ISSN 1993-8616

2008 - número 4


Gebran Tueni: o homem que lembrava um trovão





© An-Nahar
Gebran Tueni na redação do An-Nahar.

"Como jornalista, eu objetivo escrever a verdade. Como congressista, objetivo dizer a verdade", disse o libanês Gebran Tueni em entrevista a Bassam Mansour, do Correio UNESCO, em julho de 2005. Aqui, Mansour apresenta um retrato de seu compatriota, que revelou a ele a paixão pelos jogos eletrônicos e o envolvimento em assuntos políticos perigosos que lhe custaram a vida, em dezembro de 2005








Nota biográfica

Nascido em 15 de setembro de 1957, Gebran Tueni era filho de Ghassan Tueni, sênior da imprensa libanesa, e da grande poeta libanesa Nadia Tueni. Seu avô paterno, Gebran Tueni, fundou o jornal An-Nahar, em 1933.

Gebran Tueni, jornalista libanês e diretor do diário de Beirute, An-Nahar, foi assassinado em 12 de dezembro de 2005. Condenando esse crime, o Diretor-Geral da UNESCO, Koïchiro Matsuura, disse naquela época que “A comunidade internacional da imprensa perdeu um de seus grandes defensores. A morte do Sr. Tueni representa uma terrível perda não apenas para a sua família, amigos e colegas, mas também para a causa da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa no Oriente Médio”.

“Eu temo menos por minha própria vida do que temo pela vida daqueles que amo.” Foi assim que Gebran Tueni respondeu a Marlene Khalife, quando ela lhe perguntou sobre sua reação às ameaças de morte que ele havia recebido devido a suas opiniões e posição política, seja em seu próprio jornal, seja em outras plataformas públicas e políticas. Essas foram umas de suas últimas palavras naquela manhã, pouco antes de seu carro ser explodido no subúrbio leste de Mekalis, quando ele dirigia de sua casa em Beit Meri (Monte Líbano) à sede do jornal, na Praça dos Mártires de Beirute. Seu jornal publicou a entrevista no dia seguinte.

A explosão que balançou a capital libanesa foi tão violenta que sobraram apenas os restos de seu corpo e dos corpos de Nicolas El Falouti e Andre Mourad em jardins próximos. O crime pôs um drástico fim a uma vida cheia de trovões, energia e esperança por um futuro melhor. Gebran Tueni tinha 48 anos. Ao longo de sua vida, teve que enfrentar inúmeras tragédias pessoais – notadamente as mortes prematuras de sua irmã Nayla e de seu irmão Makram –, assim como a tragédia nacional de uma guerra que destruiu um país inteiro. A guerra libanesa começou em 13 de abril de 1975, destruindo tudo o que podia, especialmente a nova geração que se viu no meio dela.

Essas provações pareciam ter se tornado parte da personalidade de Gebran, mas nunca enfraqueceram seu sonho por um país construído sobre os princípios da liberdade, diversidade e igualdade, tendo a liberdade de expressão como sua base fundamental.


Ouvindo uma multiplicidade de vozes


© An-Nahar
Gebran Tueni verifica a impressão do jornal

Em 1977, em Paris, Gebran Tueni fundou, com outros jornalistas de sua geração, o que era então o jornal semanal "An-Nahar Árabe e Internacional". Ele defendeu a diversidade de opiniões que publicava, mesmo que elas fossem em alguns casos contraditórias. Para Gebran Tueni, a liberdade de expressão não era uma questão de se defender uma idéia, mas de se adotar um ponto de vista, ao mesmo tempo permitindo a outros terem diferentes visões sobre o mesmo assunto.

Na arena política, Gebran Tueni se juntou a outros homens e mulheres que eram conhecidos por sua coragem e que não hesitavam em ir além, fosse o presidente Bechir Gemayel, o general Michel Aoun (uma amizade que forçou o seu exílio a Paris de 1990 a 1993) ou o primeiro-ministro Rafic Hariri. Após Hariri ser assassinado em 14 de fevereiro de 2005, Gebran Tueni foi chamado a desempenhar um importante papel na chamada "Revolução Cedar", ou "Revolução pela Independência", que lhe conduziu ao cargo de parlamentar por Beirute, no parlamento libanês. Mas ele nunca permitiu que sua carreira política interferisse em seu trabalho como diretor do diário An-Nahar. Ele sempre sentiu que sua função como político era complementar ao seu trabalho de jornalista.

