ISSN 1993-8616

2008 - número 8


Gigantes silenciosos






© UNESCO/Michel Ravassard
O maior monolito já esculpido pelo homem jaz ao lado de um bloco de pedra de 360 toneladas

Três parques com estelas gigantes, um labirinto de tumbas reais, vestígios do palácio da Rainha de Sabá, uma “Pedra de Roseta Etíope”, o Arco da Aliança contendo os dez mandamentos... um incrível tesouro, no limite entre o mito e a história, encontra-se escondido em Aksum, onde o coração da Etiópia antiga ainda bate.




Pequena, encantadora e silenciosa, a cidade de Aksum é como um aristocrata que perdeu sua posição. Saques, vandalismo e incêndios fizeram com que ela escondesse seus tesouros remanescentes em diferentes recantos de um velho armário. Apenas o parque das estelas principais ainda reina no meio da cidade, como testemunho do tamanho do sofrimento de Aksum.

Exceto o obelisco nomeado em homenagem à torre de Pisa, nenhum desses monólitos com os símbolos gravados permaneceu de pé ao longo dos tempos. Até mesmo o famoso obelisco, recentemente reinstalado em Aksum após um exílio forçado desde 1937, estava quebrado em cinco partes quando as tropas de Mussolini o encontraram (Veja “O retorno do Obelisco de Aksum”). Já as estelas sem inscrições ainda permanecem de pé, apontando para o céu.

“É por isso que as pessoas pensam que os obeliscos esculpidos não caíram por si mesmos, mas foram derrubados por uma rainha judia”, diz o jovem historiador Redae Tesfay. “Mas, na verdade, para que um obelisco dure ao longo do tempo, a parte enterrada deve corresponder a 10% do seu tamanho total. E essa regra não foi respeitada”. Calcularam mal? É difícil de acreditar, em se tratando de um povo que demonstrou tanta engenharia, mas provavelmente esse foi o caso.

Quanto à lenda, acredita-se que uma rainha chamada de Gudit (a monstruosa) ou Esato (a destruidora), personagem histórico do século X e sobre a qual não sabemos muito, invadiu a Etiópia em busca da Arca da Aliança, a arca sagrada contendo as duas tábuas com os dez mandamentos. Furiosa por não encontrá-la, a rainha destruiu a cidade inteira e colocou fim ao reino axumita. Como recordação desse famoso evento, mulheres ainda não podem entrar na basílica de Maryan Tsyon, que supostamente ainda hospeda a arca.

A rainha de Sabá, sempre misteriosa


© UNESCO/Jasmina Šopova
Vista do Palácio de Dongour

Como o Arco da Aliança foi parar em Aksum? Bem, ele foi trazido de Jerusalém por Menelik, primeiro rei da Etiópia, filho de um rei de Israel e da Rainha Makeda. Alguns dizem que filho do rei Salomão e da rainha de Sabá. Há cerca de 30 séculos ele fundou a dinastia salomônica, da qual o último imperador etíope, Haile Selassie, (1892-1974), dizia descender.

“De acordo com a tradição, Menelik escondeu o Arco da Aliança no palácio de sua mãe, que se encontra a cerca de três quilômetros do centro de Aksum. Esse esconderijo foi recentemente descoberto pelo arqueólogo Helmut Ziegert, do instituto arqueológico da Universidade de Hamburgo”, explica a administradora do sítio de Aksum, Fisseha Zibelo. A novidade foi manchete em maio.

“O Palácio Dongour foi escavado pelo arqueólogo francês Francis Anfray e reconstruído entre 1966 e 1968. Ele tem 50 cômodos mas não sabemos exatamente para que eles eram usados. O palácio data do século XVII, mas as pessoas sempre o chamaram de palácio da rainha de Sabá”, diz Fisseha. “Foi isso que inspirou Helmut Ziegert a continuar escavando e ele descobriu outro debaixo daquele que já conhecíamos”. Três seções desse palácio antigo, que pode datar do século X a.C., podem ser agora vistas pelo público. Para os leigos, a diferença entre as ruínas de cada um dos dois períodos é imperceptível.

Uma pequena estrada para Gondar (veja o artigo “O país do rio com a língua pendurada”) separa o palácio de Dongour de um dos três parques de estelas em Aksum. É um vasto campo pontuado por monólitos que foram apenas levemente trabalhados. A maioria deles tem vários metros de altura. “Os blocos de pedra foram extraídos do Monte Gobadura,” diz Fisseha, apontando à distância para traços na vegetação deixados pelos rolos usados em seu transporte. Após tantos séculos, a vegetação não cresceu como originalmente.

A vista é realmente impressionante: milhares de pedaços de pedra passaram por esse caminho. É suficiente ver a enorme lápide de 20 metros por 7 no parque central. Estima-se seu peso em 360 toneladas. Próximo a ela, o maior monólito já esculpido se encontra no chão, quebrado. Um colosso ferido. A lenda de que anjos transportaram as pedras se torna quase plausível.

Enigmas e revelações


© UNESCO/Jasmina Šopova
Tumba da porta falsa, em Axoum.

Lendas facilmente se fortalecem quando a história não consegue prover explicações. Nenhuma data ou nome aparece nesses imensos pedaços de pedra. Arqueólogos descobriram uma magnífica necrópole sob a estela, mas eles chegaram depois dos saqueadores. A tumba com a porta falsa, a tumba com os arcos de tijolo e o mausoléu, majestosos e vazios, permanecem silenciosos (veja o texto “As três tumbas”).

Ainda mais enigmáticos são os desenhos gravados nos obeliscos. Únicas no mundo, essas réplicas de casas de vários andares (com porta, janelas e vigas) não contêm quaisquer inscrições que ajudem os cientistas a penetrarem seu mistério. Quando não são marcadas por uma cruz, elas trazem um símbolo que representa o sol e a lua. De acordo com alguns historiadores, esse símbolo pré-cristão pode se referir à divindade local Mahrem, que corresponde a Áries, o deus grego da guerra. Mas não se sabe nada além disso.

As velhas moedas são mais eloqüentes. Elas revelam cerca de 20 reis, mostram as diferentes fases do desenvolvimento econômico de Aksum e situam no tempo a conversão da cidade ao cristianismo. “As peças de ouro são marcadas com inscrições em grego porque elas foram usadas para o comércio internacional”, conta Redae, “enquanto as palavras nas moedas de prata e de bronze estão em giiz, o que mostra que elas foram usadas para o comércio local”. O giiz, agora uma língua litúrgica, é antecessora do amárico, língua hoje falada pela maioria da população da Etiópia.

A mais eloqüente de todas é certamente a “pedra de Roseta” local, hoje colocada em um prédio pequeno, especialmente desenhado para guardá-la. O prédio se encontra em um caminho escarpado e sinuoso, a certa distância do centro da cidade. Encontrada por cães em 1982, ela conta em três línguas (grego, giiz e sabeu) a história da campanha núbia realizada por Ezana, o último rei pagão e primeiro rei cristão de Aksum. Convertido por volta do século IV, ele levou o reino ao seu auge. Como curiosidade: o texto em giiz está gravado em uma das estreitas faces dessa lápide retangular (a outra foi deixada em branco) e o escriba, por falta de espaço, continuou a escrever no lado em sabeu, como um aluno que termina sua frase escrevendo na margem quando chega ao fim da página.

E assim, de um monumento a outro, a antiga Aksum divulga capítulo por capítulo de seu passado, uma tapeçaria de lendas e de história.

Jasmina Šopova