2009 – número 2
Wuthing we gwen tull ?

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 © Andres Escovar
Alguns habitantes de um dos países menos povoados do mundo: a ilha Pitcairn.
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Uma mesma língua é falada nas ilhas de Norfolk e de Pitcairn, no Oceano Pacífico. Sua evolução, no entanto, tem sido diferente em decorrência da distância de 6.288 quilômetros entre elas. Um nativo norfolquino nos relata a formidável aventura dessa língua, surgida no final do século XVIII, e que se dividiu em duas versões ao termo de 70 anos.
Wuthing we gwen tull? (o que temos a dizer?): eis o que teria sido um dos primeiros pensamentos do capitão britânico, William Bligh, e da tripulação do Bounty – barco equipado com armas, enviado por Sua Majestade – no momento de desembarcar na Baía de Matavaii (Taiti), em 26 de outubro de 1788.
Depois de terem perdido as colônias norte-americanas, os britânicos tiveram imensas dificuldades para alimentar os escravos que trabalhavam nas plantações de cana-de-açúcar das Antilhas até que os primeiros exploradores do Oceano Pacífico, de volta de suas expedições, falaram de "pão que cresce nas árvores"!
Cantiga infantil coletada pelo professor Archie Bigg, um apaixonado pelo norfolquino:
Baa baa blaek shiip
Yu gat eni wul?
En waa brada,
Thrii saek ful
Wan f’ daa gehl
En wan f’ daa mien
En wan f’ dem letl salan
Lewen daunn aa lien.
Colher os frutos dessas árvores-do-pão e transportá-los até as Antilhas era o único objetivo da expedição do Bounty. O barco, porém, permaneceu nessas paragens durante cinco meses. Era óbvio que, durante esse tempo, os marinheiros – originários, em sua maioria, dos condados do oeste da Inglaterra – aprenderiam rapidamente wuthing f’tull (o que dizer?), enquanto uns efetuavam a colheita desses frutos em companhia dos nativos e outros viviam aventuras amorosas.
A aprendizagem de wuthing f’tull gwen wun nether (o que uns têm a dizer aos outros?) deu origem a uma língua falada, ainda hoje, nas ilhas de Pitcairn e de Norfolk.
Mas um motim alterou o curso da história. Seu líder, Fletcher Christian, e os oito membros de sua tripulação, acompanhados por 12 taitianas e três polinésios, estabeleceram uma colônia na ilha de Pitcairn; eles haviam descoberto, igualmente, três passageiros clandestinos e é muito possível que os acontecimentos trágicos ocorridos ulteriormente nessa ilha – em parte, provocados pela falta de mulheres – poderiam ter sido evitados se Fletcher Christian tivesse obrigado os intrusos a desembarcar.
Em 1831, em razão da penúria de água e dos parcos recursos de Pitcairn, o governo britânico enviou toda a comunidade para o Taiti. Esse deslocamento foi um fracasso: além do surgimento de doenças, muitas pessoas encontraram a morte… Seis meses mais tarde, as famílias enlutadas voltaram à terra natal.
Do outro lado do Pacífico, o governo britânico decidiu, no final da década de 1840, fechar a colônia penitenciária existente na ilha de Norfolk e, em 8 de maio de 1856, os 193 habitantes da ilha de Pitcairn, detentores de leis e de língua próprias, embarcaram no Morayshire em direção de Norfolk, tendo aportado nessa ilha em 8 de junho de 1856.

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 © Ard Hesselink
Colher os frutos dos pés de fruta-pão e transportá-los até as Antilhas era o único objetivo da expedição do Bounty.
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A língua dilacerada
Nesse momento, iniciava-se outra etapa da história da colônia – e da língua – que iria determinar as modalidades de existência de Pitcairn e de Norfolk durante os seguintes 153 anos.
Apesar de tudo o que lhes prodigalizava a nova terra, 16 pessoas retornaram para Pitcairn, em 1858. Outras 27, em 1864.
E a sorte havia sido lançada: foram criadas duas comunidades isoladas que compartilhavam as mesmas raízes culturais e falavam uma língua comum que tinha evoluído durante quase 76 anos.
Se o ramo pitcairn da língua estava relativamente «a salvo» de mudanças, o ramo norfolquino sofria a influência cada vez maior de pressões exteriores.
Em primeiro lugar, verificou-se a chegada da missão melanésia, em outubro de 1866, com sua própria igreja, suas habitações para os missionários e para os alunos, ateliês, uma tipografia e um armazém. Apesar de ter introduzido algumas alterações na vida dos insulares – alguns habitantes aderiram à missão e outros tornaram-se seus funcionários –, ela permaneceu à margem da comunidade.
Em seguida, ocorreram mudanças no sistema educativo. Desde 14 de julho de 1856, data em que 70 alunos foram matriculados na primeira escola da ilha, a educação foi considerada uma obrigação para as crianças. Durante os primeiros anos, sua instrução havia sido confiada a professores nascidos na ilha que contavam com a assistência de outros docentes; deste modo, o norfolquino continuava sendo falado praticamente por todo o mundo.

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 Reproduzido com autorização de Gae Evans.
Curso de norfolquino em volta de uma placa comemorativa da primeira colônia, instalada em 1788, na ilha de Norfolk.
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A escola pode eliminar ou revitalizar uma língua
Em 1897, porém, a Secretaria da Educação da Nova Gales do Sul decidiu contratar, em Sidney, um professor formado e experiente a fim de ocupar o cargo de diretor.
Um dos aspectos que no início do século XX causavam maior inquietação aos diretores e aos inspetores de passagem era a preponderância do norfolquino, tanto em casa quanto no pátio de recreio, e/ou por ocasião dos diferentes eventos sociais. Apesar de não ser uma língua "estrangeira", o inglês era, sem dúvida, o segundo idioma em termos de popularidade e de uso geral. Por conseguinte, os professores sucessivos empenhavam-se em tentar erradicar o norfolquino e, evidentemente, em substituí-lo pelo "bom inglês".
O diretor de 1915 teve a ousadia de afirmar: "Tenho a certeza de que, em algumas gerações, o jargão insular vai desaparecer completamente".
Felizmente, tal profecia não se produziu, a despeito do regulamento da escola que proibia a utilização da língua durante as aulas. Certamente, seu uso foi diminuindo no decorrer dos anos, mas, desde 1987, o norfolquino é ensinado na escola a fim de ser preservado para as gerações futuras.
Esse trabalho de preservação é realizado por um grupo de apaixonados que organizam estágios de língua e incentivam os próprios filhos e netos, assim como toda a população, a falar o norfolquino. Esses esforços têm sido respaldados por dois livros: "Falar o norfolquino hoje", de Alice Inez Buffett OAM, e "Dicionário de termos e usos do norfolquino", elaborado por Beryl Nobbs Palmer e publicado pelo Norfolk Island Sunshine Club. Faço questão de citar, também, um grande defensor desta língua: o professor Peter Mulhauser, da Faculdade de Linguística da Universidade de Adelaide (Austrália).
Mesmo que esta língua esteja sob ameaça, tenho a certeza de que os 658 apaixonados pelo norfolquino – entre os quais eu me incluo – nunca permitirão que ela venha a extinguir-se.
Tom Lloyd, jornalista australiano aposentado, nascido na ilha de Norfolk.