ISSN 1993-8616

2008 - número 9


A ideologia em confronto com a história





© Vedic.com
Textos védicos.

No início da década, uma mulher levantou sua voz contra o fundamentalismo hindu que defende a superioridade ariana. Ela foi ouvida. Seu nome: Romila Thapar. A famosa historiadora indiana explica aqui como identidades imaginárias baseadas em argumentos pseudo-históricos afetam os direitos humanos.



As pessoas geralmente pensam que a história é, na verdade, a formalização da memória, mas isso não é verdade. Continua

Romila Thapar é professora emérita de História na Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Déli, e uma das maiores especialistas em história indiana antiga. Seu principal trabalho, “História da Índia, Vol. 1”, tem sido reeditado desde sua primeira publicação, em 1966. Thapar, que acredita na interpretação de textos indianos antigos a partir de novas idéias, já lecionou em instituições de ponta, como nas universidades de Londres, Oxford e Cornell e no College de France, em Paris, e tem integrado parte dos debates em seu país sobre verdade histórica, identidade política e reforma social.

Entrevista feita por Shiraz Sidhva, jornalista indiana.

Você tem se oposto fortemente à tentativa de se usar a história como apoio à ideologia de nacionalismo religioso promovida pelo partido hindu de direita Bharatiya Janata (BJP), que esteve no poder de 1998 a 2004. Houve uma tentativa, ao mesmo tempo, de reescrever os livros didáticos indianos. Como a reescrita da história em apoio à ideologia política recente afeta os direitos humanos?

Deixe-me esclarecer aqui que minha luta foi contra o governo liderado pelo BJP e contra a visão Hindutva (de “hinduidade”) da história indiana e não contra outros governos da Índia. O lobby Hindutva que insistia em mudanças nos livros didáticos indianos defende um ultranacionalismo hindu de direita (frequentemente descrito como fundamentalismo hindu) e está tentando propagar uma história revisionista nas salas de aula e no discurso político. A organização-mãe na Índia, conhecida como Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), tem uma agenda política distintamente marcada pelo fundamentalismo religioso. A RSS e seu braço político, o partido Bharatiya Janata (BJP), ganharam poder ao derrotarem os indianos secularistas moderados por meio da exploração dos sentimentos nacionalistas hindus. A RSS tem estado envolvida em vários graves incidentes de violência motivados por motivos religiosos durante os últimos 20 anos.

A controvérsia sobre o meu trabalho envolveu alguns livros didáticos que escrevi para escolas das últimas séries do ensino fundamental nos quais eu falava sobre as vidas dos arianos conforme as conhecemos nos textos védicos. Mencionei, por exemplo, que os indianos antigos comiam carne bovina: as referências nos textos védicos são claras e há evidência arqueológica disso. A direita hindu enalteceu os arianos como o grande modelo de sociedade da Índia antiga e se opôs a qualquer crítica a eles. Quando eles se opuseram a isso e a outras de minhas afirmações, apresentei evidências tiradas dos textos como prova. Mas eles insistiram que as crianças não deviam aprender que se comia carne bovina nos tempos antigos. Minha reação foi dizer que é historicamente mais correto explicar às crianças porque se comia carne bovina antes e porque, mais tarde, se introduziu a proibição.

Embora o ataque a mim tenha sido cruel, não fui a única historiadora atacada. Éramos seis os que haviam escrito os livros didáticos anteriores e houve também outros que falaram contra as mudanças no currículo escolar e nos livros didáticos pelo governo da época. Essas mudanças foram feitas sem consulta aos órgãos educacionais que normalmente deveriam ter sido consultados. O governo então nos caracterizou como anti-hindus, consequentemente anti-indianos, antipatrióticos e, portanto, traidores.

A exclusão de algumas passagens em nossos livros e a proibição de qualquer discussão sobre as passagens excluídas levantaram uma série de questões de todos os tipos quanto aos direitos dos indivíduos e à ética das instituições governamentais.

Houve também um forte protesto de alguns indianos vivendo nos Estados Unidos quando a Biblioteca do Congresso daquele país nomeou você para ocupar a Cátedra Kluge sobre Países e Culturas do Sul, em 2004. Quais foram as conseqüências daqueles protestos? Os livros foram novamente revisados quando o governo do partido congressista substituiu o partido Bharatiya Janata, em Nova Déli?



