2009 - número 2
Falando sério: o que é o ch'ti?

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 © Pathé Distribution
Cartaz do filme "Boas-vindas entre os ch’tis".
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Nos últimos meses, o filme francês "Bienvenue chez les ch’tis" (Boas-vindas entre os ch’tis) tem divertido os espectadores europeus. A realidade, no entanto, é menos engraçada: o ch’ti, variante do picardo – língua falada no norte da França –, tornou-se um fator social estigmatizante ou, no mínimo, algo de folclórico.
"O ch'timi é primo do picardo", observa o ator e cineasta francês, Dany Boon. Seu filme "Bienvenue chez les ch'tis", que no ano passado registrou mais de 20 milhões de espectadores na França, apresentou ao público uma língua definida pela UNESCO como seriamente ameaçada de extinção.
O ch'timi – ou ch'ti – é, de fato, uma das numerosas variações locais do picardo. "Abrangendo a área linguística mais extensa das línguas regionais, formada por cinco departamentos do norte da França, além de uma parte da Bélgica, o picardo comporta variações consideráveis", explica Fernand Carton, linguista especialista no idioma e autor do Atlas Linguístico e Etnográfico Picardo. Em função da região, as pessoas falam ch'ti ou picardo; mas, como sublinha o especialista, "trata-se da mesma língua, sem dúvida, dotada das mesmas características fonéticas, da mesma gramática e de um vocabulário com palavras comuns".
É, afinal, uma língua muito mais original do que deixa entender o filme no qual ela é reduzida à pronúncia exagerada das consoantes chiantes e a algumas expressões pontuadas de "hein". Na realidade, apesar de sua semelhança com o francês por derivar do latim, ela é incompreensível para um não-iniciado: "Para falar ch'ti, não basta polvilhar o francês, a exemplo do sal que se coloca nas batatas fritas, com algumas palavras de patoá", observa Fernand Carton.
O uso do ch'ti no filme caracteriza, no entanto, sua vitalidade nos dias de hoje. "Os jovens retomam expressões utilizadas pelos pais ou avós sem se preocuparem em falar essa língua", explica Alain Dawson, doutor em Ciência da Linguagem, que observou pessoalmente tal fenômeno. Dawson também é um dos tradutores de "Astérix" em picardo – a venda do primeiro álbum atingiu a marca de 101.000 exemplares, ou seja, o número mais elevado de vendas de qualquer outra tradução para uma língua regional, segundo o editor Albert René.
"Esse sucesso surpreendeu todo o mundo sem deixar de ser paradoxal, pois revela a precária vitalidade da língua", segundo a análise de Alain Dawson. "Por ocasião dos encontros com os leitores, demo-nos conta de que, além de sua satisfação por terem adquirido o álbum, eles o haviam folheado para encontrar palavras conhecidas. Contudo, o número dos que o leram do princípio ao fim foi reduzido." O mesmo ocorreu em relação aos guias "O ch’timi de bolso" e "O picardo de bolso", que o linguista publicou nas Edições Assimil: o enorme sucesso de vendas não se traduziu em uma prática acentuada da língua. "Estas iniciativas têm a ver com a salvaguarda de um patrimônio e não com o uso corrente da língua."

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 © Uderzo
Capa de história em quadrinhos de "Astérix" escrita em picardo: Obélix fala com Astérix em seis línguas regionais da França.
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Uma língua na base da escala social
É difícil avaliar o número exato de pessoas que atualmente falam o picardo; o único cálculo disponível refere-se a um censo de 1999. De acordo com Jean-Michel Eloy, professor de linguística na Universidade de Picardia - Jules Verne, 12 % da população, na escala dos departamentos do Norte, declara ter o costume de utilizá-lo. No conjunto deste campo linguístico, portanto, o número de falantes subiria para 500 mil pessoas.
"O problema é que, na França, mesmo as línguas que eram faladas até recentemente por um grande número de usuários, tais como o bretão, deixaram praticamente de ser utilizadas no cotidiano pelas gerações mais jovens", explica Tapani Salminen, coordenador regional do Atlas UNESCO das Línguas Ameaçadas de Extinção e etnolinguista na Academia da Finlândia. "Mesmo que, aparentemente, o picardo conserve bolsões de vitalidade na fronteira franco-belga, região em que ele é uma língua de comunidade, sua situação assemelha-se ao que se passa com o bretão."
Em Hainaut, no lado belga, a língua permanece, de fato, um elemento cultural relevante para se distinguir do flamengo. No lado francês, pelo contrário, sua influência está perdendo terreno concomitantemente ao desaparecimento das culturas operária, mineradora e agrícola, às quais ela tem estado associada.
"Tratava-se de uma língua de classe, utilizada nas fábricas de fiação e nas minas, salvo em algumas zonas, tais como o Valenciennois ou o Cambrésis, em que ela ainda é falada em casa", complementa Alain Dawson. Aliás, nas fábricas, numerosos imigrantes poloneses, italianos e flamengos aprenderam o ch'timi antes do francês. "Atualmente, ele tornou-se uma língua estigmatizante, um obstáculo para a promoção social". Eis a explicação parcial para o fato de que ela não seja transmitida no seio das famílias.
"A língua se ressente da falta de legitimidade", lamenta Olivier Engelaere, diretor da Agência em favor do Picardo, na cidade de Amiens (capital da Região de Picardia, no norte da França), por causa desse estigma social e de sua semelhança com o francês. "Para muitos, o picardo é o francês falado incorretamente. Seu usuário, além de ser olhado com consternação, não é levado a sério."

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 © Thomas Roland
Jean-Marie François é um dos guardiões do picardo. Ele transmite as lendas da região da Picardia pelo viés de poemas, novelas e peças de teatro.
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Revitalizar uma língua não significa torná-la folclórica
Seus defensores têm, inclusive, o sentimento de que, em relação ao bretão ou ao basco, o picardo tem menos possibilidades de sobrevivência por não fazer parte do ensino oficial e por falta de visibilidade pública: ele não é falado nos jornais televisivos da Picardia e nem aparece nas placas das cidades dessa região, ao lado do francês. E, apesar de ter sido reconhecido como "Língua da França" pelo Ministério da Cultura, o Ministério da Educação Nacional não o introduziu na lista das línguas regionais a serem ensinadas. "Há uma desconfiança para com o picardo. Parte-se do princípio de que sua aprendizagem é feita em detrimento do francês", analisa Fernand Carton. "Mas as pesquisas demonstram que, pelo contrário, tal aprendizado incentiva o interesse pelas línguas."
Apesar de tudo, ele é reconhecido, na Picardia, como um elemento da identidade regional. "Temos feito o picardo chegar nas escolas pelo viés do teatro, das marionetes e dos contos", explica Olivier Engelaere. "Há uma forte demanda para se descobrir esse patrimônio cultural, inclusive em zonas onde o número de seus usuários era reduzido."
As salas que apresentam espetáculos, peças de teatro e leituras em picardo têm ficado lotadas. Um concurso de novelas atraiu a atenção de centenas de participantes. Na esteira do filme de Dany Boon, as camisetas com inscrições em patoá estão na moda e é possível encontrar um poema em picardo, de Lucien Suel, no Youtube, mas "sem a língua ser reconhecida no ensino oficial e sem estar presente na mídia e nas praças públicas", previne Engelaere. "Ela se tornará folclore, não uma língua viva."
Isabelle Duriez, jornalista francesa