ISSN 1993-8616

2009 - número 2


Editorial






© John-Thor Dahlburg
Tevfik Esenç (1982): último falante da língua ubykh (Turquia), falecido em 1992.


Com a morte de Marie Smith Jones, no ano passado, a língua eyak do Alaska (EUA) foi extinta; com o falecimento de Tevfik Esenç, a língua ubykh da Turquia extinguiu-se em 1992; o mesmo ocorreu com o manês, da ilha de Man, quando Ned Maddrell faleceu, em 1974. Assim, no decorrer das últimas três gerações, verificou-se o desaparecimento de cerca de 200 línguas, de acordo com o novo "Atlas UNESCO das Línguas em Perigo no Mundo".

Este número do Correio, publicado por ocasião do Dia Internacional da Língua Materna (21 de fevereiro), debruça-se sobre este fenômeno especialmente inquietante: com a extinção das línguas, desaparecem não só palavras, mas também saberes preciosos, como maneiras de se ver o mundo e de se comunicar, além de universos de pensamento.



A versão eletrônica do Atlas UNESCO das Línguas em Perigo no Mundo (3ª edição) apresenta dados atualizados a respeito de cerca de 2.500 línguas. Ele poderá ser completado, corrigido ou atualizado permanentemente, graças à colaboração de seus usuários.

Como se trata de uma ferramenta digital interativa, ele permite proceder a pesquisas segundo vários critérios. Além do registro "extinta" (a partir de 1950), o Atlas classifica as línguas ameaçadas de extinção segundo 4 níveis de vitalidade: vulnerável, sob ameaça, seriamente ameaçada e em situação crítica.

Alguns dados são particularmente preocupantes: entre as 6 mil línguas existentes no mundo, mais de 200 extinguiram-se no decorrer das últimas três gerações, 538 estão em situação crítica, 502 seriamente ameaçadas, 632 sob ameaça e 607 em estado vulnerável.

O Atlas revela, por exemplo, que 199 línguas contam com menos de 10 falantes, cujo número, em 178 outras línguas, está comprendido entre 10 e 50. Em relação às línguas desaparecidas recentemente, o Atlas cita, como exemplos, o manês, da ilha de Man, extinto en 1974 com a morte de Ned Maddrell; o aasax, da Tanzânia, extinto en 1976; o ubykh, da Turquia, extinto em 1992, com o falecimento de Tevfik Esenç; e o eyak, do Alaska (EUA), desaparecido en 2008 com a morte de Marie Smith Jones.

Como sublinhou o Diretor-Geral da UNESCO, Koïchiro Matsuura, "a extinção de uma língua implica o desaparecimento de numerosas formas de patrimônio cultural imaterial, em particular, da preciosa herança constituída pelas tradições e expressões orais – poemas e lendas, além de provérbios e anedotas – utilizadas pela comunidade que falava tal idioma. Essa extinção prejudica também a relação que a humanidade estabelece com a biodiversidade porque as línguas veiculam numerosos conhecimentos sobre a natureza e o universo".



© UNESCO/Rocky Roe
Na Papua-Nova Guiné existem mais de 800 línguas. Lá, crianças podem iniciar a escolaridade em sua língua materna.

Um sutil equilíbrio de forças

O trabalho efetuado por uma equipe formada por uma trintena de linguistas que colaboraram na edição deste Atlas interativo, financiado pela Noruega, mostra que o fenômeno de desaparecimento das línguas manifesta-se em todas as regiões e em condições econômicas bastante variáveis. Na África subsaariana, região em que cerca de 2 mil línguas (quase um terço do total de idiomas do mundo) são faladas, é bem provável que, no mínimo, 10% venham a desaparecer no decorrer dos próximos 100 anos. O Atlas constata que a Índia, os EUA, o Brasil, a Indonésia e o México – que possuem uma grande diversidade linguística – são também os países que contam com o maior número de línguas ameaçadas.

A situação não é, apesar de tudo, sistematicamente alarmista. Assim, a Papua-Nova Guiné – país com a maior diversidade linguística do planeta (mais de 800 línguas) – é também um dos que, proporcionalmente, tem um reduzido número de línguas ameaçadas (88). Por outro lado, e apesar de serem indicadas como extintas no Atlas, algumas línguas têm sido objeto de uma ativa revitalização, tais como o córnico (Cornualha) e o sîshëë (Nova Caledônia). É possível, portanto, que elas voltem a ser línguas bem vivas.

Além disso, graças a políticas linguísticas favoráveis, o número de falantes de várias línguas autóctones tem aumentado; esse é o caso do aimará central e do quetchua, no Peru; do maori, na Nova Zelândia; e do guarani, no Paraguai, além de certo número de línguas do Canadá, EUA e México.

O Atlas mostra também que, por razões econômicas e em decorrência de políticas linguísticas diferentes ou de fenômenos sociológicos, o grau de vitalidade de uma língua é variável segundo os países em que ela é falada.

Para Christopher Moseley, linguista australiano e diretor da redação do Atlas, "seria ingênuo e simplista afirmar que as grandes línguas com um passado colonial, tais como o inglês, o francês e o espanhol, são sempre responsáveis pela extinção das outras línguas. O fenômeno tem a ver com um equilíbrio de forças sutil; aliás, o Atlas permite que o usuário possa compreender melhor tal equilíbrio".