ISSN 1993-8616

2009 - número 3


Em foco





© UNESCO/Ian Redmond
Jovem gorila da montanha (Rwanda).

Salvando nossos parentes mais próximos

O parente mais próximo do ser humano – o gorila – está ameaçado de extinção. O desenvolvimento desenfreado, a caça ilegal e a guerra têm exterminado uma das raras espécies animais que, à semelhança do homem, são capazes de utilizar ferramentas. Os projetos da UNESCO destinados à proteção dos gorilas, contudo, começam a produzir resultados porsitivos em 2009, Ano Internacional do Gorila.

Proteção dos gorilas: uma questão de educação. Mais

O principal objetivo do Ano Internacional do Gorila consiste em mobilizar os tomadores de decisão, assim como o público em geral, para salvar esta espécie de grandes macacos dotada da capacidade de refletir e cujo DNA é idêntico em 95% ao do ser humano. Esta mobilização tem uma importância crucial: no decorrer das últimas décadas, verificou-se uma queda sensível da população dos gorilas.

Apesar do valor inapreciável de cada espécie animal e de sua importância para a manutenção do equilíbrio ecológico de seu habitat natural, a causa a favor do gorila gera uma particular simpatia em razão de sua grande semelhança com a espécie humana, uma constatação que não vem de hoje: seu nome deriva do termo grego gorillai, que designa uma tribo de mulheres peludas. A palavra foi utilizada pelo general cartaginês, Hanon, o Navegador, que percorreu o litoral da África Ocidental no século V a.C. Durante sua viagem, ele se deparou com criaturas peludas, espécie de macacos que poderiam ser autênticos gorilas.

Por falta de dados visuais dessa viagem de Hanon, é impossível saber se os gorilas correspondem realmente às «mulheres peludas» nomeadas pelo navegante cartaginês. Mesmo atualmente, ainda não existem informações completas e atualizadas a respeito dos gorilas. A ciência moderna, no entanto, costuma dividi-los em duas espécies – os gorilas da África Oriental e os da África Ocidental – e quatro subespécies. (saiba mais)



© UNESCO/Ian Redmond
O velho Titus com um grupo de gorilas da montanha (Congo).

Organização social

Cada espécie distingue-se por alimentação, características fisiológicas e modo de vida peculiares. Todos os gorilas, porém, são migradores e vivem em meio a grupos formados por cinco a 30 indivíduos, dominados por um adulto macho com dorso prateado e pelo menos 12 anos de idade. Este macho é o chefe que exerce sua autoridade, sem partilha, sobre o grupo: centro das atenções, ele toma todas as decisões, serve de árbitro por ocasião dos conflitos, determina a direção dos deslocamentos do grupo, conduz seus súditos para os lugares de alimentação e assume a responsabilidade pela segurança e bem-estar de todos.

Os machos mais jovens, a quem é atribuído o qualificativo de «machos com dorso preto», podem atuar como «tropas de reforço». De pouco em pouco, os machos começam a deixar seus grupos de origem por volta dos 11 anos, deslocando-se sozinhos ou em grupo formado por outros machos por um período de dois a cinco anos, antes de atraírem fêmeas para formar uma nova comunidade e darem início à reprodução. Os gorilas se alimentam com frutas e ervas e os machos com dorso prateado costumam matar os filhotes de seu predecessor para, em seguida, copular com a fêmea que havia parido a cria abatida.

A reprodução dos gorilas ocorre somente a cada 3 ou 4 anos. Por terem necessidade de espaço em função de seu modo de vida migrador, a UNESCO concebe uma estratégia de proteção que privilegia amplas paisagens que cubram uma extensa zona tampão com reservas de biosfera na qual nas quais ? as pessoas possam encontrar recursos sustentáveis de subsistência. Alguns projetos de educação que visam a ajudar os habitantes dessas regiões a compreender, apreciar e otimizar os benefícios gerados pela gestão sustentável dos recursos são essenciais para o sucesso desses programas de preservação.



© UNESCO/Ian Redmond
Martyn Colbech filma gorilas em Rwanda.

Todas as espécies são importantes

Mambaele Mankoto, do Setor das Ciências Exatas e Naturais da UNESCO, está satisfeito com o recente crescimento das populações de gorilas no Parque Nacional de Virunga, sítio do Patrimônio Mundial. O bom momento é atribuído aos ambiciosos programas de conservação da biodiversidade que, nas regiões de conflitos armados, foram lançados em 2000 pela Organização, ao lado da Fundação das Nações Unidas e da União Européia. Esses projetos são focalizados sobretudo na ajuda à missão fundamental dos guardas florestais. "Os conflitos, no entanto, permanecem latentes, por isso devemos manter uma vigilância sem tréguas", previne o especialista, que destaca a necessidade de convencer os doadores a fornecer recursos para projetos cujos objetivos sejam precisamente a proteção dos gorilas.

Convencer as populações locais de que os gorilas são mais preciosos em vida do que mortos constitui uma forma de reduzir a caça da carne de animais silvestres e dos remédios tradicionais. As instituições de conservação da natureza da RDC e o Departamento dos Parques Nacionais de Ruanda assinaram um acordo segundo o qual, neste país, os turistas têm acesso aos gorilas oriundos da RDC mediante o pagamento, pela República Ruandesa, de uma porcentagem das receitas – em média, US$ 30 mil por ano – à RDC. Mankoto elogia este acordo como um excelente exemplo de cooperação transfronteiriça no âmbito da missão da UNESCO, no sentido de consolidar a paz que os gorilas representam no papel de embaixadores.

O turismo focalizado na espécie, porém, deve ser organizado com cuidado porque o contato com o homem pode gerar impacto negativo sobre eles – os gorilas não contam com sistema imunitário preparado para enfrentar certas doenças transmitidas pelos seres humanos. Os homens, aliás, continuam matando os gorilas não só por sua carne, mas também por razões culturais: ainda há quem acredite que colocar um osso de gorila na água do banho de um bebê fortalece a criança. Além disso, o desmatamento, a construção de estradas, a instalação de armadilhas para capturar outros animais e a indústria extrativa permanecem as principais ameaças à sobrevivência de nossos parentes mais próximos do reino animal.

Mambaele Mankoto mantém a expectativa de que o Ano Internacional do Gorila será favorável a este animal que, no cativeiro, é capaz de adquirir um controle impressionante da linguagem humana dos macacos.

Em seu habitat natural, os gorilas fornecem preciosos serviços no manejo das florestas: ao longo de suas trilhas de migração, desbravam clareiras, permitindo que os raios do sol atinjam as submatas, e disseminam, por meio das fezes, as sementes de algumas espécies de plantas. Mankoto lembra a necessidade de se resistir a todo tipo de antropocentrismo: "Todas as espécies são importantes; a perda de uma espécie constitui um empobrecimento do ponto de vista físico, cultural e espiritual de nosso meio ambiente".

Roni Amelan (UNESCO)