2009 - número 4
Em foco

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 © Upali Newspapers Ltd
O jornalista cingalês Lasantha Wickrematunge foi o laureado, a título póstumo, do Prêmio Mundial da Liberdade da Imprensa da UNESCO 2009.
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"Depois, eles vieram à minha procura": essas foram as últimas palavras de Lasantha Wickrematunge
Neste ano, o Prêmio Mundial da Liberdade de Imprensa da UNESCO foi atribuído, a título póstumo, a Lasantha Wickrematunge, jornalista cingalês e diretor de redação do Sunday Leader [Diário de Colombo, capital do Sri Lanka]. O artigo reproduzido abaixo exprime seu compromisso obstinado e seu espírito de independência; escrito para ser publicado depois de sua morte, ele foi editado pela primeira vez no Sunday Leader, três dias após o assassinato de seu autor, ocorrido em 8 de janeiro passado. O texto mostra que Lasantha Wickrematunge tinha plena consciência de que sua vida estava seriamente ameaçada. Além disso, dá testemunho da grande coragem deste homem, cuja memória foi celebrada pelos 14 jornalistas do mundo inteiro que constituem o júri internacional deste Prêmio.
Nenhuma profissão, além das forças armadas e – no Sri Lanka – do jornalismo, exige que seus membros arrisquem sua vida por ela. Aqui, a imprensa independente tornou-se, no decorrer dos últimos anos, o alvo de inúmeros ataques: órgãos de imprensa, virtuais e impressos, foram incendiados, bombardeados, fechados e reprimidos. Em grande número, os jornalistas têm sido vítimas de perseguição, ameaças ou assassinato: tenho a honra de figurar em cada uma dessas categorias, incluindo, no dia de hoje, a perda de minha vida.
Exerço há muito tempo a profissão de journalista: o Sunday Leader celebrará, em 2009, seu 15o aniversário. Durante esse período, inúmeras mudanças ocorreram no Sri Lanka e não tenho necessidade de lembrar que, na maior parte das vezes, tais modificações têm sido negativas: estamos mergulhados numa guerra civil travada sem a menor compaixão por protagonistas cuja avidez por sangue não conhece absolutamente qualquer limite. O terror oriundo seja dos terroristas, seja do Estado, tornou-se uma realidade cotidiana. Com efeito, o assassinato tem sido a arma n° 1 do governo para exercer controle sobre os órgãos de liberdade: o alvo atual são os jornalistas, mas, amanhã, será a vez dos juízes. A vida dos integrantes destes dois grupos corre, realmente, sérios riscos.
Então, por que continuar? Eis a questão que me formulo. Afinal de contas, sou casado e pai de três maravilhosos filhos; além disso, assumi responsabilidades e obrigações que vão além de minha profissão de advogado ou de jornalista. Será que vale a pena enfrentar todos esses riscos? Numerosas pessoas dão-me uma resposta negativa. Alguns amigos dizem-me que eu deveria exercer a advocacia e Deus sabe que tal ocupação seria uma melhor maneira, bem menos arriscada, de ganhar minha vida. Outros, em particular, dirigentes políticos – governistas ou da oposição – têm tentado convencer-me, já várias vezes, em lançar-me na política, chegando mesmo a propor-me o ministério de minha escolha. Alguns diplomatas, conscientes dos riscos vivenciados pelos jornalistas no Sri Lanka, dispuseram-se a organizar minha saída da ilha com toda a segurança, oferecendo-me asilo em seus países. Portanto, posso ter sentido falta de muita coisa na minha vida, menos a possibilidade de fazer uma escolha; mas, para mim, acima do status, da reputação, do lucro e da segurança, existe a voz da consciência.

