2009 – número 4
À sombra das lonas verdes

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 © Trópico
Teatro de marionetes: "Caçador, não dispare contra nós!"
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Dotada de uma extraordinária biodiversidade, a Bolívia apresenta uma das mais elevadas taxas de desmatamento do planeta. Uma intensa migração interna, direcionada para as terras férteis das planícies, impede o desenvolvimento sustentável. A fim de sensibilizar as populações para esse problema, a organização Conservation International promove uma pedagogia alternativa, baseada em atividades lúdicas.
À sombra de uma lona verde, Juan, um menino de 8 anos, lança os dados para fazer avançar sua peça em um jogo-da-glória desenhado em uma tábua; ele faz quatro pontos e cai na casa «desmatamento». Castigo: «recuar 3 casas». Na vez seguinte, ele se encontra em uma casa onde há uma bacia hidrográfica. Lá, ele deve responder à questão «como preservar uma nascente?». Sua resposta – «plantar mais árvores!» - é recompensada e ele pode avançar cinco casas.
Estamos num reduto militar da aldeia amazônica de Rurrenabaque, nos arredores da zona protegida de Madidi. Um grande número de crianças com idades entre seis e 11 anos acotovelam-se para assistir a espetáculos de marionetes e participar de jogos de memória ou quebra-cabeças; as exposições de cartazes, por sua vez, atraem a atenção dos adultos. À noite, uma trupe de jovens irá estrear uma peça de teatro escrita por eles próprios a partir das sugestões de professores das «lonas verdes» que percorrem esta zona tropical da Bolívia. Todas as atividades possuem um tema comum: a poluição e a proteção do meio ambiente.
O toldo verde montado sobre quatro pilastras de plástico assemelha-se a um enorme guarda-sol destinado a cobrir um ponto de venda de cerveja em um festival de verão; ou a um circo itinerante que, em vez de exibir animais adestrados, propõe atividades lúdicas relacionadas com questões ambientais.
Brincadeiras inventadas na hora

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 © Trópico
Lona verde no reduto militar de Rurrenabaque, próximo ao Parque Nacional de Madidi.
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Baseando-se em métodos interativos de educação em favor do desenvolvimento sustentável, o espaço visa a compensar a ausência do tema do meio ambiente no programa escolar boliviano; aliás, trata-se de um conceito que funciona perfeitamente em um país dotado de forte tradição oral. Desde seu lançamento, em 2000, os 20 toldos percorreram uma centena de comunidades indígenas. A pedido das populações locais, eles se deslocam de uma aldeia para outra onde permanecem, em cada uma, de quatro a cinco dias.
Promovidos e administrados pela organização mundial do meio ambiente Conservation International e pela Associação Boliviana para a Conservação (Trópico), as lonas verdes dispõem de uma quinzena de pessoas – agrônomos, biólogos, guardas florestais, professores e especialistas da comunicação –, em sua maioria voluntários. Dotado de um orçamento anual de US$ 30 mil, o projeto é financiado pela Agência Norte-americana para o Desenvolvimento Internacional (SAID) e pelo Serviço Nacional dos Parques Protegidos (SERNAP).
“O conteúdo dos materiais educativos de caráter lúdico não é elaborado nos escritórios urbanos, mas pelos alunos, professores e guardas florestais da região», sublinha Eduardo Forno, diretor da filial boliviana da organização Conservation International e iniciador do projeto. «São eles que decidem os mitos, as histórias e os desenhos a serem utilizados; em seguida, antes de serem distribuidos nas escolas, os jogos são fabricados na cidade por carpinteiros e artistas. A adequação do conteúdo é controlada por especialistas.”
Lonas verdes para um país verde

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 © Trópico
Grupo de crianças redige roteiro de peça de teatro sobre meio ambiente.
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A zona protegida do Parque Madidi situa-se num corredor que faz a ligação de Vilcabamba (Peru) ao Parque Amboró, perto de Santa Cruz, na Bolívia; este corredor é considerado a clareira mais rica da biodiversidade na América do Sul. Expulsos pela fragmentação e pela aridez das terras dos planaltos andinos, porém, milhares de pessoas instalam-se nessa região procurando alternativas de produção e de sobrevivência. Tal fluxo migratório regular suscita consideráveis problemas ambientais: segundo os dados fornecidos pelo ministério boliviano do Meio Ambiente, a Bolívia tem registrado, anualmente, a destruição de 300 mil hectares de florestas.
“Como o país não tem acesso direto para o mar, a economia tende a penetrar cada vez mais no interior das zonas tropicais”, explica Eduardo Forno. “Esse é nosso principal problema da preservação: os habitantes dessas baixadas conhecem e respeitam a extraordinária biodiversidade de sua região, mas esse não é necessariamente o caso das populações originárias dos planaltos. Por essa razão é que, entre esses migrantes, nosso projeto focaliza essencialmente os jovens. Uma idéia preconcebida sugere que a nova geração fica impregnada pela cultura indígena, como se tratasse de uma transmissão genética; no entanto, as pessoas esquecem que tal transmissão sofre, muitas vezes, a interferência da lógica da economia de mercado, assim como da modernidade.”
A intensa migração interna e a abertura da Bolívia aos mercados internacionais da madeira, soja e indústria mineradora tendem a modificar e agravar os riscos que ameaçam o meio ambiente. “Apesar de terem plena consciência de que a quantidade de peixes está diminuindo cada vez mais, nem por isso as pessoas consideram a indústria mineradora como um problema ambiental”, prossegue Forno. “De nossa parte, sabemos que a poluição a montante do vale estende-se até as partes mais baixas da bacia hidrográfica; além disso, a poluição de mercúrio acarreta, no final do processo, o desaparecimento dos peixes. As lonas verdes têm a missão de suscitar esse tipo de questões e de alimentar a reflexão sobre o problema do meio ambiente para além do contexto imediato.”
Ainda segundo Forno, a educação ambiental constitui um dos raros recursos que permitem garantir serviços ecossistêmicos saudáveis. “Ela é fundamental para a preservação da natureza e para que a Bolívia permaneça um país verde.”
As atividades desenvolvidas sob a lona verde de Rurrenabaque mostram, com toda a evidência, que a educação em favor do desenvolvimento sustentável pode ter algo de divertido... por mais séria que seja a questão do futuro da Humanidade.
Niels Boel, jornalista dinamarquês