2008 - número 8
Em foco

|
 © Ana Ines Manzano
Análise de filme negativo e positivo de um Noticiero durante oficina sobre preservação de filmes, em Cuba.
|
Salvar os Noticieros Latinoamericanos ICAIC
A duplicação em suporte fotoquímico (filme 35 mm) e a estocagem em condições ambientais controladas é a única maneira confiável de preservar nossa herança audiovisual, avalia a diretora e roteirista brasileira e francesa, Alice de Andrade, que teme a obsolescência dos suportes, dos formatos e equipamentos digitais. A filha do célebre diretor Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), figura central do « Cinema Novo » brasileiro, acaba de restaurar os 14 filmes de seu pai em um trabalho que lhe tomou quatro anos.
Advogada convicta da preservação dos patrimônios cinematográficos, Alice iniciou nesse verão um projeto de envergadura: o salvamento de cerca de 1.500 curtas-metragens cubanos que retraçam a historia do Século 20. Esses filmes são o assunto de seu próximo documentário de 70 minutos: «Memória Cubana do Mundo”. Os Noticieros Latinoamericanos ICAIC, importante coleção cinematográfica, são candidatos ao Registro da Memória do Mundo da UNESCO.
Dia 1° de janeiro de 2009, Cuba festejará o cinqüentenário da primeira revolução socialista das Américas. Nasceu com ela o ideal revolucionário de valorizar o cinema como instrumento para a construção de uma sociedade justa, soberana e solidária com os demais paises pobres. Não por acaso, a primeira instituição cultural criada pelo novo governo foi o Instituto Cubano da Arte e Indústria Cinematográficas, o ICAIC.
Em 1986, quando o escritor colombiano Gabriel García Márquez (Prêmio Nobel 1982) e Fidel Castro inauguraram em nome da Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano a Escuela Internacional de Cine y TV (EICTV), em San Antonio de los Baños (a 40 quilômetros de Havana), realizava-se ali uma utopia de integração cinematográfica. Francis Ford Coppola, George Lucas, Ettore Scola, Miguel Littin, Carlos Sorín, Costa Gavras, Raul Ruiz, Sthepen Frears, Jean-Claude Carrière e Steven Spileberg, para citar apenas alguns nomes, deram aulas lá. Entre os alunos estavam Juan Carlos Cremata, Arturo Soto, Eryk Rocha, Benito Zambrano, Alicia Scherson, Camila Guzmán, Tanya Hermida, Vicente Ferraz e Jaime Rosales, vencedor do Goya 2007. Naquele momento, Cuba ainda era um pólo de produção na América Latina.
Aprendi a fazer cinema dentro dessa multiplicidade de culturas e personalidades, num momento em que o país vivia a maior crise de sua história, após o desmantelamento do bloco socialista, no início dos anos 90.
Só voltei a Havana 16 anos mais tarde, em dezembro de 2007, apresentando a retrospectiva integral dos filmes restaurados do cineasta brasileiro Joaquim Pedro de Andrade, meu pai. Depois de quatro anos trabalhando como coordenadora técnica da restauração digital em alta definição de seus 14 filmes, tornei-me uma apaixonada defensora das causas da preservação cinematográfica. Retomei contato com o ICAIC e com a Cinemateca Cubana e confirmei meu temor de que, passadas duas décadas de penúria econômica, cortes de eletricidade e ciclones, sob o efeito insular da maresia e da umidade, o patrimônio cinematográfico cubano se encontrasse em péssimas condições e necessitando de cuidados urgentes.
Tive então a idéia de criarmos uma cátedra de preservação de filmes dentro da própria EICTV, já que aí estão, como professores, muitos dos que construíram a cinematografia cubana. A Escuela tem infra-estrutura e os equipamentos para a análise de materiais cinematográficos: mesas de montagem e de revisão, um telecine, um laboratório fotográfico, salas de projeção e um estúdio de som. Enfim, tudo para realizar o trabalho de análise e planejamento que deve anteceder a elaboração de um plano emergencial de resgate de tais patrimônios.
Em julho e agosto de 2008, realizamos o 1° Atelier de Altos Estudos em Preservação Cinematográfica em Cuba, com o apoio da FIAF, Federação Internacional dos Arquivos Fílmicos, do Programa Ibermédia, para o desenvolvimento da produção audiovisual ibero-americana, e da Comissão nacional cubana da UNESCO.
