ISSN 1993-8616

2008 - número 8


Roha, a maravilhosa





© UNESCO/Jasmina Šopova
Em Lalibela, uma igreja pode esconder outra.

Situada a uma altitude de 2.500 metros na região de Amhara, a pequena cidade de Lalibela hospedou uma impressionante riqueza da arquitetura religiosa nos últimos oito séculos. Construídas em um único bloco de rocha, as igrejas da cidade foram inscritas na Lista do Patrimônio Mundial, em 1978.



A cidade foi chamada de Roha, “a maravilhosa”, quando o piedoso rei Gebre Mesqel Lalibela ordenou que 11 igrejas monolíticas fossem escavadas na rocha, sendo ligadas umas às outras por um vertiginoso labirinto de túneis. Suas paredes são cheias de cavidades, algumas das quais apresentam o pé de algum santo enterrado no local há vários séculos.

Os vivos e os mortos estão habituados a se esbarrar nesse lugar onde nada parece impossível, nem mesmo a escavação de uma igreja inteira, com pórtico, naves, vigas, andares superiores, janelas, tudo a partir de uma única rocha. Beta Medhane Alem, a maior das 11 igrejas inscritas na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, ergue-se sobre 24 pilares que formam um retângulo de 34m x 24m, dimensão próxima à da Notre Dame de Paris.

Quanto à igreja dupla, a Golgotha-Michael – também chamada de Debre Sinai e Golgotha –, esta oferece a vista mais espetacular. O rei, em cuja homenagem deu-se o mesmo nome à cidade, foi enterrado ali, ao lado da tumba de Adão, ancestral de toda a humanidade, segundo a tradição bíblica. Com um passo em Lalibela transita-se da história ao mito.

Próximo desta teia de igrejas situada na ladeira de uma colina está São Jorge, única igreja com sistema de drenagem e provavelmente a mais recentemente escavada sob as ordens do Rei Lalibela. Ela pode ser vista a distância, aflorando de um imenso fosso com seu telhado esculpido de cruzes interconectadas. Diante de sua estrutura em forma de cruz e de 12 fachadas com 12 metros de altura, o visitante se sente uma miniatura. O exterior de seus três andares é marcado por marquises e janelas. “A parte de baixo não tem janelas porque esse é o andar de Noé”, diz Muchaw, um dos guias oficiais do sítio. “É para evitar que a água da enchente entre”, completa, com um sorriso.

Para chegar a outro grupo de igrejas, que de longe parecem estar sobrepostas, é necessário caminhar por um riacho, chamado Jordão, que passa por outra colina coroada por um sino pendurado em uma árvore morta. A colina é chamada de Monte Tabor. Também é preciso cruzar a caverna de Belém – a Terra Santa em miniatura.

De acordo com uma das muitas lendas em torno do Rei Lalibela, ele fundou Roha quando voltou do exílio em Jerusalém e objetivou que ela se tornasse uma nova cidade santa na África.

Lalibela em risco


© UNESCO/Jasmina Šopova
Pequena colina em Lalibela chamada Tabor, lugar da transfiguração de Cristo, na Galiléia.

A cidade recebe cerca de 140 mil peregrinos todos os anos, entre o Natal e o Tikmet, (Epifania), diz Belete, a pessoa mais popular nas redondezas. Ele lidera uma equipe de 20 pessoas no Escritório de Turismo e Cultura na cidade de 12 mil habitantes, localizada 600 quilômetros ao norte de Adis Abeba. Para Belete, o turismo é a onda do futuro: “Entre julho de 2007 e março de 2008, mais de 8 mil turistas se hospedaram em nossos 12 hotéis”, conta ele.

Seu Escritório, fundado pelo Conselho Regional de Amhara, recebe financiamento do governo central e da Autoridade para a Pesquisa e Conservação do Patrimônio Cultural (ARCCH). Projetos de salvaguarda no sítio de Lalibela são também apoiados pela União Européia, pela UNESCO e por várias ONGs, com destaque para a Plan International.

Enquanto uma das principais preocupações da UNESCO é impedir a deterioração das igrejas devido à infiltração da água da chuva, a primeira preocupação de Belete é com a pobreza da população que vive na região do sítio e que tem causado danos. Ele defende que é preciso, assim que possível, assentar essas 270 famílias em outro lugar.

Belete não tem um plano específico ou uma idéia precisa de custos, mas é otimista. Para esse dinâmico e jovem líder, a imagem de uma Lalibela limpa e bem cuidada é muito importante. “Faço um trabalho de conscientização nas cinco escolas da cidade e está funcionando”, diz, com orgulho.

Ele está igualmente preocupado com a condição das 24 igrejas nos arredores da Lalibela, 14 das quais não contam com um plano de salvaguarda. “Todas deveriam ser inscritas na lista do Patrimônio Mundial”, defende ele. Para me convencer, ele me leva para um passeio.

Uma delas se destaca por uma incrível paisagem natural. Foi construída pelo predecessor de Lalibela, o Rei Imrahana Kirstos.

Os mistérios de Imrahana Kirstos


© UNESCO/Jasmina Šopova
A igreja de Imrahana Kirstos se esconde em uma paisagem natural surpreendente.

São mais de 40 minutos de viagem para cobrir os 12 quilômetros que separam Lalibela de uma aldeia muito pobre, ao pé da montanha. Depois, mais meia hora de escalada em uma ladeira sem qualquer sinal de vida humana, exceto um grupo de mulheres voltando do mercado do outro lado da montanha.

Na metade do caminho deixamos a trilha e subitamente um imenso penhasco domina a paisagem como uma nuvem petrificada há vários séculos. Uma pequena igreja se esconde em seu ventre, quase imperceptível, protegida por uma alta parede construída recentemente.

O interior do santuário é como um teatro: a luz do dia alcança apenas um lado da igreja e um pequeno palácio real de terra e tijolos que se encontra próximo. Magníficos tambores litúrgicos se destacam acima de um chão coberto de palha distribuída sobre peles de animais, sob as quais há ossos. “A igreja foi construída sobre a água”, explica o padre, levantando uma pequena tampa inserida no chão para convencer os incrédulos.

Atrás da igreja está o corpo de seu arquiteto, deitado sobre o chão puro e enrolado em panos coloridos, próximo ao sarcófago do santo rei e da tumba de sua santa esposa, que não deu filhos a ele. “Sua união foi apenas espiritual”, diz o padre. Segundo ele, o rei era visitado diariamente pelos arcanjos Gabriel e Rafael, que traziam comida para os 5.740 peregrinos que vinham dos quatro cantos do mundo para admirar seu trabalho e sua sabedoria. A precisão dos números também surpreende.

Após mostrar a cruz que Deus mesmo fez e deu a Imrahana Kirstos, assim como o trapiche pintado pelo próprio rei, o padre me deixou ir sozinha explorar as profundidades da caverna. À medida que meus olhos se acostumaram à escuridão, identifiquei um esqueleto sorridente, estendido em uma longa caixa de madeira. Recuperando-me do choque, vejo um vasto ossuário em minha frente. Ali poderia haver, facilmente, os restos de 5.740 pessoas.

O que aconteceu nessa gruta? De que período datam aqueles ossos? As respostas permanecem vagas. Mas, em Lalibela, um único passo parece suficiente para se passar da imaginação à realidade.

Jasmina Šopova