2009 - número 3
Água em um mundo em transformação

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 © DR
Olcay Ünver, coordenador do Programa Mundial para a Avaliação dos Recursos Hídricos.
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"Em relação à água, a atual situação de crise ainda não é generalizada", declara Olcay Ünver, coordenador do Programa Mundial para a Avaliação dos Recursos Hídricos. Mas, se as situações de crise de água são locais, a meteorologia, por sua vez, é mundial; por isso, é necessário que se encontre soluções comuns para um problema que afeta o futuro de nosso planeta.
Por ocasião do recente lançamento da última edição do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre a Avaliação dos Recursos Hídricos, em Istambul (Turquia), Olcay Ünver respondeu às perguntas de Cathy Nolan (UNESCO). Publicamos, abaixo, trechos da entrevista.
Quais diferenças existem entre este relatório e sua edição precedente, lançada há três anos? Quais são seus pontos mais importantes?
Nos últimos três anos, apesar de termos constatado consideráveis progressos em determinadas áreas, nos deparamos com obstáculos em outros domínios. Assim, graças à ambiciosa campanha empreendida pelas Nações Unidas, com aprovação da comunidade internacional, existem boas perspectivas para que o Objetivo do Milênio para o Desenvolvimento relativo à água potável seja atingido. Infelizmente, a África Subsaariana continua sendo uma clara exceção que exigirá atenção particular. Alguns países árabes também estão passando por certas dificuldades.
Por outro lado, se não houver alteração das tendências atuais, os objetivos relacionados com o saneamento correm o sério risco de não serem atingidos. Conclamamos a Comunidade Internacional, portanto, a destinar um maior volume de recursos financeiros a este setor. […]
O desenvolvimento das economias e o crescimento do poder de compra repercutem sobre o consumo de água. Baseando-se em vários exemplos, o Relatório mostra que o problema não está associado à água que se bebe, mais àquela que se "come". Essa é a verdadeira questão da água virtual ou da "pegada ecológica da água", ou seja, a quantidade de água necessária para produzir alimentos e outras mercadorias.
Esse é o problema de alguns países emergentes nos quais as pessoas atualmente consomem mais carne ou fazem três refeições por dia, em vez de duas. Isso se traduz em um aumento da necessidade de água. Além disso, a demanda acentuada de determinados produtos, tais como automóveis, exige igualmente um maior consumo de água. Convém acrescentar, ainda, a poluição gerada por essas atividades que, por sua vez, afeta os recursos hídricos. […]
Outra mensagem do Relatório: os problemas relativos à água são criados e potencialmente resolvidos por decisores que não são os verdadeiros gestores desse recurso natural. Os dois relatórios anteriores haviam conseguido um consenso entre os experts. Daqui em diante, contudo, é necessário sair do mundo fechado dos especialistas da água e ampliar o círculo das pessoas implicadas na identificação dos problemas e na definição de soluções.

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 © Richard Annable
"Para enfrentar a crise atual, as infraestruturas de abastecimento de água e a governança são mais importantes que nunca."
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O Relatório incentiva maiores investimentos na gestão da água?
Ele contém uma seção especial sobre investimento. A crise econômica mundial terá, sem dúvida, um impacto sobre a água. No entanto, as infraestruturas não devem ser negligenciadas e o investimento deveria ser acelerado. Para enfrentar a crise atual, as infraestruturas relativas à água e a governança são mais importantes do que nunca. Investir na água é rentável não só para a sociedade, mas também para a economia
O Relatório apresenta recomendações para evitar uma crise de escassez?
Não se trata de um Relatório prescritivo. Se as crises relacionadas com a água são locais, a meteorologia, por sua vez, é mundial. Atualmente, apesar da ocorrência de diferentes problemas de falta de água, a crise ainda não é generalizada. Mas chamamos a atenção para o fato de que se deve procurar a solução para essas crises. Além disso, a água deve ser considerada como um elemento que faz parte de um quadro mais amplo de decisão. Um bom exemplo dessa situação é o setor de alimentação: de fato, não se pode aumentar a produção sem recursos ad hoc, como a água de irrigação. A crise alimentar não pode ser solucionada de maneira isolada porque corre-se o risco de criar uma pressão sobre os recursos hídricos.

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 © UNESCO
Capa do último Relatório Mundial das Nações Unidas sobre a Avaliação dos Recursos Hídricos.
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A água, considerando sua raridade, tornou-se uma questão cada vez mais política. Isso foi abordado pelo Relatório?
Em caso de abundância de recursos hídricos, ninguém tem razão para se queixar. Por outro lado, com o aumento da demanda ou a diminuição desses recursos, a concorrência aumenta e surge a necessidade de se gerenciar a demanda do ponto de vista econômico, social ou legal ou pela combinação desses três aspectos. Quando a situação se deteriora, convirá talvez transferir a água de determinados setores para outros e, neste caso, a concorrência poderá desencadear conflitos; assim, gerenciar a concorrência é muito importante para evitá-los.
O Relatório apresenta numerosos exemplos relativos à maneira como alguns países, bacias fluviais e municipalidades têm enfrentado com sucesso tais questões. Ele comporta também estatísticas e exemplos de conflitos. Mas, volto a insistir, trata-se apenas de recomendações gerais. O Relatório destaca que as soluções dependem das circunstâncias em que se encontra determinado país ou determinada sociedade, como as referentes a dotação em recursos hídricos, disponibilidade financeira, cultura e legislação. Cada país deveria procurar suas próprias soluções, apoiando-se nas experiências bem-sucedidas de outros Estados. […]