de que Moisés e o Faraó estão normalmente acompanhados por São Miguel e São Rafael nas pinturas centrais do santuário. Na parte sul da parede circular, é sempre a Virgem quem dá as boas-vindas às fiéis. Diante dela, o arcanjo Miguel segura balanças: uma multidão de pequenas figuras ficam de um lado e um jarro d’água de outro. A Virgem tem um dos dedos discretamente colocado sobre o segundo.
Em seus pés, uma “faixa cômica” conta uma história macabra. “Esse é Balaesam. Três demônios o transformaram em um canibal e ele comeu 78 pessoas”, explica Wedu, apontando para o monstro que devora corpos desmembrados. “Mas um dia ele encontrou um leproso que estava com muita sede e ele lhe deu água”, continua o guia, apontando para as imagens. “Quando ele morreu, supunha-se que Balaesam iria diretamente para o inferno. Mas quando o arcanjo Miguel pesou seus atos monstruosos e esse único ato de bondade, a Virgem Maria se lembrou de sua promessa de perdão e fez com que a água pesasse mais do que as almas de suas vítimas.”
Os nove monjes sírios
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 © UNESCO/Jasmina Šopova
Yered e o rei. Detalhe de uma pintura mural da igreja Azuwa Maryam (lago Tana).
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Nas igrejas do Lago Tana, a parte mais baixa do muro do santuário é dedicada à história etíope. Os pontos altos das vidas dos reis e santos locais são representados em imagens sucessivas que contam ao povo o que ele não pode ler nos muitos pergaminhos etíopes, escritos em giiz, língua desaparecida no século XIV e atualmente usada apenas na liturgia.
É ao pé da parede, portanto, que freqüentemente se encontram os pais etíopes do cristianismo, conhecidos como “Nove Santos da Síria”, embora, historicamente falando, nem todos tenham vindo de lá. Dá-se a eles o crédito de terem construído os mais velhos monastérios do país. A figura que é sempre retratada com um dragão a seu lado é Abba Aragawi, que parece ter construído um dos mais estranhos monastérios da região de Amhara, o Debre Damo. A uma altitude de 3 mil metros, o monastério se encontra “pendurado” no topo de um penhasco de 15 metros, formando um ângulo reto com o chão. A única forma de construí-lo, é claro, foi carregá-lo no lombo de um dragão. A única forma de alcançá-lo, hoje, é com o uso de cordas para escalada, recurso utilizado pelos monges com impressionante facilidade. As mulheres são banidas e poucos homens têm sua entrada permitida, caso se aventurem a subir até lá.
Uma outra cena recorrente nas igrejas do Lago Tana mostra um rei sentado com seu cedro plantado no pé de um homem, ao seu lado. “Esse é Yared”, diz o guia Wedu. “Ele não era um bom aluno e foi expulso da escola. Um dia, quando andava à toa, viu um inseto subindo em uma árvore. O inseto tentou seis vezes e caiu seis vezes. Na sétima vez, conseguiu. Yared, então, compreendeu o valor da perseverança e voltou para a escola. Era tão habilidoso que compôs um novo tipo de música que se tornou a música de nossas orações.”
Fascinado pelo belo canto, o rei não percebe que está plantando seu cedro no pé do cantor. E o cantor, levado pelo ardor de seu canto, não sente dor. Em que livro se poderia encontrar melhor definição da arte da música?
Assim como a rainha Mentaweb ou Abba Aragawi, Yared existiu de verdade. Ele viveu no norte, em Aksum, capital de um imenso império quando o cristianismo chegou, há 1.600 anos. Desde então, sua música sacra exalta a claridade diamantina dos amanheceres etíopes.
Jasmina Šopova