ISSN 1993-8616

2008 - número 9


Escultores da memória social





© Azuz development/Tobiaseigen
Campanha para o reconhecimento dos direitos indígenas no Congo.

"Eu sirvo aqueles que viveram nos anos 1600 e estou servindo aqueles que viverão nos anos 2200", diz o bibliotecário e arquivista canadense Ian Wilson, eleito Presidente do Conselho Internacional de Arquivos (ICA), em julho. Wilson promove a digitalização e o acesso gratuito a arquivos que podem desempenhar um papel crucial na luta contra a violação dos direitos humanos.



Ian Wilson responde às perguntas de Jens Boel, arquivista chefe da UNESCO

Arquivos e direitos humanos foram o tópico da Conferência Internacional da Mesa Redonda de Arquivos (CITRA), uma conferência que você presidiu na Cidade do Cabo, na África do Sul, em 2003. Os arquivistas não deveriam deixar os direitos humanos por conta dos políticos?

O mundo dos arquivos não é passivo. Estamos ativamente envolvidos na escultura da memória social.

Na Cidade do Cabo, olhamos para a relação entre arquivos, direitos humanos e proteção de minorias. Tivemos o prazer de conhecer o Arcebispo Desmond Tutu (sul-africano, Prêmio Nobel da Paz 1984), que nos disse que os arquivos são a fortaleza contra atrocidades das quais não devemos nunca nos esquecer. Ele esteve envolvido nesta questão e compreende o poder absoluto dos registros.

Sob os antigos regimes repressivos na América do Sul, nossos colegas lutaram para manter um registro dos desaparecidos, os cidadãos que enfrentaram o regime no poder e simplesmente desapareceram da face da Terra.

Os países democráticos têm problemas semelhantes. Durante décadas, o governo canadense apoiou escolas-residências, aqueles internatos mantidos pelas igrejas para assimilar crianças indígenas. As crianças perderam sua língua, sua cultura, sua família, sua identidade. O governo pediu desculpas aos sobreviventes e estabelecemos uma Comissão de Verdade e Reconciliação. Os Arquivos Canadenses são muito ativos quanto à disponibilização dos registros existentes dessa experiência traumatizante. Também trabalharemos com a Comissão para preservar os testemunhos e documentos que as famílias apresentam.

Por que é tão importante lidar com o passado doloroso?

Precisamos aprender. A sociedade precisa se compreender, olhar para seus pontos fortes e suas fraquezas na medida em que lida com os desafios do futuro. No Canadá, estamos tentando construir uma sociedade verdadeiramente multicultural que respeita e inclui todas as culturas... O registro das escolas-residências ficou parado nos arquivos por décadas e décadas, ninguém nunca tinha olhado para eles. Finalmente, porém, a sociedade se prontificou e começou a fazer perguntas.

Há uma dinâmica interessante acontecendo no que se refere à forma em que a sociedade se envolve com seu passado. Os arquivistas têm o papel de permitir que isso aconteça e de garantir que adotemos uma abordagem integral e sistemática sobre a preservação dos registros.

Como o Conselho Internacional de Arquivos (ICA) deve apoiar os direitos humanos?



© UNESCO/Dana Ziyasheva
Digitalização de manuscritos antigos, Monastério de Gandan (Mongólia).

Não estamos muito estruturados para fazer militância. No entanto, uma questão sobre a qual passamos uma moção na Cidade do Cabo foi o apoio a colegas que trabalham na preservação de registros em condições muito difíceis e em regimes repressivos.

Talvez possamos envolver algumas das agências das Nações Unidas que sejam capazes de ajudar e de fazer alguma pressão para que se dê atenção à dimensão dos arquivos. Talvez haja espaço para também falarmos com a Anistia Internacional.

Você acredita que o ICA deve adotar uma posição oficial em situações nas quais os “direitos fundamentais de arquivo” sejam violados? Por exemplo, no caso de destruição sistemática de registros ou de proibição de cidadãos acessarem arquivos?

O ICA poderia convocar parte de sua rede por meio de um de seus elementos-chave: as associações profissionais em torno do mundo. Há modos para que o ICA monitore as situações, desenvolva os fatos e leve as notícias às associações profissionais com alguns conselhos sobre como se comunicarem com os governos nacionais e outros órgãos envolvidos. Tudo isso depende de capacidade, mas a capacidade do ICA de realmente reunir e enviar notícias é limitada. Há coisas que gostaríamos de fazer e coisas que conseguimos fazer.

Qual é o papel dos arquivos e da gestão dos registros em sociedades em conflito ou em situação de pós-conflito? Você vê questões de governança e de construção de democracias como prioridades para o ICA?

Precisamos estudar como podemos ser eficazes. O arquivista dos Estados Unidos Allen Weinstein e eu já visitamos colegas em Israel e na Palestina. Analisamos a importância dos registros compartilhados para o desenvolvimento de uma compreensão dos povos em uma difícil região do mundo que tem alguns elementos de seu passado e de sua documentação compartilhados.

Lá, há necessidades comuns. Tanto a autoridade palestina quanto os Arquivos Israelenses nos contaram sobre treinamento e sobre a digitalização de registros de interesse comum. Os Arquivos Israelenses têm sido muito generosos e afirmam que têm uma série de registros herdados dos britânicos que gostariam de ver digitalizados e compartilhados. Contam, ainda, com o registro de um censo na região que data do Império Otomano! Não podemos colocá-lo online e torná-lo disponível? Em Israel, há coleções significativas de jornais palestinos de 1920 a 1948 em condições horrendas, sensíveis e delicadas, que precisam ser preservados. Nessas situações, ainda há meios para a comunidade internacional trabalhar. Em lugares como Afeganistão ou Sudão, com graves problemas, já não tenho tanta certeza.





© UNESCO/Joie Springer
Arquivos no Haiti.

Qual a relação entre arquivos, verdade, memória e história?

Para mim, os arquivos são uma fonte fundamental de materiais, um meio de comunicação ao longo do tempo. Permitimos que as gerações falem umas com as outras, trabalhamos em quarta dimensão. O que preservamos e mantemos, o que herdamos de nossos antecessores e o que nós mesmos adicionamos são valores que integram esse processo de comunicação. Cada geração faz perguntas sobre o passado, dependendo de suas preocupações sobre o futuro. Para mim, os arquivos são essencialmente sobre o futuro.

A questão dos direitos humanos é muito importante para as sociedades. Como eu disse anteriormente, muitos registros de violações de direitos humanos ficaram guardados nas prateleiras por décadas, como no exemplo do Canadá, sem qualquer atenção. Apenas quando a sociedade esteve pronta para examiná-los e para aprender sobre o que havia acontecido, eles foram usados.

A verdade é uma difícil questão. Nunca podemos documentar uma sociedade em todas as suas complexidades e diversidades para obtermos a verdade completa.

Contudo, penso que os arquivos são realmente aquele diálogo entre gerações. Embora a atual população do Canadá seja de 30 milhões, eu sirvo 300 milhões de canadenses. Sirvo aqueles que viveram em 1600, sirvo aqueles que viverão em 2200.