ISSN 1993-8616

2008 - número 8


Editorial






© UNESCO/Jasmina Šopova

Pequenos cestos à venda nas proximidades do novo Museu de Aksum (Etiópia).

Para marcar a recente reinstalação do Obelisco de Aksum em seu lugar original no norte da Etiópia, o Correio da UNESCO visita alguns dos sítios culturais do país. Nossas viagens por esses destinos exclusivos nos conduziram a um tesouro óbvio, menos monumental que os castelos de Gondar, menos visível que as igrejas de Lalibela, mas tão impressionante quanto todos eles: o patrimônio intangível da Etiópia.




"O patrimônio cultural intangível pode ser um instrumento genuíno de reconciliação", declarou a Diretora-Geral Adjunta da UNESCO para a Cultura, Françoise Rivière, no último dia 4 de setembro, durante a cerimônia de re-inauguração do Obelisco de Aksum em seu sítio original. O monólito de 17 séculos de idade, levado a Roma em 1937 pelas tropas de Mussolini e trazido de volta à Etiópia pelo governo italiano é uma prova disso. Com 24 metros de altura e pesando 150 toneladas, ele é o segundo maior monólito no sítio do Patrimônio Mundial de Aksum, próximo à fronteira com a Eritréia.

"É a primeira vez que um acontecimento desses ocorre no mundo," disse Francesco Bandarin, Diretor do Centro do Patrimônio Mundial da UNESCO. "A reinstalação da Estela Número 2, no marco da Convenção de 1972, relativa à proteção do patrimônio mundial, natural e cultural, abre um novo capítulo na história", adicionou ele. "É um capítulo que diz respeito não apenas à Etiópia, mas a toda a humanidade".

"De certa forma, esse obelisco é um símbolo para toda a África", disse o Ministro da Cultura e do Turismo da Etiópia, Mohammed Dirir, na entrevista que ele deu ao Correio da UNESCO em maio. Segundo ele, ao transportar o obelisco a Roma, Mussolini estava se vingando da derrota das tropas coloniais italianas em Adua (1896), no norte da Etiópia. "Mas não viveremos do passado", disse. "Devemos olhar para o futuro. Não esqueceremos, mas perdoamos."

Nos últimos anos, cultura e turismo têm trabalhado lado a lado na Etiópia. Dirir está convencido de que seu país, com seus "milênios de história", deve aproveitar sua cultura "para desenvolver o turismo responsável". Quando diz que o patrimônio cultural promove a imagem internacional do país, ele não pensa apenas em monumentos, mas também em costumes, como a cerimônia do café, e em artesanato, fonte de sobrevivência de muitos etíopes, principalmente mulheres e jovens. Ele também enfatiza a noção de "shimgalina", que significa tanto diálogo quanto sabedoria, assim como a hospitalidade dos etíopes e seu espírito de tolerância.

Novos projetos da UNESCO


© UNESCO/Jasmina Šopova

Saint-Georges, uma das igrejas mais fascinantes de Lalibela (Etiópia).

É verdade que o patrimônio tangível e o intangível são inseparáveis, particularmente em seu país. Essa é uma das razões pelas quais Rivière decidiu lançar um outro “sítio de trabalho” especificamente em Lalibela, sítio do Patrimônio Mundial na Etiópia conhecido por suas igrejas escavadas em uma única rocha.

“A idéia é conduzir projetos integrados nos sítios do patrimônio mundial”, explica. “Esses ‘projetos’ buscam contribuir para o desenvolvimento econômico e humano ao focarem, de acordo com a necessidade, no turismo cultural, na proteção do patrimônio intangível, na promoção da diversidade cultural, no diálogo, nas línguas e nas indústrias culturais. Identificaremos um sítio por região para lançar esses projetos. Na África, será Lalibela, onde a UNESCO tem estado presente há muito tempo”.

Os fundamentos para a nova iniciativa já existem: a Organização tem várias convenções à sua disposição, incluindo as relativas ao patrimônio mundial, natural e cultural (1972), ao patrimônio cultural intangível (2003) e à diversidade da expressão cultural (2005). “Ao operarem em simbiose, esses instrumentos podem transformar a cultura em um poderoso agente para o desenvolvimento”, diz Rivière.

Jasmina Šopova