2009 - número 2
Cada língua é um universo de pensamento único

|
 © Alexander Turnbull Library
Um "nicho de língua" no qual a língua maori é transmitida a crianças pequenas, na Nova Zelândia.
|
O linguista australiano Christopher Moseley explica a importância crucial da preservação das línguas e apresenta as principais inovações da 3ª edição do Atlas das Línguas em Perigo no Mundo, lançado recentemente pela UNESCO.
Entrevista a Lucía Iglesias (UNESCO)
Por que devemos nos preocupar com a preservação das línguas?
À semelhança de nossa preocupação, enquanto seres humanos, com a redução da variedade das plantas e dos animais do mundo – digamos, da biodiversidade –, também deveríamos nos preocupar com a preservação das línguas. A particularidade dos movimentos atuais de renovação das línguas refere-se ao fato de que, pela primeira vez, os linguistas têm consciência do número de línguas existentes no mundo; além disso, eles estão em via de adquirir uma melhor compreensão não só das forças que as solapam e fazem desaparecer, mas também dos recursos mais eficazes para controlar tais fatores. Trata-se de uma dinâmica muito difícil e complexa; por isso, seria ingênuo e simplista atribuir a responsabilidade dessa extinção, cujas vítimas são os idiomas com menor número de falantes e que ocupam espaços bem mais reduzidos no nosso planeta, às grandes línguas coloniais, nos séculos passados, como o inglês, o francês ou o espanhol. Com efeito, a situação concreta é bem diferente na medida em que essa relação de forças é sutil; aliás, o Atlas permitirá que o leitor compreenda melhor a envergadura desses fatores.
Minha resposta para a sua pergunta é resumida com esta frase: porque cada língua é um universo, cuja estrutura de pensamento é única. Com efeito, suas associações, suas metáforas, suas modalidades de pensamento, seu vocabulário, seu sistema fonético e sua gramática são peculiares e funcionam conjuntamente para formar uma maravilhosa estrutura arquitetônica que, por ser tão frágil, poderia desaparecer, facilmente, para sempre.

|
 © Jennilou & Jeff Grace
Na Amazônia brasileira, as línguas autóctones estão atualmente ameaçadas de extinção; até meados do século XVIII, a utilização do tupi, por exemplo, situava-se no mesmo plano do português, que era a língua oficial.
|
O Senhor poderia falar dos projetos e iniciativas que têm contribuído para salvaguardar as línguas ameaçadas de extinção?
Existem projetos e iniciativas em todos os planos, desde as campanhas empreendidas por associações que trabalham no terreno e incentivam as pessoas a ler em seus próprios idiomas – garantindo assim a transmissão às gerações mais jovens –, até os programas promovidos pelos diferentes Estados.
Na Austrália, por exemplo, campanhas ativas e, aliás, coroadas de êxito, visam à ressurgência de línguas consideradas mortas há várias gerações, mas que, na realidade, se encontravam em estado latente. Na Nova Zelândia, a língua maori foi salva de um suposto esquecimento pelo viés de «nichos de língua», de viveiros, mediante os quais o idioma é transmitido às crianças.
Todavia, os maiores sucessos têm sido obtidos graças ao apoio e às infraestruturas dos diferentes Estados, tais como a revitalização do galês no País de Gales ou do catalão na Catalunha – duas regiões européias que, no espaço de uma geração, atingiram seus objetivos – ou, evidentemente, a renovação do hebraico, que se tornou a língua oficial do Estado de Israel.
Quais são as novidades desta edição do Atlas?
Nesta 3a edição, o Atlas inova no mínimo em três aspectos relevantes. Em primeiro lugar, e este é o ponto mais evidente, ele é publicado em dois formatos diferentes: a versão para a internet e a versão impressa. Vale sublinhar que a versão para a internet constitui uma evolução significativa e baseia-se nos mapas do Google Earth. A localização de cada língua ameaçada de extinção, seja qual for sua importância, é indicada com a maior exatidão possível nesses mapas que, por sua vez, podem ser apresentados na escala e no nível de detalhe pretendidos.
Em seguida, o Atlas abrange, pela primeira vez, o mundo inteiro de maneira exaustiva. As duas edições precedentes forneciam um panorama parcial, em alguns continentes, da situação das línguas ameaçadas de extinção; desta vez, conseguimos incluir quase todos os idiomas e, como já ocorria anteriormente, mostrar o nível dessa ameaça por meio de um sistema de códigos coloridos (de precário a moribundo).
Por último, o Atlas está disponível em três idiomas: inglês, francês e espanhol. Mais tarde, o texto será traduzido para outras línguas.

|
 © UNESCO/Michel Ravassard
Christopher Moseley, diretor da redação do Atlas UNESCO das Línguas em Perigo no Mundo, durante o lançamento da publicação, em 19 de fevereiro passado, na sede da Organização.
|
O Senhor é o responsável pela redação do Atlas. Quais foram as etapas para sua elaboração
Ele é o resultado da colaboração de uma equipe internacional de linguistas, todos especializados no campo das línguas ameaçadas de extinção. À semelhança do que se passou com as duas edições precedentes (publicadas em 1996 e em 2001), os redatores de cada região ficaram encarregados de coletar as informações relativas a cada continente. Eles redigiram as contribuições regionais do Atlas e colocaram os pontos que, nos mapas, indicam a localização dessas línguas.
Para determinadas zonas, a visão do panorama local formulou-se a partir da contribuição de especialistas oriundos de vários países; é claro que esses colaboradores fizeram apelo aos conselhos dos peritos da Seção do Patrimônio Imaterial da UNESCO. Por sua vez, o editor web forneceu uma ajuda preciosa aos redatores, em cada etapa da realização da versão digital, porque se tratava de uma experiência inédita para todos os integrantes de nossa equipe.
Ao mesmo tempo, os responsáveis editoriais e eu próprio, enquanto diretor da publicação, supervisionávamos a preparação dos textos. O período de elaboração do projeto, em sua integralidade, não foi além de um ano, o que é um prazo bastante curto.