2009 - número 1
A síndrome do escafandrista

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 © Missão Arqueológica Francesa (Líbia)
"É verdade que senti uma enorme surpresa ao achar um 'solidus' de ouro raríssimo, mas tal emoção nada tinha a ver com o valor monetário desse objeto", escreve Blas de Roblès.
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Ao contrário da caça aos tesouros, um caçador de sonhos comunica-nos a emoção que experimenta ao "recuperar, no recôndito do esquecimento, fragmentos de genuína beleza". De 1986 a 2001, o escritor francês Jean-Marie Blas de Roblès participou de uma expedição subaquática ao largo do litoral líbio, explorando assim a "parte invisível de nós mesmos", cuja proteção deve merecer todo o apreço e respeito.
A operação começou em 1985. Claude Sintes [diretor do Museu de Antiguidades de Arles] que estava voltando de sua primeira participação nas escavações terrestres da “Mission Archéologique Française” [Expedição Arqueológica Francesa], na Líbia, empenhou-se em compartilhar comigo – esse é um dos privilégios peculiares da amizade – sua experiência: ele estava chegando de Apolônia (porto grego da antiga província da Cirenaica, celebrada outrora por Píndaro ou Calímaco), depois de ter visitado Cirene, Sabratha e Leptis Magna, vestígios greco-romanos cuja amplitude superava tudo o que conhecíamos ou pudéssemos ter imaginado. “Eu não fazia a mínima ideia, insistia ele, desse paraíso: cidades inteiras estavam soterradas pela areia, à beira-mar, no meio de magníficas paisagens”.
Mas, existe outro aspecto mais instigante: praticamente, ninguém havia pensado em esquadrinhar o fundo submarino desse litoral; tudo permanecia no mesmo estado, desde o século VII a.C.! Teria eu condição de imaginar, sequer, os fabulosos achados que tal situação poderia proporcionar ? Sem dúvida, destroços de navios antigos – já que o golfo de Sirte foi sempre uma das orlas marítimas mais inóspitas do mundo –, além de obras arquitetônicas submersas, estátuas, objetos de toda a espécie… Pois bem, ele havia conseguido autorização para organizar, no verão seguinte, uma expedição de arqueologia subaquática!
Do ponto de vista técnico, ele dava conta do recado; mas, ficava por resolver o problema da contratação do pessoal. Como o sistema político líbio impedia qualquer tipo de comércio a varejo, o reabastecimento tornava-se uma tarefa extremamente difícil; por sua vez, as condições de trabalho e de moradia eram de tal modo precárias que, para caracterizar a situação, o uso do termo « espartano » não passava de um lisonjeiro eufemismo. Assim, ele deveria encontrar indivíduos em que pudesse depositar sua confiança: não só técnicos abalizados, mas, sobretudo, pessoas experientes e sempre dispostas a arriscar a vida. De minha parte, eu possuía um conhecimento razoável da arqueologia, uma verdadeira experiência de vida no mar e o hábito de viver em um local confinado: se não me incomodasse em cozinhar, além de fazer escavações, eu seria o primeiro contratado…
E pronto! Desta maneira é que foi desencadeada a operação. Ao aceitar a proposta, pulei de alegria – eu teria concordado, inclusive, em fazer a faxina para acompanhá-lo até a Líbia – mesmo sabendo que minha participação, assim como a de todos os outros membros da equipe, começaria precisamente por esse tipo de serviço.
Em agosto de 1986, nossas bagagens e o material restante foram transportados em três dias para o local. À chegada, a primeira tarefa consistiu em tornar habitável nossa moradia : um casebre do tempo da colonização italiana, infestado de escorpiões ressequidos e de enormes baratas da cor de acaju. No dia seguinte, a primeira saída para reconhecer o ambiente de trabalho, com máscara e respiradouro, confirmou as observações do arqueólogo norte-americano, Nicholas Flemming: depois de um levantamento inicial, em 1957, ele havia anotado que as estruturas submersas do porto de Apolônia estavam bem visíveis e, incontestavelmente, justificavam as escavações que pretendíamos empreender.
Referindo-me, em particular, a interesses pessoais, essas circunstâncias levaram-me a descobrir, de saída, um universo que, em meu entender, era reservado à literatura. De súbito, fui introduzido em um mundo em que a supremacia havia sido disputada por Jules Verne e H. G. Wells – autores de Vingt mille lieues sous les mers [Vinte Mil Léguas Submarinas] e La Machine à explorer le temps [A Máquina do Tempo], respectivamente. No entanto, eles convergem na mesma fruição: a sensação viva, a certeza de sobrevoar uma Atlântida deserta!
