ISSN 1993-8616

2008 - número 3


Água: entre o campo e o prato





© Guy Bescond
Rega tradicional na região de Mopti, Mali.

A água que bebemos gera menos problemas que a água que "comemos". A agricultura absorve 70% desse recurso, a um só tempo, onipresente e raro. O cultivo de plantas resistentes à seca e à salinidade, a dessalinização e a armazenagem são algumas das soluções preconizadas pelos especialistas para atenuar a escassez de água.


Agricultura e biocombustíveis

A produção de bioetanol triplicou entre 2000 e 2007, chegando a 77 milhões de litros em 2008. Mais

Em vez de Terra, nosso planeta deveria se chamar Água: mais de 75% da superfície terrestre estão cobertos por ela. Quatro bilhões de anos após a aparição da vida em meio aquífero, a água continua sendo essencial para a manutenção da vida. Apesar disso, ela é rara: 97,5% dos recursos hídricos da Terra existem sob forma salgada, inutilizável para o consumo humano. E no que diz respeito à água doce (2,5%), esta em grande parte é encontrada congelada nas calotas glaciais, abaixo do solo, em lençóis freáticos, ou estagnada nos pântanos. Além disso, está desigualmente distribuída entre as diferentes regiões do mundo. Em resumo, apenas 0,0075% da água do planeta estão disponíveis para nosso uso!

A escassez de água é um problema crucial particularmente em países em desenvolvimento que são dependentes da agricultura e situados, quase sempre, em regiões áridas; a agricultura, por sua vez, absorve a maior parte da água – cerca de 70%, segundo o último Relatório Mundial das Nações Unidas sobre a Avaliação dos Recursos Hídricos. No horizonte de 2050, prevê-se a duplicação desta quantidade.

A Ásia é certamente a região do globo em que se verifica o maior consumo de água. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o continente asiático detém a segunda maior reserva de água do planeta mas representa, também, 70% do total das superfícies agrícolas irrigadas no mundo. Em compensação, sua população, que atinge 4 bilhões de pessoas, consome cerca de 6% de água, enquanto sua indústria utiliza 10%. Os 84% restantes são absorvidos pela agricultura.

Além disso, a Ásia se encontra em plena transformação: avalia-se que, em 2050, a população mundial contará com cerca de 9 bilhões de habitantes, dos quais 5 bilhões de asiáticos. Ao mesmo tempo que registra um forte crescimento demográfico, a Ásia apresenta atividade e prosperidade cada vez maiores, fatores que acabam transformando os hábitos de consumo. À produção de arroz, que consome bastante água, acrescenta-se uma demanda acentuada de carne, cuja produção, em 1960, na China, atingiu cerca de 2,5 milhões de toneladas; em 2006, ela ultrapassou 80 milhões. Segundo o Institute for Water Education, a produção de um quilo de arroz consome três mil litros de água, enquanto um quilo de carne de boi exige 16 mil litros.



© Lisa Grimaud
Cerca de metade da água utilizada na agricultura é desperdiçada.

Beber ou encher o tanque

Acrescentemos, ainda, a explosão da produção de automóveis. É importante saber que a fabricação de um carro exige entre 20 mil a 300 mil litros de água e que, uma vez construído, ele não pode circular sem combustível. Nos últimos anos, os biocarburantes ganharam grande popularidade: o etanol, fabricado a partir de milho ou da cana-de-açúcar, tornou-se uma importante fonte de renda para os agricultores mexicanos e brasileiros, agravando o problema tanto da alimentação quanto do fornecimento de água.

Cerca de 2.500 litros de água são necessários para a produção de um litro de etanol. Segundo o World Energy Outlook 2006, a produção de biocarburantes progride em um ritmo anual de 7%, constatação que talvez não represente um verdadeiro problema para o Brasil, país em que as chuvas são abundantes. É provável que no futuro, porém, a situação seja diferente na China ou na Índia.

Atualmente, os mexicanos às vezes perguntam: "O que você prefere: encher o tanque ou comer?". Não está descartada a possibilidade de que, um dia, os asiáticos venham a se perguntar: "Você prefere encher o tanque ou beber?".

É na agricultura, portanto, que se verifica o maior desperdício de água - avalia-se que cerca da metade da água utilizada é esbanjada. Isso significa 30% da água doce disponível na escala planetária. Mas o setor também constitui um enorme potencial de economia deste recurso natural mediante a adoção de vários métodos. "A irrigação é realmente ineficaz", afirma o pesquisador Jan Olof Lundqvist, do Stockholm International Water Institute. "Existem, igualmente, perdas importantes por ocasião da produção de alimentos: é o que se designa por perda entre 'o campo e o garfo'." Cerca da metade do que é cultivado é perdido nos momentos da colheita, da armazenagem e do transporte. "A produção de qualquer alimento exige o consumo de água; neste caso, qualquer perda de alimentos corresponde a desperdício desse recurso."

