ISSN 1993-8616

2009 - número 2


Uma epidemia ameaça as línguas autóctones






© Marleen Haboud
Comunidade de falantes de quíchua, em Cotopaxi (Equador).

Apesar do reduzido número de falantes, algumas línguas possuem uma grande vitalidade, enquanto outras foram preservadas pelo isolamento de seus praticantes. Esses fenômenos, aparentemente paradoxais, são explicados pela equatoriana Marleen Haboud.



Marleen Haboud, especialista das línguas andinas, responde às perguntas formuladas por Lucia Iglesias (UNESCO).

Em termos de vitalidade, qual é a situação das línguas na região central dos Andes?

Nessa região – que abrange territórios do Equador, do Peru e da Bolívia –, estima-se que o número de línguas autóctones, ainda vivas, é superior a uma centena. Determinar com exatidão seu grau de vitalidade é uma tarefa extremamente difícil: além de ser variável entre as diferentes línguas, tal grau varia no interior da mesma língua, segundo a localização geográfica e de acordo com a idade, ofício, sexo e nível de instrução de seus falantes.

Assim, o quichua, no Equador, conta com um grande número de usuários em algumas regiões do país; em outras, porém, ela está passando por um rápido processo de extinção. Nesse contexto heterogêneo, e até mesmo se algumas línguas continuam a ser utilizadas pelas gerações mais jovens, a tendência geral relativamente a todos esses idiomas orienta-se no sentido de uma regressão constante.

Como explicar essa situação?

Vários fatores se encontram na origem dessa situação: as condições de vida dos falantes, a ajuda institucional e social de que, eventualmente, eles sejam beneficiários, a funcionalidade das línguas em todos os contextos atuais de comunicação ou, ainda, o interesse e o orgulho experimentados por seus usuários.

Em termos de vitalidade, o número de falantes pode ser uma noção relativa. De fato, algumas línguas são faladas por um reduzido número de pessoas mas possuem uma grande vitalidade, como é o caso do a’i cofán, no território equatoriano da Amazônia; inversamente, o número dos usuários de determinadas línguas transnacionais, tal como o quichua, continua diminuindo progressivamente.

Algumas línguas autóctones conservam sua vitalidade graças ao isolamento de seus falantes que, em sua região, encontram os recursos necessários para garantir uma vida aceitável. Todavia, o isolamento é insuficiente para assegurar a sobrevivência dessas línguas; o ideal seria que elas se fortalecessem na coabitação com as línguas e as sociedades predominantes, apesar das tendências de homogeneização associadas à globalização.



© Marleen Haboud
A equatoriana Marleen Haboud é especialista das línguas andinas.

Por que motivo as línguas desaparecem?

No decorrer dos últimos decênios, a extinção das línguas – em particular, das línguas autóctones – acelerou-se em virtude de um conjunto complexo de situações: contato com outros povos, óbito dos falantes, mudanças radicais em seu modo de vida, degradação de seu território, processos migratórios maciços…

Essa espécie de epidemia que fragiliza as línguas autóctones e seus usuários só poderá ser circunscrita por ações conjuntas e integradas com a sociedade global. Antes de tudo, tal operação pressupõe que toda a sociedade esteja familiarizada com essas línguas e seus atores, aprenda a respeitá-las e contribua para sua manutenção, a fim de atingir o ideal de uma verdadeira sociedade intercultural.

Outro fator muito importante para a manutenção de uma língua é o grau de apreciação por parte dos falantes e dos não-falantes a seu respeito; uma pessoa orgulhosa de sua língua e de sua cultura estará mais apta para garantir sua preservação.





© Marleen Haboud
A transmissão de uma língua às crianças pequenas é fundamental para sua sobrevivência.

Você poderia citar iniciativas no plano nacional ou regional que têm contribuído para revitalizar algumas línguas da região?

Nos nossos países, várias iniciativas foram empreendidas em favor da manutenção e do fortalecimento das línguas minoritárias. Por um lado, existem os esforços despendidos pelo Estado. Nos países andinos, as reformas constitucionais conferem um estatuto oficial às línguas autóctones; as políticas linguísticas e educativas desses países são bastante bem definidas e, apesar de seu nível de aplicação ainda incipiente, elas têm o objetivo de preservar as línguas, a cultura e a identidade de seus falantes, assim como o respeito e a igualdade entre os povos.

Por outro lado, existem os esforços fornecidos pelos próprios usuários, tanto no plano coletivo quanto individual. Algumas famílias, por exemplo, tentam reapropriar-se ou consolidar suas línguas graças à criação de programas educativos específicos no plano familiar e comunitário. Os movimentos indigenistas na América Latina marcaram uma virada na luta pelos direitos dos povos autóctones ao favorecerem não só a criação de novos programas educativos, bilíngues e interculturais, em todos os níveis da educação formal, mas também programas de saúde específicos e a abertura de espaços oficiais destinados aos falantes de determinadas línguas.

Com maior incidência em determinados países do que em outros, a mídia tomou iniciativas para incentivar a utilização pública de algumas línguas, em particular, aquelas que contam o maior número de usuários; neste aspecto, as medidas adotadas na Bolívia podem servir de exemplo.

No decorrer da história, verifica-se o surgimento incessante de línguas enquanto outras se extinguem: por que motivo devemos nos inquietar com o desaparecimento das línguas?

À semelhança dos seres humanos, as línguas nascem e morrem mas nunca se extinguiram tão rapidamente quanto no decorrer dos últimos decênios. Tal constatação implica não só a perda de palavras ou de expressões, mas também de um acervo de conhecimentos e de maneiras de conceber o mundo e de se comunicar com ele, de recriar a história, de estabelecer intercâmbio com outros seres humanos, incluindo os idosos assim como as gerações mais jovens, além de conceitualizar o tempo, o espaço, os seres vivos, a vida e a morte. Cada língua é um universo; assim, a extinção de uma palavra acarreta inevitavelmente o desaparecimento de narrativas únicas e insubstituíveis.