2008 - número 9
Em foco

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 © UNESCO/Michel Ravassard
Bachir Diagne na UNESCO (2007).
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Rumo a um pacto “inter-humano”
Desencanto com a democracia, desespero entre os jovens africanos: esse é o diagnóstico de Souleymane Bachir Diagne, filósofo senegalês conhecido por buscar constantemente novas perspectivas. Ele rejeita as idéias de uma “nova fronteira” ou de “co-desenvolvimento” e defende a “emergência cosmológica” como uma visão de mundo.
Ex-decano da Universidade Cheikh Anta Diop University, em Dacar, Senegal, ele também é membro fundador do CODESRIA, o Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais na África e atualmente é professor da Universidade Columbia, em Nova Iorque.
Souleymane Bachir Diagne respondeu às perguntas de Gabrielle Lorne, jornalista da RFO-A.I.TV.
Você recentemente criou o conceito de “intensificação urbana”. O que ele significa?
Por volta de 2050, um em cada dois africanos estarão vivendo em um ambiente urbano se o crescimento das cidades na África continuar no ritmo atual. No entanto, não existe uma industrialização nascente simultânea à urbanização que ofereça esperança quanto ao futuro àqueles que deixarem as áreas rurais. Em países europeus, o êxodo rural aconteceu simultaneamente à revolução industrial. Aqueles que chegaram nas cidades vieram para assumir posições, trabalhos e empregos criados pela indústria. Esse não é de forma alguma o caso da África.
Milhões de pessoas estão espremidas em favelas, em terrenos baldios, sobrevivendo da maneira como podem. Não há qualquer planejamento urbano preliminar – são lugares sem habitação, sem água potável, sem saneamento ou eletricidade. Abrigos se espalham de uma forma completamente caótica.
A expressão “intensificação urbana” designa tanto a maneira como as pessoas que chegam do campo ocupam esse novo espaço, transportando para lá seu modo de vida próprio, como as transformações que ocorrem em nível de valores: a solidariedade, a partilha, a generosidade e o senso de coletivo que caracterizam nosso modo de vida são rapidamente corrompidos.
Você vê riscos em termos de “segurança humana”?
“Segurança humana”… é bom ver que essa noção emanada da UNESCO está marcada nas mentes das pessoas, porque a segurança está ligada não apenas à luta contra o crime organizado ou o terrorismo, mas também à vida em geral e ao futuro. Ainda assim, a completa insegurança sobre o futuro é exatamente o sentimento mais profundo para os jovens africanos. Ele produz o medo do amanhã e esse medo pode, por sua vez, dar lugar à fragmentação étnica ou religiosa. Além disso, o estado decadente e sobrecarregado das instituições supostamente destinadas a produzir o futuro, como as escolas e as universidades, contribui para a insegurança humana e para o desencanto com a democracia.
Você disse “desencanto com a democracia” ?

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 © UNESCO/Michel Ravassard
"A pobreza prevalecente gera o desespero que leva jovens a se jogarem na água para fugir da situação", diz Bachir Diagne.
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A questão desafiadora que nossas sociedades devem responder hoje é: que grau de pobreza é compatível com o desenvolvimento democrático normal? O Senegal frequentemente serve como exemplo de democracia na África. É verdade, eleições são organizadas lá regularmente e aqueles no poder admitem a derrota e felicitam o vencedor. Mas isso é suficiente? O predominante nível de pobreza produz um desespero que leva os jovens a se jogarem na água para poderem escapar.
Por muito tempo, analisamos a emigração como uma busca por bem-estar econômico e social em outro lugar. O que causa problemas, hoje, é que todos sabemos que este outro lugar não é um paraíso! Eles sabem disso! Por outro lado eles sabem que onde vivem é um inferno. Quando os jovens de um continente pensam que seu futuro se encontra em outro lugar, somos forçados a dar atenção a isso.
O ideal pan-africano, que você diz ressurgir, pode atuar contra essa desesperança?
O fracasso do Estado Africano já foi observado. O Estado-nação africano é muito pequeno para garantir um espaço real para o desenvolvimento. Portanto, a idéia de uma união africana parece boa para mim, pois ela pode oferecer espaços mais amplos ao descentralizar, ao dar expressão a todas as diferenças, incluindo mesmo a menor delas existente no nível regional. Uma África integrada pode fazer frente à tendência de fragmentação que vemos de tempos em tempos.
A consolidação dos Estados é a melhor resposta para os jovens e para a pressão externa da globalização. É por isso que eu às vezes uso a expressão norte-americana “nova fronteira”. Temos que imaginar alguma oportunidade futura para os jovens de nosso continente.
Você acredita que a comunidade internacional e os países doadores considerarão ser de seu interesse apoiar essa integração?

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 © UNESCO
Capa de “Assinemos a paz com a Terra” (UNESCO, 2007).
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Essas comunidades externas entendem que, ao nos ajudarem, estão ajudando a si próprias. Afinal de contas, nossos emigrados são seus imigrantes. Recentemente, temos falado novamente de “co-desenvolvimento”. Chegou a hora de reanimarmos esse conceito. Se ele consiste em colocarem um pouco de dinheiro em nossos países, então ele é ineficiente. Por outro lado, se as medidas necessárias forem tomadas para nos ajudar a construir espaços viáveis de desenvolvimento, então o conceito atinge seu significado completo.
Os Estados africanos e europeus podem se coordenar para destinar a ajuda ao desenvolvimento à criação do espaço físico para a integração. Eles podem dizer para si mesmos: vamos construir juntos a infra-estrutura para o desenvolvimento e deixar o desenvolvimento por conta das iniciativas das pessoas. É isso que “ajuda” significa para mim. Se os jovens do continente sentirem que esse espaço existe e que ele está aberto para a sua imaginação, para o seu espírito de empreendimento, veremos suas iniciativas florescerem.
Em "Signons la paix avec la terre" (Assinemos a paz com a Terra, UNESCO, 2007), você defende uma “cosmologia da emergência”. Como isso deve ser entendido?
A cosmologia da emergência significa que o cosmos está vivo e que ele evolui constantemente. Essa teoria da evolução deve ser uma forma de pensarmos sobre o mundo e sobre nós mesmos no mundo. Ela pode nos tornar conscientes de nossa responsabilidade por fazer da Terra, ao mesmo tempo, humanidade e natureza.
Os seres humanos estão conscientes da direção do mundo, enquanto outros seres vivos estão sujeitos à sua evolução. Por termos essa consciência, temos a responsabilidade de apoiar essa evolução em direção a um desenvolvimento positivo e sustentável. É uma responsabilidade que devemos assumir para perpetuar o movimento.
Você sugere estabelecer o pacto de nossa responsabilidade com a natureza como um pacto “inter-humano”.
Eu não gosto muito da expressão contrato natural ou com a natureza. A natureza não é uma entidade legal, não podemos assinar um contrato com ela. Isso é entre nós, humanos, que fazemos contratos. E nosso dever com a natureza é o dever da humanidade. Ser moderno é vincular uma cosmologia constantemente emergente com o trabalho político de ampliar uma sociedade aberta.