2008 - número 4
Homenagem

|
 © Todos os direitos reservados
Medalha Marin Držić.
|
Marin Držić, o gênio engenhoso
Considerado um dos mais importantes dramaturgos, Marin Držić da Croácia (1508-1567) viu o Mediterrâneo como um teatro, onde os risos de uma comédia podem se transformar rapidamente em caretas sarcásticas e aterrorizantes.
Desprezado por seus contemporâneos e hoje admirado por seus compatriotas, ele provou ser um dos mais notáveis autores de sua região e seu tempo, injustamente desconhecido na cena internacional.
Honrando o 500° aniversário de seu nascimento, data comemorada pela UNESCO, o Correio apresenta uma versão abreviada da vida peculiar e triste do rebelde dramaturgo.
Marin Držić escreveu por apenas dez anos e deixou um legado de dez peças, todas na língua croata. Apenas algumas cartas e documentos oficiais chegaram a nós do período anterior a 1549, ano no qual a sua primeira peça, "Tirena", foi publicada. Ele já tinha mais de 40 anos quando começou a escrever.
Como muitos escritores talentosos vivendo na miséria, Držić fez o melhor que pôde para satisfazer o seu público. Seu estilo de escrita era leve, nunca pomposo, e respeitoso das regras do gênero literário que ele escolheu.
Tudo o que ele pôs no papel era novo, original, moderno – claramente em excesso, porque seus compatriotas não foram capazes de compreendê-lo e desprezaram-no profundamente. Ele deve ser o único escritor até hoje a manter uma relação ambivalente com Dubrovnik, que era uma das mais pujantes cidades-estado da costa Mediterrânea naquele período, ainda que nunca tenha vindo a se tornar mais que marginalmente influente. A “Atenas Eslava”, apesar de cercada por poderosos vizinhos, como a Turquia e a Itália, conseguiu manter sua independência por séculos, graças à habilidosa embora nem sempre virtuosa diplomacia de seu governo.
Com o passar dos anos, suas farsas frívolas cresceram em complexidade, enfatizando a dimensão trágica dos seus personagens. O pai ingênuo, por exemplo, vítima de todas as formas de intriga nas primeiras peças, torna-se vítima de suas próprias ilusões, para não dizer o alter ego do autor.
Celebridade impopular
|
 © Todos os direitos reservados
Cena de "Dundo Maroje", a peça mais famosa de Marin Držić.
|
Ao criticar a sociedade em que viveu, ele esperava melhorá-la, animar espíritos, acender uma luz sobre certas disfunções políticas. Mas a tacanha burguesia não perdoava quando se sentia ofendida. Constantemente criticado e até acusado de plágio, Držić recusou-se a ser intimidado. Suas respostas ácidas, entretanto, apenas o fizeram mais impopular.
Desde o século XIX, Marin Držić é um clássico na Croácia. Ele é considerado um escritor repleto de talento, mas também de fraquezas humanas, um homem oprimido pelo tédio diário da pequena sociedade da qual surgiu, incapaz de encontrar nela o seu lugar, constantemente deixando-a e a ela retornando. Uma vítima do seu próprio gênio, mas também da inveja dos demais, e incapaz de manter sua boca fechada.
Na Iugoslávia dos tempos de Tito, ele foi erguido ao topo do panteão histórico e cultural, encarnando uma espécie de liderança que poderia ajudar a forjar a identidade cultural iugoslava. Não há uma edição do famoso festival de teatro Dubrovnik que se sustente sem uma das suas peças encenada à frente de um público de elite – o mesmo que ele tinha como alvo, quando vivo, porém maior.
A grande ilusão
|
 © UNESCO/Ariane Bailey
"Pred dvorom", uma das praças de Dubrovnik na qual acontecem os festivais anuais de teatro.
|
Nascido numa família de comerciantes que perderam seus títulos aristocráticos graças à traição de um ancestral distante, Držić foi treinado para ser um padre. Mas, aos 30 anos, ele ainda estava vivendo às custas de seus pais, até que estes foram à mais completa falência. Diz-se que essa ruína financeira alterou drasticamente, para o resto de sua vida, seu olhar sobre a alta sociedade que tanto desejava quanto condenava.
Então, o senado de Dubrovnik pagou-o para estudar direito canônico na Itália. Ele viveu uma boa vida em Siena, acompanhado da nobreza e brevemente assumindo uma posição de reitor da universidade. De volta a Dubrovnik, ele começou a trabalhar com um aventureiro Conde austríaco, viajando com ele para Viena e Istambul antes de retornar para casa e começar a escrever peças, sendo "Dundo Maroje" a mais famosa. Ele também encenou, fez trabalhos domésticos para o governo municipal e torrou a sua pequena herança.
Em 1562, três anos depois de sua última peça "Hecuba", cansado e desapontado, ele deixou Dubrovnik e seus débitos para trás e se mudou para Veneza. Por sorte, sabia tocar órgão, o que permitiu que sobrevivesse. Seu ressentimento, entretanto, aprofundou-se.
Ele viajou a Florença, quando escreveu quatro cartas a Cosmo di Medici com pedidos para que ele dissolvesse o senado de Dubrovnik, "este monstro-de-vinte-cabeças que tiraniza o povo", e estabelecesse um governo justo. As cartas eram de grande qualidade literária, mas absurdas politicamente. "Não temos nada a temer", ele dizia ao Duque Florentino, esquecendo que a contínua estabilidade de Dubrovnik era o que interessava aos grandes poderes do período, fosse o governo justo ou não.
Teria Cosmo lido as cartas, alguma vez? Ninguém sabe. Držić esperou em vão por sua resposta e finalmente retornou a Veneza, onde morreu.
Ines Sabalić, jornalista croata
retour au sommaire