2008 - número 9
Homenagem

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 © Le Soleil
O historiador Joseph Ki-Zerbo.
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Restaurando a dignidade da África
Seus compatriotas afetivamente o apelidaram de “O Professor”. Sua ambição: unir ciência, conscientização e vida, tanto quanto possível, para criar um “mundo diferente”. Joseph Ki-Zerbo nasceu em Toma, Burkina Faso, em 21 de junho de 1922. Morreu em 4 de dezembro de 2006, em Ouagadougou.
Ki-Zerbo foi um dos pais da historiografia africana moderna, cujo ponto alto foi a publicação dos oito volumes da “História Geral da África (Editora da UNESCO, 1970-1990). Membro do comitê científico para a produção coletiva da obra, Ki-Zerbo desempenhou um papel chave nesse projeto pioneiro.
O Professor
Primeiro africano a receber o grau de professor de história denominado "aggregation", em 1956, Joseph Ki-Zerbo teve uma longa carreira de educador.
A maioria dos países africanos conquistou sua independência nos anos 60. As novas circunstâncias demandavam uma história da descolonização. As teorias, inclusive de Hegel, que colocavam a África às margens da história (chamando-a de o continente “a-histórico”), haviam influenciado enormemente abordagens eurocêntricas quanto ao passado africano. A história africana era considerada um apêndice da história européia. As tradições orais africanas eram consideradas uma “memória repetitiva” pouco confiável e que não poderiam, segundo aqueles obcecados pela escrita, servir como fonte para a história. Esqueceu-se até mesmo que a África, além de já ter sido um reservatório de tradição oral, teve longa tradição de escrita não apenas no Egito, mas também na Etiópia, Mali (Timbuktu), Nigéria (Kano) e Tanzânia (Kilwa).
Joseph Ki-Zerbo, juntamente com Cheick Anta Diop, do Senegal, era o porta-estandarte para a descolonização da história africana. Sua liderança intelectual foi chave dentro da chamada “geração de 1956”, que estabeleceu as fundações da história africana “começando pela matriz africana” e eliminando, dela, o preconceito racista. Rompendo com abordagens e métodos anteriores que eram inapropriados para a reconstituição do passado do continente africano, o professor defendeu a aceitação das tradições orais africanas como fontes históricas, em adição às fontes escritas e arqueológicas. Ele questionou a idéia da pré-história como se referindo ao período precedente à invenção da escrita, particularmente rico em criatividade no continente africano, e dirigiu o Volume I da “História Geral da África”, publicado pela UNESCO (1970-1990) e dedicado exatamente à pré-história africana e aos problemas de metodologia.
Adicionalmente, seu livro Histoire de l’Afrique Noire d’hier à demain (História da África Negra: de ontem ao amanhã, 1972) é o texto principal que representa uma nova abordagem para a história africana, uma abordagem que tenta identificar os processos internos e externos que podem explicar a evolução do continente, a longo prazo.
Historiador e ativista
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 © DR
Capa do livro “À quand l’Afrique ?” de Joseph Ki-Zerbo.
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A obra intelectual de Ki-Zerbo não pode ser analisada separadamente de seu ativismo político, iniciado quando ele era um jovem estudante e participou da fundação de diferentes partidos políticos, incluindo o Mouvement de Libération Nationale (MLN, Movimento de Libertação Nacional), para promover a independência e a unidade do continente. Sólido pan-africanista, companheiro de N’Krumah (Gana) e Patrice Lumumba (Congo), Ki-Zerbo conseguiu, durante sua vida, transformar seus pensamentos em ações. Nesse espírito, co-fundou a Associação de Historiadores Africanos, da qual foi presidente de 1972 a 2001. Também expressou seu compromisso com a defesa da dignidade humana, em cada fronte.
Para Ki-Zerbo, “o real historiador é o intelectual na polis, o intelectual orgânico envolvido em seu ambiente enquanto mantém certa distância, sem a qual seria mero partidário”. Suas análises edificantes dos desafios de hoje – desenvolvimento, globalização, educação, meio ambiente, identidades – resultaram em uma série de livros com títulos provocadores: “Educar ou Padecer” (1990), “A esteira do outro” (1992), “A África quando?” (2003). O conhecimento e sabedoria que impregnam seu trabalho dão a ele um impacto universal. Com raízes no humanismo, Ki-Zerbo é alimentado por valores africanos profundos e convida a uma alteridade (do tipo que não aliena) para construir um “mundo diferente” de solidariedade e respeito mútuo.
Doulaye Konaté, professor da Universidade de Bamako, é presidente da Associação de Historiadores Africanos.
Em 2004 Dany Kouyaté dirigiu um documentário sobre Joseph Ki-Zerbo, com a participação do próprio historiador, chamado "Identités et identité pour l’Afrique" (Identidades e identidade para a África), disponível no Centro de Estudos Africanos para o Desenvolvimento (CEDA), fundado por Ki-Zerbo, em 1980.