2009 - número 4
As escolas da água no Yang-tse

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 © Tang Ming
Alunos do ensino primário aplicam questionário em aldeia da província de Sichuan.
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A Bacia do Yangtsé, o mais extenso rio da China, fornece 40% dos cereais produzidos no país, um terço do algodão, 48% dos peixes de água doce e 40% da produção industrial da China. Ela concentra, também, 60% da poluição nacional. Um plano de saneamento dessa bacia, lançado pelos alunos das escolas da província de Sichuan, está ganhando proporções nacionais.
Exalando um fedor insuportável, montanhas de lixo formadas pelo acúmulo de poliestireno, utensílios diversos, restos de comida, detritos sanitários e sacos plásticos deixam imundo o rio Baicao, responsável pela água potável fornecida aos 6.600 habitantes de Piankou, na província de Sichuan (sudoeste da China).
Na década de 1980, a água desse afluente do Yang-tse, o mais extenso rio chinês, “era tão límpida que permitia ver seu leito”, lembra Zeng Wenjun, um ribeirinho de 40 anos. “Pescávamos nele o ‘qing-bo’ (‘água cristalina’), um peixe exclusivo desta região, dotado de um sabor incomparável; hoje, ele desapareceu completamente.”
O volume dessa imundície aumenta consideravelmente pela presença de resíduos das minas de ouro e das pedreiras de arenito exploradas por empresas particulares. Além disso, os camponeses locais são ameaçados pelas crescentes pequenas e médias centrais hidroelétricas que, ultimamente, têm sido instaladas em grande número. De acordo com Fu Zhiping, professor de ecologia na Escola Normal Superior de Mianyang (Sichuan), mais de mil cidades situadas a montante do Yang-tse lançam águas usadas e detritos diretamente nos inumeráveis afluentes do rio, provocando um verdadeiro abscesso ambiental no nível da represa das Três Gargantas.
Com efeito, apesar de fornecer 40% dos cereais produzidos no país, um terço do algodão, 48% dos peixes de água doce e 40% da produção industrial da China, a Bacia do Yang-tse também concentra 60% da polução nacional, o que a transforma, segundo o Instituto Shangri-la para Comunidades Sustentáveis (SISC), na primeira fonte individual de poluição do Pacífico.
50 mil alunos mobilizados em favor do Yang-tse

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 © Tang Ming
Controle da qualidade da água efetuado por alunos da cidade de Yuli (província de Sichuan).
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Na primavera de 2008, o professor Fu Zhiping e Sun Yao, aluno da escola primária central de Piankou, participaram do programa da “Escola da Água em favor de um Yang-tse Sustentável”, uma iniciativa operada no âmbito do “Projeto Internacional Water School”, da empresa austríaca Swarovski, que inclui igualmente o Nilo, no Egito, e o Ganges, na Índia.
Monitorado pelo SISC em parceria com o Ministério chinês da Educação e a UNESCO, o projeto mobilizou mais de 50 mil alunos nas 27 escolas primárias e secundárias de Sichuan e das províncias vizinhas do Qinghai e do Yunnan, assim como em Xangai, cidade que se encontra ao Sul do estuário pelo qual o Yang-tse se lança no Mar da China.
Sob a orientação do professor primário Tang Ming, o aluno Sun e seus colegas de turma analisaram pela primeira vez na vida a qualidade da água, manipulando provetas graduadas e papéis de gráfico. A avaliação confirmou a inquietação de Sun: um índice que culminou em 5,8 pH no curso inferior do rio Baicao, com opacidade de nível IV. Eram sinais de um grau alarmante de poluição.
Valendo-se dos resultados destas análises, Sun e seus colegas empenharam-se em escrever uma carta em que propunham uma gestão “mais científica” das 15 lixeiras das duas grandes artérias da cidade, além da criação de um serviço moderno de coleta de lixo. Superando qualquer expectativa da parte deles, a municipalidade não só aprovou tais proposições como também considerou a possibilidade de construir uma usina de tratamento das águas usadas, a fim de salvaguardar o ecossistema.
Assim, os alunos tomaram a iniciativa de distribuir questionários a todos os habitantes: 89% das respostas eram favoráveis às medidas antipoluentes.
“Este projeto lançou as bases de um plano de saneamento da Bacia do Yang-tse, permitindo também que, em parte, os alunos se livrassem do peso dos exames”, regozija-se Fu, que já conta com 14 anos de experiência na área da educação ambiental.
Lamas tibetanos: participação ativa

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 © Jane Pennell
Uma das fábricas que poluem as águas do Yang-tse.
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As “escolas da água” do Yang-tse têm saído do recinto fechado das salas de aula para refletir na melhoria das condições sociais, econômicas e culturais das comunidades. Na região autônoma tibetana de Deqing (província de Yunnan), os lamas do Templo de Dongzhulin foram então convidados a proteger a água colocando-a na essência de seus ensinamentos religiosos que reconciliam o homem com a natureza..
“Para que todos os cidadãos participem da proteção, a longo prazo, do meio ambiente, é importante aprender por meio da prática, além de incentivar a mudança das mentalidades e dos comportamentos que acabarão por exercer influência sobre as políticas governamentais”, explica Dorjie, coordenador do programa no SISC.
Em 2009, destaca ele, as ações atingirão a capital, Pequim, onde a escassez de água é notória. Um outro projeto de Educação em Favor do Desenvolvimento Sustentável do SISC abrangerá a Bacia do Yalu Tsangpo, no planalto tibetano, antes de chegar ao leito do Rio Amarelo, no norte da China.
Gong Yidong, jornalista do China Features