Quando eu fui visitar a sede de seu jornal em julho de 2005, juntamente com colegas da UNESCO, eu levantei a possibilidade de conflito de interesses entre essas duas atividades. "Nem um pouco", ele respondeu. "Não há qualquer conflito… como jornalista, eu objetivo escrever a verdade. Como congressista, eu objetivo falar a verdade." Foi uma resposta genuína, cheia de inocência e candura, as quais eram tão características daquele homem. Frente a um mundo divido entre o bem e o mal, amor e ódio, beleza e feiúra, ele gostava de imaginar esse mesmo mundo livre de negociatas políticas e tramóias. E, sobretudo, se recusava a se dobrar àqueles com poder ou a desistir diante da Realpolitik.

Com o mesmo ardor jovem que se recusa a seguir a multidão, apesar do tempo que já havia passado, quando ele retornou do exílio, em 1993, criou um suplemento jovem semanal para o An-Nahar. Em seu editorial, anunciou que essa seria uma "plataforma independente para o livre pensamento de jovens escritores" e que já era a hora de eles "se expressarem abertamente – mesmo se com as distrações da juventude – sobre o que quer que os preocupasse!" Ele também declarou que o suplemento buscava ser "o espelho da vida diária para toda uma geração a quem ninguém havia escutado, seja no passado ou no presente".

Em 1990, Gebran Tueni se tornou um ativo membro da Associação Mundial de Jornais (WAN) e assessor para o Oriente Médio do Diretor da WAN. Ele também era membro do Fundo para a Liberdade de Imprensa da Associação Mundial de Jornais, criado em 1994. Após sua morte, o Fundo lançou o Prêmio Internacional Gebran Tueni para a liberdade de expressão, concedido pela primeira vez em 2006. Naquela ocasião, o presidente da WAN, Timothy Balding, contou a Roula Beydoun, em uma entrevista publicada em 13 de dezembro de 2006, no An-Nahar, que eles "sentiram a necessidade de manter vivo o espírito de Gebran Tueni, especialmente dado o enérgico papel que ele desempenhou em todas as nossas atividades ao promover a liberdade de expressão por mais de 20 anos".


Ninguém morre antes do seu tempo


© An-Nahar
Gebran Tueni recebe estudantes na sede do jornal.

Gebran brincava enquanto trabalhava. Esse homem, que esteve envolvido nos assuntos mais perigosos, sabia como manter vivo seu espírito jovem e olhava o mundo com olhos maravilhados e felizes, triunfante sobre uma montanha de sofrimentos. Ele amava jogos eletrônicos e corridas de carro. Ele também gostava de ler horóscopos. Era do signo de virgem. "Ninguém morre antes de seu tempo", disse ele em 2005. Em junho daquele ano seu colega jornalista no An-Nahar, Samir Kassir, morreu em um ataque com carro-bomba perto de sua casa, quando ele saía para trabalhar. Logo depois, em setembro, semelhante explosão atingiu uma outra jornalista, May Chidiac, ganhadora do Prêmio Mundial UNESCO/Guillermo Cano para a liberdade de imprensa. Por um milagre ela sobreviveu, embora tenha perdido uma perna e um braço. O país inteiro foi tomado pelo medo: as bombas explodiam por todas as partes.

Na noite de 11 de dezembro de 2005, Gebran Tueni retornou a Beirute, desconsiderando o conselho de que permanecesse no exterior. No dia seguinte ao seu retorno, seu carro explodiu. Seu pai, Ghassan Tueni, que agora perdia seu terceiro filho, disse que o pior foi não poder beijar a face de seu filho antes que ele fosse enterrado.

Essa foi a trajetória de Gebran Tueni, que se parecia com um daqueles homens que sua mãe, a grande poeta libanesa Nadia Tueni, descrevia com as seguintes palavras:

“Em nossas montanhas se encontram homens,
os quais são como trovões,
E sabem que o mundo é redondo como uma maçã…”

por Bassam Mansour, UNESCO

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