O ICAIC, a Cinemateca de Cuba, a EICTV e a FIAF inauguraram, assim, essa cruzada pela salvaguarda dos Noticieros Latinoamericanos ICAIC.
Os Noticieros: um olhar único
|
 © ICAIC
Santiago Álvarez e Fidel Castro durante a filmagem de um Noticiero: privilégios de uma intimidade amistosa.
|
Os Noticieros eram cinejornais semanais que misturavam atualidades regionais e internacionais com um estilo ousado e original. Entre 1960 e 1990, entusiasmaram os cubanos, que por nada perdiam o cine jornal da semana em uma das 60 salas da ilha. Às vezes havia debandadas após os Noticieros que precediam os longas de ficção.
Com câmeras precárias e sobras de filme virgem, esses “guerrilheiros da imagem” filmaram bombardeios, revoltas populares, revoluções e golpes de Estado, além de momentos de inspiração de grandes artistas em Cuba. Assim aprenderam a fazer cinema. Cada vez mais equipados com o passar dos anos e graças a uma intimidade privilegiada com as causas revolucionárias, escreveram uma outra história do século XX, com um ponto de vista bastante singular.
Reza a lenda que a foto-animação e o videoclipe nasceram aí, frutos dos experimentos artísticos de Santiago Alvarez (1919-1998), incansável diretor dos Noticieros de 1960 a 1990 e grande provocador e instigador do talento de sua equipe. Muitos de seus documentários premiados mundo afora, como "Now!", "Hanói martes 13", "Ciclón e 79 primaveras" foram edições “monotemáticas” dos Noticieros, entre as 1493 edições de 10 minutos, cada uma, produzidas em 30 anos. Santiago Álvarez testava seu público nas salas, ajustava a montagem, fazia os créditos e lançava o documentário.
Contrariar o irreversível
|
 © ICAIC
Equipe do Noticiero filma danos de um terremoto no Peru (1970).
|
O Atelier de Altos Estudos em Preservação Fílmica dedicou-se ao estudo de 33 edições dos Noticieros. Por três semanas, reuniram-se em San Antonio de los Baños sete dos maiores especialistas em conservação e restauração cinematográfica para trabalharem na elaboração de uma estratégia de recuperação da coleção, ao mesmo tempo em que formavam 35 arquivistas – na maioria, cubanos.
Além das excelentes aulas teóricas que foram filmadas, analisamos e preparamos materiais fílmicos a serem restaurados no México, já que o laboratório do ICAIC, apesar de excelente, encontra-se desativado desde 2005. Em apenas uma semana, 9 edições dos Noticieros foram transferidos para novos suportes fílmicos. Projetamos e discutimos os filmes restaurados. Até que se formou ali um grupo de trabalho profundamente motivado e unido. É com muito orgulho que afirmo, sem medo de errar, que cada um dos que participaram dessa aventura estará para sempre comprometido com a permanência das imagens em movimento.
Devo salientar que todos nós constatamos a situação crítica em que se encontra esse importante acervo: os filmes estão a ponto de se perderem definitivamente e precisam ser duplicados com a maior urgência. O filme preto e branco em 35mm, com seus sais de prata, é ainda o único suporte realmente confiável para a preservação de nossa herança audiovisual.
O ICAIC – ao qual foi outorgado um milhão de euros pela Junta de Andaluzia para reconstruir seus depósitos fílmicos e fazer seu laboratório cinematográfico voltar a funcionar – mostrou-se sensível ao entusiasmo dos especialistas internacionais, que generosamente empenharam seu tempo e seus conhecimentos no projeto.
Ficou claro, para todos, a situação crítica em que se encontra a coleção: os filmes precisam ser duplicados rapidamente em película cinematográfica. Embora as tecnologias digitais sejam ferramentas potentes para a restauração e a difusão do cinema, a guerra da concorrência industrial faz que a obsolescência de suportes, formatos e equipamentos torne demasiado custosas e arriscadas quaisquer iniciativas de conservação em mídias digitais.
É preciso que o governo cubano invista a mesma energia que originou esses sons e imagens, durante 30 anos, no empenho de salvá-los. Esse esforço, se começar agora, ocupará pelo menos dez anos de trabalho intensivo. O ICAIC poderia, assim, reassumir seu status pioneiro na cinematografia mundial, agora também na área da conservação e da valorização dos patrimônios cinematográficos.
Alice de Andrade é cineasta franco-brasileira