2008 - número 3
Yang-tse: viagem no tempo

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 © Geoffroy et Loïc de la Tullaye
O rio Yang-tse, nos arredores da cidade de Yushu.
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Nas margens do rio Yang-tse, o mais extenso da Ásia, que percorre cerca de 6 mil km pelo interior da China, iaques e iurtas coexistem com automóveis e prédios. Chamado "rio mãe", "rio nutriente" ou "dragão", ele é uma importante fonte de desenvolvimento. Para melhor aproveitá-lo, porém, são necessários recursos.
Cada dólar investido em água gera um retorno de US$ 3,00 a US$ 34,00 em benefícios. Continua
Os autores do documentário «Expedição Yang-tse. Uma aventura dos irmãos La Tullaye», Loïc e Geoffroy, escolheram o Yang-tse para demonstrar até que ponto o acesso à água desempenha um papel determinante na vida humana. Nesta entrevista, eles respondem às perguntas de Katerina Markelova (Correio da UNESCO).
Qual foi a razão que os levou a escolher o tema do desenvolvimento para o documentário "Expedição Yang-tse"?
Geoffroy: Viajar no Yang-tse é viajar no tempo. Nos planaltos tibetanos, existem ainda pessoas que andam três horas por dia para buscar água; eis um aspecto que lembra a Idade da Pedra. Se descermos um pouco a corrente, entramos na era industrial com suas enormes cidades que começam a ter o controle da água. E na sua foz, em Xangai, temos água corrente 24 horas por dia, ou seja, a modernidade.
No nosso documentário, pretendemos mostrar o vínculo entre o acesso à água e o nível de desenvolvimento. De imediato, a China nos pareceu o lugar ideal pelo fato de apresentar essa extraordinária diversidade de maneiras de "viver a água".
Loïc: Graças a essa expedição, tivemos a oportunidade de descobrir nosso passado. Estávamos interessados em reviver a evolução que os países ocidentais haviam conhecido e que, atualmente, nos permite beber água diretamente da torneira.
O objetivo dessa viagem era, também, o de gravar em imagens as relações entre o homem e a água. No Ocidente, não ligamos importância para esse recurso vital que, além de existir em abundância, pode ser utilizado até mesmo como água quente na torneira. O detalhe é que utilizamos água potável para a descarga dos vasos. Eis o que é incompreensível para a maior parte das pessoas do planeta. Na China, por exemplo, a água é tão preciosa que o Yang-tse é considerado como um nutriente, como uma mãe.

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 © Geoffroy et Loïc de la Tullaye
Cena quotidiana na cidade de miao Ajigen.
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Existe, então, um vínculo direto entre água e desenvolvimento?
G: Exatamente. Em decorrência de seu isolamento geográfico, os habitantes dos planaltos tibetanos estão condenados, de algum modo, ao subdesenvolvimento. Com certeza, a estrada de ferro inaugurada em 2006 servirá para romper esse isolamento, mas por enquanto o modo de vida no Tibete nada tem de moderno. Uma estudante tibetana que passava férias na sua aldeia natal, Qmar He, disse-nos que ela gastava todo o tempo livre para buscar água; na cidade, ela dedicava esse tempo à leitura e ao lazer.
Um pouco mais longe, ao descer a corrente do rio, vimos um moínho de água que sinaliza algum desenvolvimento. Apesar de simples, porém, foi necessário muito tempo até sua instalação. Cerca de mil quilômetros mais abaixo, chegamos à famosa represa das Três Gargantas – também um moínho de água, mas em altíssima escala. Sua construção foi concluída em 2009 e é resultado de um trabalho titânico de 15 anos. Ainda mais longe, deparamo-nos com o paradoxo que caracteriza todas as sociedades desenvolvidas: consome-se água limpa e, ao mesmo tempo, lança-se detritos nos rios. Finalmente, tendo chegado a Xangai, encontramo-nos no seio de uma sociedade que, há muito tempo, trata a água usada para obter água limpa.
Acesso, controle, garantia de segurança e, em seguida, gestão da água, durante um longo período, são outras tantas etapas da evolução observada por nós enquanto acompanhávamos a correnteza do Yang-tse.
Vocês observaram a maior represa do mundo, a das Três Gargantas, que permitiu a navegação e o desenvolvimento, mas também criou importantes problemas para o meio ambiente.

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 © Geoffroy et Loïc de la Tullaye
Navios rumo a Xangai aguardam passagem pela Barragem das Três Gargantas.
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G: Essa represa transformou o Yang-tse em uma verdadeira via de crescimento que serve de ligação entre o Leste desenvolvido e o Oeste subdesenvolvido. Depois que ele se tornou navegável, a cidade de Tchong-K’ing, situada próxima da barragem, rio acima, tem crescido como um cogumelo: cotidianamente, mil pessoas se instalam nela. Hoje, sua população ultrapassa 32 milhões de habitantes.
L: Dito isso, grande parte da água utilizada hoje é lançada diretamente no Yang-tse. Em seguida, ao chegar à represa, a água poluída permanece estagnada, perde completamente seu oxigênio e passa pela eutrofização; em determinados lugares do rio, a espessura das algas atinge 30 cm.
Matar o Yang-tse é liquidar 600 milhões de pessoas que vivem na bacia do rio, ou seja, 10% da população da Terra. Se os chineses não tomarem providências rapidamente, essa represa será transformada em uma enorme fossa, um vazadouro a céu aberto. E eles têm plena consciência da situação: se nada for feito, o tratamento que deve ser aplicado à água do Yang-tse para torná-la potável será cada vez mais complicado e, até mesmo, impossível. Convém saber que, na China, a água de superfície representa a principal fonte de água potável, contrariamente à água subterrânea que, praticamente, não é explorada.
Qual é a situação atual da biodiversidade do rio?
G: Em 2006, a poluição, a represa, a intensificação da navegação e a pesca extensiva provocaram a extinção do golfinho de Yang-tse. O desaparecimento dessa espécie emblemática desencadeou muitas críticas, mas existe ainda um número considerável de espécies ameaçadas das quais não se ouve falar: é o caso do marsuíno do Yang-tse, uma espécie igualmente endêmica.
O desaparecimento do golfinho é um sinal de alarme. Mesmo que se fale da superpopulação do planeta, podemos perguntar se o próximo mamífero em extinção não será precisamente o homem. A cada ano, cerca de 3 milhões de pessoas nos países em via de desenvolvimento morrem em decorrência de doenças associadas à água; em cada 17 segundos, a diarréia mata uma criança. Então, quem sabe se esse processo de extinção não teria começado…
Sendo assim, o objetivo de nossas expedições consiste não em criticar, mas em fornecer ferramentas de modo que as pessoas possam interpretar melhor seu entorno e tomar as devidas previdências para preservá-lo.