ISSN 1993-8616

2009 - número 2


Em foco





© Sam Brown
Clea Koff, antropóloga médico-legal.

Clea Koff: os ossos não mentem jamais

Antropóloga e especialista em medicina legal, Clea Koff publicou, em 2004, "La mémoire des os" (A Mémória dos Ossos), diário redigido por ela no decorrer das sete missões que, por incumbência da ONU, efetuou em Ruanda, Bósnia, Croácia e Kosovo. Ao fim de suas investigações, os responsáveis pelos crimes foram denunciados à justiça.

Cléa Koff: Biografia

Entrevista conduzida por Shiraz Sidhva, jornalista indiana residente nos EUA e especializada na área dos direitos humanos, por ocasião do Dia Internacional da Mulher (8 de março).

Em seu livro, você elabora a crônica de alguns dos mais terríveis massacres da humanidade. De onde vem seu interesse pela antropologia médico-legal e como conseguiu estabelecer o nexo entre essa ciência e a defesa dos direitos humanos?

Na década de 1980, essa especialização de antropologia ainda era incipiente. Desde minha infância, sempre experimentei certo fascínio pelos ossos; ao iniciar meus estudos de arqueologia e de antropologia na universidade, apaixonei-me pelo esqueleto humano. Em seguida, cheguei a fazer escavações na Grécia, mas dei-me conta de que minha vocação não era a de exumar sepulturas da Antiguidade com um objetivo histórico.

Nesse verão, meu pai me deu um livro de Eric Stover e Christopher Joyce intitulado Witnesses from the Grave: The Stories Bones Tell [As testemunhas da sepultura: estórias contadas pelos ossos], que descreve a formação da equipe científica destinada a identificar os restos mortais dos «desaparecidos» vitimados pela Junta Militar na Argentina, nas décadas de 1970 e de 1980. Esse livro é que me orientou para uma especialização em medicina legal. Agradou-me o fato de que essa ciência, ao proceder à identificação de restos mortais, contribuía para a plena realização da justiça.

Seu livro é um relato chocante e sem complacência das provações que você experimentou no decorrer de suas missões por incumbência da ONU. Ao descrever seu penoso labor físico e o mau cheiro que impregna suas roupas, você não deixa de exprimir uma imensa satisfação quando encontra corpos soterrados. Como conseguiu superar as condições tão desfavoráveis de seu trabalho?

Agora que estou longe desse período intenso de trabalho, deixei de sentir qualquer incômodo. Quando começamos a remexer a terra e encontramos roupas e restos humanos, ficamos felizes porque não só revelamos o que se encontrava dissimulado, mas também desenterramos indivíduos que, em hipótese alguma, deveriam estar nesse lugar. De algum modo, chegamos à reconstituição de tudo o que é possivel reconstituir do crime que havia sido perpetrado.

Com o recuo e o distanciamento, agora que deixei de estar pessoalmente nos locais de exumação, percebo de maneira flagrante nossa falta de poder como médicos legistas. Por definição, nossa intervenção ocorria depois de o crime ter sido cometido. Pode parecer estranho, tanto mais que sou uma cientista, mas eu gostaria de reconduzir essas pessoas para a vida; e a razão é, evidentemente, porque elas nunca deveriam ter morrido dessa forma. Não houve catástrofe natural, nem tsunami, nem sismo, nada ocorreu que pudesse ter escapado à vontade do homem; pelo contrário, deparamo-nos com provas tangíveis de que se trata de execuções planejadas, de que decisões políticas permitiram a ocorrência dessas abominações e que, portanto, elas poderiam ter sido evitadas. Sentimo-nos impelidos a retornar no tempo e ressuscitar esses mortos – eis um sentimento que nada tem de científico, mas que ainda hoje, e já decorreram vários anos depois de eu ter deixado minha atividade, não consigo superar.

É óbvio que tive de aprender a organizar tudo isso para sentir a verdadeira utilidade de minha tarefa; caso contrário, eu não conseguiria me olhar no espelho. Essa é a razão pela qual me dedico, atualmente, a prevenir esse gênero de crimes; assim, em uma tentativa para evitar que tais atrocidades venham a reproduzir-se, faço questão de colocar as provas médico-legais e os cadáveres das próprias vítimas a serviço da verdade suscetível de ser descoberta por seu intermédio.

Você afirma que os ossos falam, revelam um grande número de informações e não mentem jamais. Mas não será difícil encontrar indícios quando, ao mesmo tempo, alguém oculta a verdade?



© Sonya Koshuta
Testemunho do genocídio em Rwanda.

