ISSN 1993-8616

2008 - número 3


Editorial






© Sergio Alvarez
Fundo de garrafa de água vazia.

A demanda por água potável nunca atingiu um nível tão elevado. Isso por diferentes razões: crescimento demográfico, evolução das modalidades de consumo alimentar ou, ainda, necessidade crescente de energia. Eis os aspectos destacados pela nova edição do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre a Avaliação dos Recursos Hídricos, "A água em um planeta em transformação", que dá atenção especial ao papel desempenhado por este recurso natural no desenvolvimento e no crescimento econômico.



No momento em que se verifica o aumento da demanda, alguns países já atingiram os limites de seus recursos hídricos. Os efeitos danosos esperados da mudança climática deveriam agravar ainda mais esse fenômeno. Perfila-se uma competição pela água – entre os países, entre as zonas urbanas e rurais, assim como entre os diferentes setores de atividade – que ameaça traduzir-se no futuro por meio de uma politização ainda mais acentuada das questões relacionadas com o uso da água.

O acesso à água continua sendo um problema crucial para uma grande parte do mundo em desenvolvimento. O nexo entre pobreza e recursos hídricos é evidente: o número de pessoas que vivem com menos de US$ 1,25 por dia coincide aproximadamente com o número de pessoas que não têm acesso à água potável de qualidade.

Resultado: 80% das doenças nos países em desenvolvimento estão associadas à água e provocam, anualmente, a morte prematura de 3 milhões de pessoas. Sem esquecer que, em cada período de 17 segundos, uma criança morre de diarréia no nosso planeta. Se houvesse uma melhoria no abastecimento, saneamento e gestão dos recursos hídricos, seria possível evitar, na escala internacional, um décimo das doenças.



© Jeffrey Tam
Em filé para dois em Hong Kong.

Um quilo de carne: 16 mil litros de água

Enquanto uma parte da população continua sendo privada de acesso satisfatório à água, o nível de demanda deste recurso natural nunca foi tão elevado. No decorrer dos últimos 50 anos, verificou-se a duplicação das zonas irrigadas, enquanto o consumo da água doce triplicou. Tal fenômeno está associado, em particular, ao crescimento demográfico: a população mundial chega, atualmente, a 6,6 bilhões de habitantes. Em cada ano, ela aumenta em cerca de 80 milhões de pessoas, o que se traduz por uma demanda suplementar, por ano, avaliada em 64 bilhões de metros cúbicos de água.

Tal crescimento demográfico implica, também, um maior volume de produtos agrícolas e, por conseguinte, de consumo. A agricultura continua sendo o setor que utiliza a maior quantidade de água: por si só, ele representa 70% desse consumo, contra 20% para a indústria e 10% para as necessidades domésticas.

Nos últimos anos, observou-se uma evolução dos hábitos alimentares que exigiu um considerável aumento do consumo de água: por exemplo, para produzir 1 kg de trigo, são necessários de 800 a 4 mil litros de água; 1 kg de carne de boi, por sua vez, exige de 2 mil a 16 mil litros.

Prevê-se, igualmente, uma penúria de água em decorrência da mudança climática: segundo os experts, em 2030 quase a metade da população viverá em regiões já submetidas a forte escassez hídrica, o que terá um impacto decisivo sobre as migrações. Avalia-se que de 24 a 700 milhões de pessoas poderiam ser forçadas a migrar por razões relacionadas com a água.

Isso significa que a água constitui uma das questões-chave a ser enfrentada, principalmente, pelos países em desenvolvimento. A porcentagem do orçamento destinado pelos governos a esta área, entretanto, é manifestamente insuficiente: assim, a alocação da ajuda pública ao desenvolvimento relativo do setor da água, em seu conjunto, continua encolhendo e representa apenas 5% do fluxo total desse orçamento.

Ao mesmo tempo, a corrupção no domínio da água pode encarecer o custo desses investimentos. Falsificação dos volumes de consumo, favoritismo na encomenda de equipamento e nepotismo na atribuição das licitações são as formas de corrupção mais correntes. De acordo com alguns estudos, as somas orçamentárias destinadas à água chegam a ser desviadas, em determinados países, em até 30%. É raro que essas práticas sejam combatidas; entre outros países, porém, a África do Sul tem tomado iniciativas para lutar contra esse fenômeno.



© D. Janine
Reservatório de água da chuva na Ilha de Fogo (Cabo Verde).

Gerenciando crises

Confrontados com crescentes penúrias, alguns países já começaram a integrar estratégias de gestão dos recursos hídricos a seus planos de desenvolvimento.

Apesar de limitada, a reciclagem das águas usadas com finalidade agrícola já é praticada em alguns países. Assim, ela garante as necessidades na Faixa de Gaza (Territórios Palestinos) em 40%; em Israel e no Egito, essa porcentagem corresponde a 15% e 16%, respectivamente.

A dessalinização da água do mar é outro procedimento utilizado nas regiões áridas – em particular, nos países que atingiram os limites de seus recursos renováveis, como Arábia Saudita, Israel e Chipre – para obter água potável (24%) e para as necessidades da indústria (9%).

Convém chamar a atenção para o projeto da Anatólia do Sudeste (GAP), na Turquia: seu custo total é avaliado em US$ 32 bilhões, dos quais 17 bilhões já foram investidos até o momento. Com o desenvolvimento da irrigação, a renda de cada agricultor triplicou, a eletrificação atingiu 90% das zonas rurais, a taxa de alfabetização aumentou enquanto a de mortalidade infantil baixou e o número das empresas duplicou. Nas zonas irrigadas, enfim, tem sido aplicado um sistema mais equitativo de atribuição de propriedade do solo. Por outro lado, o número de zonas urbanas que recebem água potável quadruplicou. A região, de fato, deixou de ser a menos desenvolvida do país.

A Austrália iniciou igualmente uma reviravolta em sua política que se traduz por diferentes medidas: foram implantadas restrições em ações como rega de jardins, lavagem de carros e enchimento de piscinas em todas as grandes cidades australianas. Em Sydney, um duplo sistema de distribuição baseado em um circuito para a água potável e outro para distribuir água imprópria para o consumo humano, mas ainda assim disponível para outros usos, foi instalado em 2008.

Esta edição do Correio propõe uma série de artigos a respeito dos pontos mais importantes do último Relatório Mundial sobre a Água, intitulado "A água em um planeta em transformação".

Agnès Bardon (UNESCO)