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 Lasantha Wickrematunge fundou o Sunday Leader com o irmão, em 1994. O jornal deu suporte a sua campanha contra a guerra entre as forças armadas cingalesas e os rebeldes tâmeis.
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O Sunday Leader é um jornal controverso porque nossos textos falam da realidade tal como a vemos: atribuimos aos acontecimentos o qualificativo mais adequado, independentemente de tratar-se de um gato, de um ladrão ou de um assassino; evitamos, assim, esconder-nos por trás de eufemismos. Nossos artigos de investigação são respaldados por provas documentadas que nos são fornecidas, por sua conta e risco, por cidadãos preocupados com o interesse comum. No decorrer dos últimos 15 anos, temos revelado um escândalo atrás de outro, sem que alguém tivesse conseguido, por um lado, comprovar qualquer equívoco de nossa parte e, por outro, ganhar um processo contra nós.
A imprensa livre é semelhante a um espelho em que a sociedade, despojada de qualquer afetação, pode se observar. Por nosso intermédio, ela sabe como se comporta o país e seus governantes, eleitos por ela com o objetivo de oferecerem um melhor futuro a seus filhos. Às vezes, a imagem devolvida por esse espelho nem sempre é agradável. Mas, enquanto vocês podem fazer suas críticas tranquilamente, protegidos em suas poltronas, os jornalistas, que seguram o espelho que procura refletir a realidade, exprimem-se em público por sua conta e risco. Essa é, efetivamente, nossa vocação e de modo algum desejamos rejeitá-la.
A exemplo de qualquer jornal, afirmamos que temos uma orientação: o compromisso no sentido de que o Sri Lanka se torne uma democracia transparente, laica e liberal. Convido os leitores a meditar, pausadamente, em cada uma dessas palavras por serem portadoras de um sentido profundo: transparente, porque o governo deve prestar contas ao povo e nunca abusar de sua confiança; laica, porque, numa sociedade multiétnica e multicultural como a nossa, a laicidade é a única forma suscetível de oferecer um terreno comum para que possamos encontrar nossa união; liberal, porque sabemos que todos os seres humanos nasceram diferentes e devem ser considerados não como gostaríamos que eles fossem, mas como eles são. Quanto à democracia... neste caso, se você tem necessidade de uma explicação, seria preferível que deixasse de comprar este jornal.
O Sunday Leader nunca procurou garantir sua segurança ao exprimir o ponto de vista da maioria sem questioná-la, o que não deixa de ser, sejamos sinceros, a melhor maneira de vender jornais. Pelo contrário, como é demonstrado claramente pelos editoriais publicados no decorrer dos anos, exprimimos muitas vezes idéias que incomodam muitas pessoas. Assim, defendemos incansavelmente que era importante erradicar o terrorismo separatista, mas que era ainda mais importante combater suas raízes; neste sentido, exortamos o governo a enfrentar os conflitos étnicos no Sri Lanka ao reposicioná-los em seu contexto histórico e não através do prisma do terrorismo. Empreendemos, igualmente, uma campanha contra o terrorismo exercido pelo Estado em nome da «guerra contra o terror» e não escondemos nosso horror diante do fato de que, no planeta, o Sri Lanka seja o único país que, regularmente, lança bombas sobre seus próprios cidadãos. A manifestação de tais opiniões valeu-nos o qualificativo de traidores. Se essa postura se trata realmente de traição, neste caso ostentamos, com orgulho, tal etiqueta.

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 © Reuters via Guardian
“Este homem tinha plena consciência de que sua vida estava seriamente ameaçada. Apesar disso, decidiu falar sem subterfúgios mesmo depois de sepultado”, diz Joe Thloloe, presidente do júri do Prêmio Mundial da Liberdade da Imprensa da UNESCO 2009.
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Numerosas pessoas pensam equivocadamente que o Sunday Leader tem um programa político. Se damos a impressão de criticar preferencialmente o governo em vez da oposição, é simplesmente porque pensamos que nada serve criticar políticos que não detêm as rédeas do poder. Convém não esquecer que, no momento em que o UNP [United National Party] governava, fomos seu mais ferrenho estorvo, não deixando de revelar sempre seus exageros e os casos de corrupção; as revelações comprometedoras, publicadas sistematicamente pelo jornal, aliás, teriam contribuído para precipitar a queda desse governo.
Do mesmo modo, nossa aversão pela guerra não deve ser interpretada como um apoio aos Tigres [Liberation Tigers of Tamil Eelam, LTTE, grupo tâmil fundado em 1972]; o LTTE é um dos movimentos mais impiedosos e mais sanguinários existentes no planeta. É evidente que a guerrilha deve ser erradicada; ao violar, porém, os direitos dos cidadãos tâmeis, bombardeando-os e mantendo-os na mira dos fuzis sem piedade, trata-se não só de um erro, mas também de um ato vergonhoso para os cingaleses. Essa barbárie, que permanece amplamente desconhecida da população por causa da censura, questiona irremediavelmente o papel de guardiães do darma reivindicado pelos governantes atuais.
Ainda pior: para os tâmeis que vivem no Norte e Leste do país, a ocupação militar dessas regiões equivalerá a viver eternamente como cidadãos de 2ª classe, privados de qualquer auto-estima. Difícil imaginar que seja possível apaziguar sua cólera com a promessa de “desenvolvimento” e “reconstrução”, de forma confusa e precipitada, após o termo da guerra civil. As feridas causadas pelo conflito deixarão cicatrizes indeléveis e será necessário contar com uma diáspora ainda mais amarga e odiosa; um problema que poderia ter uma solução política irá transformar-se em uma chaga purulenta, fonte de conflito para sempre. Se eu dou a impressão de estar irritado e frustrado, é justamente porque um grande número de meus concidadãos – incluindo todo o governo – não consegue compreender o alcance desta advertência.
Como todo o mundo sabe, já fui vítima, em duas ocasiões, de ataques brutais e minha casa foi alvo de uma rajada de metralhadora. A despeito das benevolentes promessas do governo, nenhum inquérito policial sério foi empreendido para prender os mandantes e executantes desses atos; nos três casos, tenho motivos para acreditar que, de alguma forma, o governo estaria implicado nesses ataques. Assim, no dia em que eu vier a ser assassinado, é o governo que estará por trás da minha morte.
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