Eu me apaixonara pela Grécia ao estudar os pré-socráticos, enquanto minha paixão pela Antiguidade estava emergindo desse batismo nas águas tépidas de Apolônia. Praticante assíduo de caça com arpão, desde a minha primeira adolescência, os fundos submarinos – prados de laminárias, cavernas rochosas cobertas por gorgônias, lânguidas ondulações de areia – eram apenas o pretexto para a tocaia ou a aproximação de uma presa idealmente focalizada como alvo. Tais paisagens familiares, quase corroídas pelo costume, assumiram uma dimensão fantasmagórica : aqui, um alinhamento de blocos ciclópicos ajustados com caudas de andorinha; ali, uma torre quadrada; mais adiante, esculpidas na rocha-mãe, rampas para trirremes; e, a dois metros de profundidade, um viveiro, descrito por Vitrúvio [arquiteto romano do século I a.C.], com suas concavidades para os polvos e as moréias…
Por todos os lados, entre cada pedra e cada estrutura, mais ou menos perceptível sob seu revestimento de algas, eram visíveis – e ao alcance de um simples movimento do braço – dezenas, até mesmo, centenas de objetos que mereceriam ser exibidos nos museus ou, pelo menos, nas caixas de arquivos dos arqueólogos: bojos ou fundos de ânforas de todas as épocas, asas rodienses com a gravação da data correspondente ao século VI a.C., taças romanas, peças ornamentais mais ou menos danificadas...
Neste local, um acervo importante encontrava-se soterrado – inerte a exemplo do que acontece na seqüência de uma catástrofe –, à inteira disposição de quem estivesse interessado por esse material. Hoje em dia, Apolônia limita-se a uma língua de terra avermelhada, cuja paisagem é recortada por colunas bizantinas, um teatro situado no flanco da colina e diversas construções tardias. Mas, à distância de alguns metros da orla marítima, uma Pompéia submersa esperava seus visitantes. Uma incrível oportunidade para o cientista, uma dádiva dos deuses para o sonhador que não deixei de ser.

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 © Missão Arqueológica Francesa (Líbia)
Claude Sintes e Jean-Marie Blas de Roblès descobrem uma estátua de Dioniso.
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Aventuras e desventuras
Para os praticantes, é evidente que a arqueologia subaquática equipara-se à arqueologia terrestre; ambas utilizam técnicas semelhantes, mesmo que a instalação de uma expedição subaquática seja mais complicada, além de exigir equipamento e competências específicas. No nosso caso, as condições de trabalho foram particularmente complexas. Na ausência de barco, devíamos transportar os botijões e o restante do material a pé, até a praia. Para rentabilizar nossa tarefa, havíamos assumido o compromisso de fazer cotidianamente dois mergulhos: de manhã, três horas, seguidas pelo reabastecimento dos botijões na praia coberta de cascalho; na parte da tarde, mais três horas debaixo d’água. Em seguida, tínhamos de levar nosso equipamento para o armazém, fazer sua limpeza e manutenção, inventariar nossos achados e, por fim, preparar a refeição.
Com os integrantes da equipe terrestre, eu tinha de alimentar, todas as noites, uma dúzia de pessoas; a expedição dispunha de uma cantina repleta de queijo, suco de laranja em pó, temperos e biscoitos... Como era impossível obter mercadorias nas lojas do Estado, tínhamos de contar com nossos amigos líbios para comprar açúcar, massas e arroz para elaborar as receitas de urgência, sugeridas por minha mãe. Apesar de um cardápio mais caprichado, regularmente, com peixe – garoupas que, todas as sextas-feiras, pescávamos em apnéia –, eu ainda me questiono como foi possível escapar de uma revolta do pessoal! Tanto mais que a água disponível era retirada de uma cisterna; além disso, era necessário mostrar certa inconsciência para limpar, antes de beber, as larvas de mosquito de nossos copos.
Depois do jantar, noticiário das escavações; em seguida, um chá de hortelã no terraço, sem tirar os olhos dos escorpiões que avançavam em direção à luz.