Ao considerarmos o esqueleto humano, observa-se um aspecto formidável: ele registra, dia a dia, os detalhes de nossa vida. Os ossos fornecem informações sobre o defunto: sexo, idade, tamanho, ascendência e patologia. Somos capazes de interpretar as marcas e as modificações ósseas, além de reconhecer as doenças ou os traumatismos suportados no decorrer da existência e no momento da morte do indivíduo. Estamos em condições de proceder a essas distinções e, portanto, de determinar também as causas de seu óbito. No meu caso concreto, oriento meu interesse, em particular, para o estudo dos dentes que são extremamente reveladores.

Você destaca que, em todo o mundo, os homens são semelhantes: os corpos exumados na sequência de conflitos, aparentemente sem qualquer aspecto em comum e ocorridos em dois continentes diferentes, relatam uma única e mesma história. Você poderia retomar a questão relativa ao controle do poder que, em seu entender, encontra-se na origem dessas violências organizadas?

Tomei consciência dessa realidade no exercício de minha atividade. De acordo com o que se ouvia dizer, em Ruanda e nos países da ex-Iugoslávia havia ocorrido a eclosão de uma violência espontânea provocada por ódios inveterados, tensões étnicas ou tribais, ou pelo fanatismo religioso. De minha parte, penso que nada disso corresponde ao que se passou. As provas encontradas nas valas comuns revelam, pelo contrário, que essa violência não era, de modo algum, espontânea. Fomos levados a intervir em diferentes países ou em diferentes regiões do mesmo país; ora, por toda parte, constatamos que essas valas eram semelhantes e que, por toda a parte, os assassinos haviam adotado o mesmo procedimento.

Perguntei-me qual teria sido a vantagem de matar civis e de violar a Convenção de Genebra ou outras legislações humanitárias. Quem tirava proveito do crime? Nunca acreditei que os Estados e os dispositivos utilizados para cometer esses massacres pudessem invocar, como justificativa, conflitos ancestrais ou tensões religiosas, porque não é assim que funciona um Estado.

Dei-me conta, aos poucos, de que as sepulturas se localizavam, quase sempre, em lugares estratégicos: perto de um rio ou de um porto, em terrenos agrícolas que despertavam a cobiça ou qualquer outro local com interesse comercial. Compreendi que, ao eliminarem as pessoas de determinadas zonas, os responsáveis por essas ações tinham o objetivo de assumir o controle da região; aliás, aceito de bom grado que seja possível apresentar outras causas para esses massacres, mas para mim essa é a razão predominante na maior parte das zonas de conflito, seja em Rwanda, na Sérvia, no Darfur, no Iraque ou na Tchetchênia. O ódio não se transmite pelos genes, mas as autoridades constituídas conseguem manipular o sentimento de diferença entre as pessoas para provocar a violência.

Se essas sepulturas foram escondidas, é porque os assassinos tinham consciência de que correriam sérios riscos se alguém descobrisse que não se tratava de violência espontânea, mas de massacres organizados para eliminar um grupo particular de uma região particular.

Na sua opinião, a Justiça Internacional terá o poder de dissuadir potenciais autores de crimes contra a humanidade? Você está satisfeita com os resultados obtidos com a sua colaboração, pelos tribunais?

Estou, sim. O impacto das decisões tomadas foi considerável em Ruanda e na ex-Iugoslávia. Massacres ocorridos anteriormente em outras regiões do mundo já tinham levado à criação de tribunais, tendo sido necessário um longo período de tempo para que os detalhes dessas carnificinas fossem reveladas. Como não havia o propósito de responsabilização, os culpados, então, conseguiram apresentar mais facilmente uma versão deformada da realidade. A criação de um tribunal penal é uma etapa importante, independentemente do que se possa pensar a respeito desses dois tribunais. O fato de que os criminosos tenham tentado eliminar os vestígios de suas ações condenáveis comprova que eles tinham certa consciência do impacto potencial dos indícios médico-legais em um processo: os corpos podem falar e, ao proceder à averiguação minuciosa das testemunhas, é possível servirmo-nos das informações fornecidas por seu intermédio.

Por exemplo, quando os policiais sérvios discretamente transportavam em caminhões os corpos das vítimas do Kosovo para enterrá-los atrás das delegacias, isso era a prova física de que, em vez de um alvo legítimo durante uma guerra reconhecida como tal, tratava-se de civis que deveriam ter sido protegidos pela lei. Haverá sempre um risco de carnificinas, tanto nessa região quanto alhures, mas agora as populações serão menos facilmente levadas a participar de procedimentos semelhantes. Essa é a utilidade dos tribunais que, deste modo, têm o poder de prevenir futuros crimes.

Sinto muito orgulho por ter participado desses processos que utilizaram, sobretudo, as provas médico-legais fornecidas por nós para corroborar os testemunhos de sobreviventes.






© Sam Walker
Bósnia-Herzegovina: família visita o Memorial de Potocari, onde repousam vítimas dos massacres de Srebrenica, em 1995.