© John Harrington
Romila Thapar foi a primeira a ocupar a Cátedra Kluge de Países e Culturas no Sul, na Biblioteca do Congresso (em 2004).

A Biblioteca do Congresso rejeitou sem hesitação a demanda do lobby Hindutva, principalmente dos indianos residentes nos EUA, para que minha nomeação fosse revertida. Essa demanda, então, foi aos poucos silenciada. Mas o abuso eletrônico com envio de e-mails continuou sem pausa.

Quando o partido congressista chegou ao poder, em 2004, ele decidiu se livrar de todos os livros didáticos anteriores, escritos por nós desde os anos 60 e 70, assim como aqueles produzidos pelo governo BJP, antes de sua derrota. Um novo conjunto de livros didáticos, atualmente em uso, foi encomendado. Eles são diferentes daqueles que escrevemos, refletem alguns dos novos interesses em história como disciplina e não tentam promover a linha dura Hindutva.

A questão preocupante é: o que vai acontecer se o partido Bharatiya Janata voltar ao poder nas próximas eleições, previstas para os próximos 12 meses? Eles mudarão os livros didáticos novamente? Eu me preocupo com os alunos que têm que ser examinados no assunto e dependem dos livros didáticos.

Se aceitarmos que a agenda e as crenças de um grupo religioso sejam ensinadas nas escolas públicas, isso abrirá as portas para que todos os outros grupos façam a mesma coisa. Como educadores, precisamos fazer a distinção entre história, de um lado, com sua liberdade de questionar o conhecimento existente sobre o passado, quando necessário; e a fé, de outro, onde mitos são aceitos. Ambas devem ser mantidas separadas. A primeira se encontra no domínio do historiador; a segunda, no do sacerdote.

No nível internacional, muitas atrocidades contra os direitos humanos nos últimos anos buscaram legitimidade na história, usando o pretexto de corrigir os erros do passado. Como isso pode ser evitado?




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O restaurado templo hindu de Somnath.

Os partidos políticos de hoje se baseiam fortemente em ideologia e também na história porque grande parte da política atual é determinada por identidades imaginadas: sejam identidades raciais imaginadas, identidades religiosas imaginadas ou qualquer outra identidade, há uma construção de identidades. Elas são projetadas a partir do passado, mas na realidade surgem a partir de preocupações com o presente. E essas identidades imaginadas que fazem parte das ideologias políticas têm uma grande probabilidade de entrar em conflito com a história. O conflito também assume a forma de criação do que se acredita ser uma cultural nacional, ou a cultura nacional por excelência. Isso nunca é questionado porque, se você a questionar, você se tornará um traidor da nação. E é geralmente uma única parte cuidadosamente selecionada da cultura como um todo que é colocada em relevo e exagerada. Isso facilita a potencial exclusão de alguns cidadãos com base em sua religião, raça, língua ou qualquer identidade que esteja convenientemente ao alcance. Isso é muito danoso para questões de direitos humanos porque dá prioridade a certos grupos e culturas em detrimento de outros.

Mas não é perigoso, para as autoridades que detêm o poder, imaginar que elas podem corrigir os erros do passado?

Essa é uma reivindicação comumente feita. Temos um exemplo, no caso indiano, no qual uma facção política hindu liderada pelos líderes do BJP destruiu a Mesquita Babri, do século XVI, em Ayodhya (norte da Índia), em 1992, e defendeu que estava se vingando do ataque de Mahmud de Ghazni a Sommath (um templo hindu). Estariam, portanto, corrigindo um erro do passado.

Primeiramente, precisava levar mil anos até que esse ato (de Ghazni) fosse vingado, se de fato a idéia era vingá-lo? Mais importante do que isso, como essa ação corrigiria o erro do passado? Qual foi o resultado da destruição da Mesquita de Babri? Isso não fez a menor diferença para a nossa leitura do passado. O que isso fez foi causar um genocídio de muçulmanos em Gujarat (estado no oeste da Índia) e, desde então, uma série de explosões de bombas nas principais cidades do país. O que é defendido como uma correção dos erros do passado, portanto, não pode representar o que é correto desta forma. De qualquer maneira, é um argumento tolo, pois o passado é o que aconteceu. Ele não pode ser mudado e, por isso, é mais importante corrigir os erros do presente do que se debruçar sobre o que podem ter sido erros do passado.