ISSN 1993-8616

2008 - número 4


Lydia Cacho Ribeiro: "A visibilidade internacional é como um escudo para os jornalistas ameaçados".





© José Gallardo / Random House Mondadori
Lydia Cacho Ribeiro, ganhadora do Prêmio UNESCO - Guillermo Cano de Liberdade de Imprensa 2008.

"Eu acredito que o papel do jornalismo seja o de uma lanterna, permitindo à sociedade exercer seu direito a conhecer e entender; acredito que os direitos humanos não devem ser negociáveis. Enquanto eu estiver viva, continuarei a escrever e isso me manterá viva."


O itinerário de uma heroínaMais



Essa forte declaração de fé foi feita por Lydia Cacho Ribeiro (45), jornalista freelance mexicana e diretora de um centro que ajuda mulheres abusadas sexualmente em Cancun.

Ganhadora do Prêmio UNESCO/Guillermo Cano de Liberdade de Imprensa 2008, ela responde às perguntas feitas por Lucia Iglesias (UNESCO).

Ao longo de seus livros e centenas de artigos, você tem denunciado a pedofilia, o tráfico de menores, a corrupção, o crime organizado, a discriminação de gênero e a violência contra a mulher. Você tem feito tudo isso apesar das ameaças de morte e tentativas de te assassinar. Você já enfrentou batalhas na justiça. Onde você encontra tanta força para agir?

Meu trabalho como jornalista e meu ativismo como cidadã estão interligados. Tenho sido sensível à causa da defesa dos direitos humanos desde criança. Minha mãe, que era francesa e se mudou para o México quando era ainda muito jovem, sempre praticou o ativismo social. Foi uma parte integral de sua vida e ela criou seus filhos nesse espírito. Eu cresci em uma família na qual a defesa dos direitos humanos era uma responsabilidade natural do cidadão e não um esforço ou sacrifício.

Por muitos anos eu estive à frente de um programa em uma rádio comunitária no estado de Quinatana Roo, no qual sempre levantávamos a questão da violência contra a mulher. Algumas vezes as mulheres vinham voluntariamente ao estúdio, umas haviam recebido golpes de facão, outras nos contavam que seus maridos haviam ameaçado matá-las. Elas nos pediam ajuda, mas eu não sabia o que podia fazer por elas. Então decidimos começar um grupo de apoio e finalmente conseguimos abrir um abrigo de segurança máxima para mulheres e crianças que eram vítimas de violência, assim como um centro de terapia e ajuda.

Como o centro funciona?

O Centro de Cancun para a Ajuda de Mulheres e seus Filhos (CIAM) é uma organização sem fins lucrativos que sobrevive de doações. Eu o administro mas ganho minha vida por meio do jornalismo. As outras pessoas que trabalham no centro, no entanto, são assalariadas. São profissionais em defesa das vítimas. O CIAM tem sido reconhecido como um dos melhores centros de ajuda no México. É uma organização progressista. Já protegemos esposas de traficantes de drogas, políticos, pedreiros, fazendeiros... em outras palavras, nós aceitamos qualquer mulher que bata em nossa porta por estar envolvida em uma relação violenta.

Você acha que as coisas estão mudando? Todo esse trabalho vale a pena?

É claro que vale a pena. Muitas coisas estão progredindo, muitas pessoas estão na cadeia por causa do livro que eu escrevi (Os Demônios do Éden, publicado por Grijalbo Mondadori, 2005), muitas vítimas revelaram a verdade e receberam ajuda em diferentes partes do país. A sociedade reagiu vigorosamente e isso para mim é uma grande honra. Mais do que prêmio que nós possamos ganhar, isso prova que nosso trabalho como jornalistas está alcançando seu objetivo e está sendo útil.

Além disso, após minha prisão e por causa da reação da mídia e da intervenção de importantes atores políticos e sociais, o jornalismo foi descriminalizado. Eu fui presa justamente porque os jornalistas podiam ser legalmente detidos após serem acusados de calúnia e difamação. Tudo isso desapareceu após o meu julgamento. Agora essas questões são julgadas em tribunais civis, assim como acontece em todos os países mais avançados.

Adicionalmente, a legislação relativa à pornografia infantil tem se desenvolvido consideravelmente. Acima de tudo, o assunto tem sido tratado na mídia. O abuso sexual de crianças era antes um tabu no México. Desde o meu julgamento, fóruns sobre o assunto têm se multiplicado e organizações especializadas têm se espalhado pelo país.

Você teme por sua própria vida? Em algum momento de sua carreira você já teve medo?


© Cimac
Lydia Cacho no Clube dos Jornalistas, na Cidade do México, sua cidade natal.

Claro que tive medo quando fui seqüestrada em 2005. Fui mantida em algum lugar entre Cancun e o centro do México e fui torturada por 20 horas. Mas à medida que o tempo passa você aprende a controlar o medo e isso se torna uma ferramenta para que você tome decisões e construa certas estratégias.