Nos 15 anos de expedições, a lista de nossos infortúnios seria amplamente suficiente para deixar enojado qualquer pretendente à carreira de arqueólogo: serpente entre os lençóis; escorpiões dentro dos sapatos; pesca com granada bem perto do local em que efetuávamos os mergulhos; tiros de advertência com metralhadora de longo alcance em direção do nosso perímetro de ação, demasiado próximo de uma zona proibida; sufocamentos por conta do mar encapelado, etc. Por mais surpreendente pareça, nenhum desses inconvenientes ofuscou a felicidade de participar de tais empreendimentos.

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 © Missão Arqueológica Francesa (Líbia)
O "Dioniso ébrio" reconstituído.
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Dioniso, o "nascido duas vezes"
A partir da expedição de 1986, nossos resultados criaram uma expectativa tão grande que a equipe subaquática foi escolhida para esquadrinhar o porto de Leptis Magna. No ano seguinte, uma prospecção conduziu ao reconhecimento de uma muralha submersa que modificou sensivelmente a importância desta cidade no que concerne à época da dinastia romana dos severos (final do século II/início do século III). Por sua vez, o estudo minucioso do porto de Apolônia havia permitido não só compreender sua evolução, desde suas origens gregas até seu abandono no século VII, mas também determinar o coeficiente de desmoronamento das terras que, em parte, está na origem de seu soterramento. Estes trabalhos levaram à descoberta dos restos de naufrágio do período helenístico e à recuperação de um grande número de objetos de argila, moedas e estátuas.
Entre as motivações iniciais de minha adesão a estas expedições – o espírito de aventura, a amizade, os textos de Albert Camus [escritor francês, Prêmio Nobel de literatura em 1957] sobre Tipasa ou Djemila [dois sítios arqueológicos, na Argélia, incluídos na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO] –, nunca existiu o atrativo pela “caça ao tesouro”. É verdade que senti uma enorme surpresa ao achar um solidus de ouro raríssimo. No entanto, em vez de se referir ao valor monetário desse objeto, tal emoção tinha a ver com o brilho desse pequeno sol – girando sobre si na água azul como se fosse um espelho –, acrescida pela inefável alegria de ter recuperado, no recôndito do esquecimento, um fragmento de genuína beleza. Eis um procedimento bastante semelhante, afinal de contas, ao que se manifesta na escrita. Neste aspecto, parece-me que o livro Le Syndrome du scaphandrier [A síndrome do escafandrista] do romancista francês, Serge Brussolo, constitui uma das mais bem-sucedidas metáforas: um caçador de sonhos mergulha, com o correr dos dias, na obscuridade do sono; desse universo paralelo, ele faz surgir uma espécie de ectoplasmas e de estranhas ficções que, ao se incrustarem na realidade, conseguem subsistir.
Passados 15 anos, outra descoberta ilustra, ainda melhor, as razões de minha perseverança. Durante a expedição subaquática concernente aos viveiros da época romana, em Apolônia, Claude Sintes e eu próprio tivemos a sorte de desenterrar uma estátua de Dioniso; transportada para o laboratório, seu estudo revelou que ela se ajustava perfeitamente a uma estatueta de sátiro, encontrada em 1957 – precisamente aquela que Nicholas Flemming segurava, como se fosse um recém-nascido salvo das águas, em uma foto tirada no momento em que ele retornava de um de seus mergulhos. No intervalo de quase 50 anos, acabávamos de reconstituir um “Dioniso ébrio” que havia atravessado o tempo e, com certa ironia, dava a impressão de confirmar seu apelido de “nascido duas vezes”.
A arqueologia cria laços. Mais do que qualquer outra disciplina, facilita a aproximação e a reconciliação de seres vivos que haviam sido separados pela passagem dos séculos. Por sua vez, o patrimônio subaquático é mais diretamente acessível e, muitas vezes, mais bem preservado, mais homogêneo, que seu equivalente terrestre. Além disso, ele ainda está por ser explorado: pensemos, por exemplo, nos 1.500 km da região litorânea da Líbia, cujos mistérios continuam submersos, para nos convencermos de que, à semelhança do que se passa com a parte manifesta de nós próprios, nossa parte invisível deve ser protegida com apreço e respeito.
Jean-Marie Blas de Roblès, escritor, filósofo e arqueólogo francês, nasceu em 1954, em Sidi-Bel-Abbes (Argélia); entre outros livros, é autor de Libye grecque, romaine et byzantine (Edisud, 2005). O Prêmio Médicis 2008 foi atribuído a seu último romance, Là où les tigres sont chez eux (Zulma, 2008).