2008 - número 4
Em foco

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 © UNESCO/Yves Bergeret
Criação de um tríptico azul na Casa dos Pintores, julho de 2007.
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Koyo, um lugar para o diálogo entre duas culturas.
Num pedaço de pano espalhado pelo chão, um poeta está pintando as letras do seu poema em francês. Ele traduz o texto oralmente para Toro Tegu, a língua materna dos seis moradores da vila Dogon, no Koyo, ao norte de Mali, com os quais trabalha. Imediatamente eles traçam os seus caracteres gráficos no mesmo pano. Cada qual a seu modo, o poeta e os pintores estão respondendo ao espírito do lugar. O trabalho produzido aqui não pertence nem à cultura francesa nem à cultura de Dogon – ele abre um espaço de diálogo e criação.
Em breve fará oito anos desde que Yves Bergeret, da França, e Hamidou Guindo, Alguima Guindo, Belco Guindo, Yacouba Tamboura, Dembo Guindo e Hama Alabouri Guindo de Mali, começaram a trabalhar juntos todo ano.
Essa única experiência no diálogo entre duas culturas e duas formas artísticas está transformando o espaço em palavra, o lugar em poema. Mas também levou à criação de uma escola e de um museu com estilo novo e diferente.
No verão de 2000, eu cheguei sozinho à vila de Koyo, no topo de uma montanha ao norte de Mali, a 100 quilômetros de Bamako. Só se pode chegar lá a pé, sendo que alguma habilidade para escalar é necessária. O lugar tem cerca de 500 habitantes, casas de terra e pedra entre montanhas alaranjadas, materialmente muito pobres. Ainda assim, aqui a montanha – simples, épica e bonita – fala. Como um poeta, eu leio o espaço, o que é o discurso do outro, e respondo. Assim, eu escrevo sobre esta vila, percebendo que se vive lá apenas pela escuta do espírito deste ambiente mineral na ponta do deserto.
Eu sempre volto. Aprendi que a vila se chamava Dogon, sem escrever; é a mais ativa dos grupos étnicos situados mais ao leste de Dogon e a única que resta ao topo de uma montanha. No plano, nômades das etnias Peul e Tuaregue são dominantes. Acima, em Koyo, eu conheci aos poucos cinco fazendeiros que pintavam do lado de dentro de suas casas: Hamidou Guindo, Alguima Guindo, Belco Guindo, Yacouba Tamboura, Dembo Guindo e Hama Alabouri Guindo.
Quando os conheci, eles tinham em suas paredes grandes tabuleiros coloridos em ocre, preto e branco, adornados com poucos caracteres – gestos profundos e estranhos, expressando sua riqueza mineral. Eles cultivaram seu ambiente quase à mão livre, de modo meticuloso, em pequenos pátios próximos a fontes de água, entre as rochas do topo do platô.
Admitido à convivência da vila, eu sugeri a esses pintores durante a minha terceira estada que, juntos, deveríamos criar pinturas-poema sobre o lugar em tecidos que fossem ao menos do tamanho de lençóis ou coberturas de piso; eu já tinha praticado essa forma de criação como diálogo no Haiti com pintores-carpinteiros e no Senegal com pintores-de-pirogas.
Criação como diálogo
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 © UNESCO/Yves Bergeret
Os pintores e o poeta montam exposição ao ar livre, em Koyo.
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Nós demos um passo por vez. Aos poucos eu aprendi a língua da vila, Toro Tegu. Aos poucos o chefe tradicional, os idosos e os pintores me mostraram as redondezas de suas montanhas, até mesmo os lugares mais remotos e secretos. Eles me ensinaram certos ritos para me aproximar desses lugares. Eles me transmitiram algums dos mitos e poderes de certos ancestrais. Sim, após a minha 20ª visita de trabalho, eu posso dizer que o lugar no qual eles vivem é um lugar de inteligência, de conhecimento iniciático e de um tipo vigilante de ética. O espaço é palavras em ação. O espaço é poema. Certas mulheres mais velhas da vila , durante uma cerimônia noturna occasional, cantam e dançam as lembranças e a reativação das palavras fundadoras para toda a comunidade.
Agora nós fazemos o seguinte: os pintores têm entre 30 e 50 anos, de certo modo eu sou o mais velho. Como chefe tradicional, Alabouri Guindo, que tem a mesma idade que eu, sempre vem conosco. Primeiro nós vagamos pelas montanhas por um longo período, para encontrar o visível e o invisível. Então, os pintores derivam do nosso dia de caminhada o tema no qual nós vamos trabalhar juntos. No tecido espalhado no chão lá fora, eu pinto as letras do poema que componho. Com a participação do chefe da vila, eu traduzo o poema. Imediatamente os pintores pintam suas figuras gráficas no mesmo pano. Então, como eles dizem, eles “lêem para mim o que escreveram” e me pedem pra observar.
Esse é o nosso diálogo de criação: um poeta que lê os espaços e fazendeiros animistas que inventam desenhos gráficos para expressar o mesmo, em sintonia.
No trabalho, cada um de nossos pensamentos tem lugar. Cada um escreve de acordo com o seu método gráfico. O trabalho é uma terceira entidade, nunca exclusivamente do mundo deles ou meu. Poderosamente moderno. Juntos, nós prestamos grande atenção às belezas humanas e sagradas do lugar. E, o que vale quase a mesma coisa nestas montanhas, nós prestamos grande atenção para a ética da fala e da escuta. Nós criamos um trabalho que torna visível e transmite a herança oral, que é assim fortemente reativada, e que produz um ativo discurso poético.
No mesmo processo, nós também criamos pinturas-poema em pedras que erguemos e deixamos no seu lugar de origem, para guardar a vila, os ancestrais e os espíritos.
Uma vila receptiva que mantém sua distância
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 © UNESCO/Yves Bergeret
O poeta e os pintores respondem, cada um a sua maneira, ao espírito do lugar.
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O aluguel dos trabalhos em tecido (e alguns em papel) para galerias (como o Museu Nacional Pigorini em Roma, por exemplo) financia a produção e um projeto de desenvolvimento definido pela vila. Em 2000 a vila estava lutando para sobreviver no topo da montanha; a desertificação e a pobreza levaram as pessoas a descer e adaptar-se às regiões planas sem qualquer dúvida. Mas o nosso diálogo de criação simultaneamente reativou a herança e fez possível instalar reservatórios de água, um profissional de saúde, uma escola para 50 crianças em uma única sala, etc.
Em 2006, nós construímos uma “Casa dos Pintores” a uma pequena distância da vila, porque visitantes e turistas começaram a aparecer. A casa inabitada atrai a curiosidade de modo produtivo e vigilante.
Orgulho de toda a vila, as paredes do interior da casa têm vastos e complexos desenhos dos pintores, meus companheiros de criação, e expressam de forma bastante dinâmica e moderna os pensamentos profundos e a beleza do lugar. Todos estão revigorados pelo encontro entre a herança oral e o poeta que escreve. Todas as pinturas falam da fecundidade e permanência do discurso.
Em 2007, muito ativamente envolvidos na criação e transmissão, eu e os pintores fundamos cinco outras “Casas dos Pintores” na região plana ao pé da montanha. A vila é receptiva aos visitantes, mas mantém a sua distância.
Yves Bergeret, poeta francês.
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