ISSN 1993-8616

2008 - número 9


Capturando a Essência da Ausência



A mostra do fotógrafo argentino Gustavo Germano, “Ausências”, explora o universo de vítimas dos “desaparecimentos” durante a “Guerra Suja” da Argentina (1976-1983)*. As fotos são justapostas em pares: uma antiga e uma recente. Na foto nova, falta uma pessoa que desapareceu para sempre, sem deixar qualquer rastro.



© Gustavo Germano

Entrevista feita por Lucia Iglesias e Casey Walther (Correio da UNESCO).

Em sua mostra fotográfica “Ausências”, você documentou a repressão que ocorreu na Argentina. Por que é importante documentar essas violações aos direitos humanos em vez de permitir que essas memórias dolorosas descansem em paz, como algumas pessoas têm sugerido?

Em minha opinião, algumas das mais graves violações aos direitos humanos são cometidas pelo Estado, ou seja, quando o Estado é o agente do terror e se torna um instrumento de repressão ilegal, usando métodos perversos como o desaparecimento forçado de pessoas. Esse tipo de ação traz conseqüências para a sociedade: inicialmente há medo e incerteza. Depois, com o passar do tempo, há uma sensação de incapacidade de fazer luto pelos que morreram.

Então, o que estou querendo expressar por meio do meu trabalho é que, para além dos desaparecimentos forçados que aconteceram na Argentina, há também o tempo que passou. Quero refletir o duplo efeito que o tempo tem causado. Por um lado, o tempo que os sobreviventes agüentaram viver na ausência de seus entes desaparecidos. Por outro lado, há o tempo perdido pelas pessoas que desapareceram e não tiveram a chance de aproveitar suas vidas. Quando eu estava criando o conceito dessa mostra, pensei que seria bom capturar o envelhecimento dos sobreviventes. E foi esse conceito básico e humano que o terrorismo do Estado destruiu.



© Gustavo Germano

Como você desenvolveu o trabalho com os parentes dos desaparecidos?

Em todos os casos houve momentos em que conexões reais foram feitas e em que eles reviveram o momento da foto original. Foi realmente uma viagem ao passado e, ao mesmo tempo, um olhar para o futuro. Houve casos em que os parentes nunca tinham retornado ao lugar onde a foto original foi tirada. Não sei se consciente ou instintivamente, mas cada um dos familiares depositou em mim completa confiança para trabalhar com eles. Acho que isso está refletido nas fotos. Pessoalmente, agradeço com humildade por ter sido o veículo por meio do qual essas pessoas foram capazes de denunciar aqueles crimes e por ter criado o momento que possibilitou que isso fosse expressado. Também acredito que, embora minha intenção não tenha sido fazer um projeto autobiográfico, o fato de eu mesmo ter vivido a experiência de perder alguém da minha família devido a esses mesmo crimes possibilitou que eu e essas pessoas nos conectássemos, porque entre nós há uma fraternidade compartilhada. E, por meio desse projeto, a minha própria família pôde crescer.

Além disso, todas as pessoas que fotografei são da província de Entre Rios, na Argentina, onde supostamente “nada aconteceu”. Eu venho dessa província e senti que seria importante documentar casos de desaparecimentos que não eram conhecidos e que afetaram pessoas comuns de vilarejos distantes, de modo a mostrar que a tragédia também afetou essa região.



© Gustavo Germano


Qual é a situação atual na Argentina com relação a esses crimes?

Na Argentina, aboliram-se as leis que, até recentemente, impediam a perseguição daqueles responsáveis por esses crimes. Pouco a pouco, essas pessoas estão finalmente sendo levadas a julgamento, embora, para se defenderem, elas evoquem o tempo que passou e defendam que o processo deveria esperar pelo fim de suas vidas já que estão muito velhas. No entanto, alguns foram presos, o que nós claramente aplaudimos. É por isso que meu trabalho procura conscientizar o público sobre essa questão.

* Em 1999, a UNESCO concedeu o Prêmio de Educação para a Paz às Mães da Praça de Março, uma associação de mães cujos filhos desapareceram naquele período.