Mas é também possível realizar economias no início da cadeia de produção. Nos países em desenvolvimento, recorre-se principalmente à irrigação superficial, geralmente viabilizada pelas represas. Essa técnica, simples e pouco onerosa, é utilizada em particular para a rizicultura. O inconveniente é que uma grande proporção da água utilizada (perto da metade) é desperdiçada por infiltração e evaporação.

Seria fácil economizar com o uso do gotejamento. Essa técnica, que consiste em distribuir diretamente pequenas quantidades de água às plantas pela utilização de canalizações acima do solo (ou, melhor ainda, por baixo), é econômica, mas com instalação cara. Ela exige, além disso, 'know how' técnico para a colocação de tubos que, uma vez instalados, impedem a flexibilidade no nível das culturas. "Esse método de irrigação exige uma grande quantidade de energia porque é necessário servir-se de bombas para que a água irrigue toda a superfície", sublinha Lundqvist. "Os investimentos são demasiado elevados para que essa técnica possa ser aplicada a alguns tipos de culturas, em particular, à rizicultura; esse procedimento, simplesmente, seria demasiado oneroso."



© Eko Sulisyono
O pinhão manso (Jathropha curcas) exige pouca água e é alternativa "verde" para produção de biocombustível.

Novas estratégias

Para o pesquisador, outras pistas devem ser estudadas para aprimorar a situação: "Para a produção de arroz e de culturas com reduzido valor agregado, bastaria coordenar melhor o abastecimento de água com os trabalhos agrícolas". O problema é simples: em geral, falta água quando ela é necessária e vice-versa. Para Lundqvist, é urgente que os agricultores aprendam a gerenciar melhor esse recurso.

Outra solução que merece ser estudada refere-se à armazenagem: "É indispensável que os agricultores tirem maior proveito do que chamamos de água ecológica, ou seja, as águas pluviais que devem ser capturadas e guardadas, de preferência, por meio de sistemas subterrâneos de armazenagem", complementa o pesquisador.

Mas qual abordagem adotar nas regiões com reduzida pluviosidade? "Nessas zonas, a irrigação por gotejamento é uma boa solução. No entanto, seria insensato cultivar plantas que consomem muita água." Uma solução possível para essas regiões, ainda que controversa, são plantas geneticamente modificadas que ganhem maior resistência à seca e à salinidade. "Dito isso, os agricultores não irão cultivá-las se não conseguirem vendê-las", observa Lundqvist.

A produção de biocarburantes seria igualmente possível nessas regiões. As sementes do pinhão manso, pertencente à família das euforbiáceas [planta herbácea ou lenhosa com varidades que podem ser encontradas em todo o globo], contêm 30% de óleo. Seu cultivo exige pouca água, enquanto o óleo pode servir para a fabricação do biodiesel. Em compensação, contêm igualmente substâncias tóxicas. "Na Índia e em determinadas regiões da África, esta árvore pode ser cultivada sem agravar o problema da escassez de água ou de alimentos", explica Lundqvist. "Mas é também uma questão de escala que, no meu entender, será relativamente modesta se for comparada à quantidade de energia necessária."

Paralelamente às economias de água, outra solução é particularmente possível nas regiões áridas: a exploração de novas fontes, como, por exemplo, a água presente em quantidade considerável nos oceanos. A dessalinização da água do mar, contudo, exige elevado investimento de energia e de recursos financeiros, o que explica por que seu papel ainda não é relevante em termos quantitativos: atualmente, apenas 1% da água dessalinazada é utilizada para a agricultura. "Graças à tecnologia moderna da membrana, o custo da dessalinização da água caiu para 50 centavos de dólar por mil litros", afirma o pesquisador. "Mas tal preço continua sendo demasiado oneroso, considerando a quantidade de água necessária para a produção de alimentos." Eis o motivo pelo qual Lundqvist julga que a dessalinização está mais adaptada para a produção de água potável, até mesmo, para a produção de gêneros alimentícios com elevado valor agregado.

Se for possível reduzir ainda mais o custo da dessalinização, o problema da água poderá ser consideravelmente atenuado. A Fundação Desertec elaborou conceitos destinados a estabelecer a conexão entre usinas de dessalinização com centrais térmicas solares à base de concentração, ou seja, espelhos que concentram a luz do sol e produzem eletricidade a custo reduzido no litoral da África do Norte e no Oriente Médio. Como essas regiões são as mais áridas do mundo, esse procedimento seria uma forma bem adequada para resolver seus problemas.

A mudança climática, por sua vez, também agravará a crise da escassez de água nos próximos anos. "Vamos assistir a mudanças importantes no regime pluviométrico", previne Lundqvist. "Eis por que é importante elaborar uma estratégia que combine a irrigação e os sistemas de irrigação complementares com as chuvas locais, que deverão ser armazenadas debaixo da terra." Apesar do grande desafio, o pesquisador está convencido de que ele pode ser superado: "Sou otimista por natureza".

Jens Lubbadeh, jornalista no semanário Der Spiegel (Alemanha)