Também devo dizer que após receber cerca de 20 ameaças de morte por telefone, você aprende a continuar vivendo sem levar isso em conta, porque do contrário seria insano. Eu teria que deixar não apenas o meu país mas talvez minha profissão e não estou pronta para fazer isso.

Você tem segurança especial para protegê-la quando sai de casa?

Durante cerca de três anos eu tive quatro agentes federais como escolta e tinha que ir a todos os lados em uma van blindada. Mas em março de 2007 essa van federal foi alvo de um bombardeio e a polícia ainda não investigou a questão. Portanto, parece que ter agentes federais tomando conta de sua segurança não é de fato uma garantia. Há alguns meses eu decidi desistir da escolta e simplesmente tomar os cuidados habituais que os repórteres usam ao exercer sua profissão, onde quer que eles estejam.

Mas como você pode trabalhar normalmente sob essas condições?

É justamente aí que existe uma armadilha nas medidas de segurança oferecidas a jornalistas. Como eu investigo o crime organizado e direitos humanos, é muito difícil conseguir que certos informantes falem comigo, uma vez que eu estou sempre acompanhada de guardas.

No ano passado, quando comecei a escrever meu livro sobre tráfico de mulheres no mundo, senti que meu campo de ação era limitado, pois eu não tinha liberdade para falar com meus informantes. Ser vigiado por guardas para um jornalista é realmente como estar na prisão, como se você fosse um criminoso sob a supervisão da polícia, sem saber se eles estão protegendo ou vigiando você.

Como você se sente após ter recebido o Prêmio Mundial UNESCO/Guillermo de Liberdade de Imprensa?

Primeiramente me sinto muito honrada por ter recebido tamanho reconhecimento, uma vez que estou simplesmente fazendo o meu trabalho que eu amo e considero essencial em um país como o meu. Psicologicamente é importante sentir-me apoiada, especialmente após ter sido presa e torturada por causa do meu trabalho e após esses eventos terem revelado a dimensão da corrupção institucional que vitimiza os jornalistas no México. Devemos nos lembrar de que, depois do Iraque, o México é um dos países mais perigosos do mundo para jornalistas. Também sinto que esse reconhecimento de alguma forma nos dá proteção, pois a visibilidade internacional serve como um escudo.

Em que temas você está trabalhando agora?


© L. Henderson
Angelica Cubur, da Rádio Ixchel (Guatemala).

Como disse antes, estou finalizando um livro sobre as redes internacionais envolvidas no tráfico de mulheres e meninas. É um mapa do mundo mostrando não apenas quem está por trás dessas organizações e como as redes que compram e vendem seres humanos operam, mas também as relações locais e internacionais mantidas por líderes políticos de alto escalão para proteger as redes envolvidas nesse tipo de comércio.

Qual é a atual situação no México no que diz respeito à liberdade de imprensa e à liberdade de informação?

"...como mulheres indígenas, nós temos nosso espaço no rádio. Sei que o rádio tradicional nunca daria esse espaço pra gente porque somos mulheres e porque como indígenas somos discriminadas. Nesse caso, em nosso rádio, temos espaço para nos expressar e para dizer o que sentimos, o que pensamos sobre nossas roupas tradicionais, sobre nossa língua..." Angelica Cubur, Rádio Ixchel (Guatemala).

É evidente que o jornalismo tem se tornado, nos últimos anos, um elemento crucial de mudança no México, uma vez que o processo democrático anda lado a lado com a informação verdadeira. O partido que governou o país por 70 anos controlava a mídia, tanto econômica quanto editorialmente. Com a mudança no governo, quando o Presidente Fox foi eleito para o seu primeiro mandato de seis anos (2000-2006), vimos um certo grau de abertura na mídia, algo que os jornalistas mexicanos ainda estão aprendendo a manejar...

É crucial que haja jornalistas no México em 2008 para descrever a real situação neste país de 104 milhões de habitantes, 30 milhões dos quais vivem em extrema pobreza. É um país em que os ricos são mais ricos que os europeus e os pobres mais pobres que os africanos. Nós jornalistas temos que entender essas disparidades e o risco que corremos por desmascararmos as características fundamentais dos problemas nacionais.

Em 3 de maio, a UNESCO celebrou o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, destacando a questão do acesso à informação. O que pode ser feito para que as pessoas possam ter acesso à informação plural e independente?

A mídia independente desempenha um importante papel. O monopólio da mídia, amplamente criticado pela comunidade internacional, é um dos maiores problemas do México hoje. É por isso que manter as estações de rádio comunitárias vivas é tão vital. Infelizmente estamos em uma fase de repressão a essas estações de rádio. Há alguns dias, no estado de Oaxaca, duas jovens que administravam uma rádio comunitária que divulgava notícias em uma das línguas tradicionais do México foram assassinadas. Aqui no estado de Quintana Roo, onde tenho vivido e trabalho por 22 anos, falamos Maia, mas as notícias são raramente transmitidas nessa língua.

Penso que precisamos de mais rádios comunitárias e que devemos investir nas mídias eletrônicas, que são mais facilmente acessíveis ao povo mexicano, mesmo que a questão mais importante seja a melhoria do conteúdo.

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