2008 - número 5
Pajés e psicanálise

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 © Claude Lévi-Strauss
O homem, que falava português, foi um informante para Lévi-Strauss entre os Bororó no Brasil (1935-1939).
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Enquanto na Europa os loucos eram presos em camisas de força, algumas das sociedades primitivas os tratavam com métodos que se assemelham bastante à psicanálise, explica Lévi-Strauss em artigo para o Correio de julho e agosto de 1956, no qual ele traça paralelos entre rituais xamânicos e psicoterapias modernas.
Muitos de nós consideramos a psicanálise como uma descoberta revolucionária da civilização do século XX e a colocamos no mesmo patamar da genética ou da teoria da relatividade. Outros, provavelmente mais conscientes dos abusos da psicanálise do que das verdadeiras lições que ela nos ensina, ainda a enxergam como um dos absurdos do homem moderno. Em ambos os casos, nós subestimamos o fato de que os psicanalistas simplesmente redescobriram e expressaram em novos termos uma abordagem para o sofrimento mental que provavelmente data dos primeiros dias da humanidade e que os assim chamados povos primitivos têm usado desde sempre, com uma habilidade que não raro impressiona nossos melhores profissionais.
Em Janeiro-fevereiro de 1936, Kejara compreendia uma "casa dos homens" e 27 outras casas, muitas das quais habitadas por várias famílias. [...] Apenas um dos nativos, que escapou das missões, falava português fluentemente. Aparentemente houve um tempo no qual ele era capaz de ler e escrever na língua. Quatro ou cinco entendiam-na, mas possuíam um vocabulário de apenas algumas poucas palavras.
Lévi-Strauss, 1936
Veja o link: Índios Bororó
Alguns anos atrás, etnólogos suecos gravaram e publicaram um longo ritual de cura usado entre os índios Cuna, do Panamá, em casos de dificuldades no parto. No ritual, o pajé da tribo se coloca diante da mulher que sofre e começa a recitar um canto, explicando que a sua indisposição é devida à ausência temporária da alma que controla a procriação. Os índios Cuna acreditam na existência de uma pluralidade de almas, cada qual a cargo de uma função específica na vida. Nesse caso particular, a alma fora seqüestrada e levada para um outro mundo por alguns espíritos do mal. O pajé diz à mulher que espera se tornar mãe que ele está realizando uma busca sobrenatural pelo espírito perdido. Com uma rara riqueza de detalhes ele descreve os obstáculos que encontra e os inimigos que tem que enfrentar; como ele os derrota pela força ou por trapaças antes de alcançar a prisões da alma capturada. Ele então liberta a alma e a induz a retomar o controle do corpo que sofre deitado ao seu lado.
Curas de pajés, precursoras da psicanálise
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 © Gonzalo P.
Mulher Cuna. "Os índios Cuna acreditam na existência de uma pluralidade de almas."
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Esta forma de cura (não temos razão para supor que ela não é bem-sucedida, ao menos em certos casos) é interessante por várias razões. Primeiramente, ela é puramente psicológica; não são usados medicamentos nem o corpo do paciente é tocado. O pajé simplesmente recita ou canta, confiando apenas no discurso para efetuar a sua cura. Em segundo lugar, duas pessoas devem participar do tratamento – o médico e o paciente – embora, como veremos em breve, isso não significa que outros membros da comunidade não possam estar presentes.
Das duas pessoas, o pajé, cujos poderes são reconhecidos por toda a tribo, encarna a autoridade social e o poder da ordem, enquanto o outro (o paciente) sofre do que deveria ser chamada uma desordem psicológica, mas que os índios atribuem a uma vantagem adquirida pelo mundo espiritual sobre o mundo humano. Dado que esses dois mundos devem estar normalmente alinhados e o mundo espiritual tem a mesma natureza que o das almas dos indivíduos, o problema, na forma como os índios o vêem, realmente deriva de um distúrbio sociológico causado pela ambição, suscetibilidade a doença ou ressentimento do espírito que se deve a fatores sociais e psicológicos.
Com a descrição das causas do mal-estar e o recontar de suas aventuras no outro mundo, o pajé conjura para os seus ouvintes algumas imagens familiares, tiradas de suas crenças e dos mitos que são da herança comum de toda a tribo. Como as curas são conduzidas em público, os jovens da tribo as testemunham e assim adquirem um conhecimento detalhado das crenças da tribo.
Várias das características descritas lembram estranhamente o tratamento psicanalítico. Aqui também a doença é considerada de origem psicológica e o tratamento aplicado é exclusivamente psicológico. Porque incapaz de controlar os sintomas ou mais simplesmente porque está sofrendo de estresse mental, o paciente se sente alijado da comunidade e chama pelo médico, cuja autoridade é reconhecida pelo grupo, para ajudá-lo a retomar o seu lugar na sociedade. O tratamento busca induzir o paciente a descrever eventos sepultados no seu inconsciente mental, mas que, não obstante o passar do tempo, ainda governam os seus sentimentos e atitudes em relação à vida.
Existem eventos ou histórias que têm sua origem num passado tão distante que a sua verdadeira unidade foi perdida, embora, melhor que eventos mais recentes, eles nos permitam entender a natureza do que está acontecendo nos dias de hoje. Essas histórias são o que os sociólogos chamam de "mitos". Seria muito difícil dar uma melhor definição para a palavra.
Convergências e divergências
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 © Musée du Quai Branly
Avental de um pajé Kadwéo, trazido por Lévi-Strauss do Mato Grosso (Brasil).
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A principal diferença entre a medicina tradicional (como no exemplo da mãe grávida acima) e o tratamento por psicanalistas é que no primeiro caso é o médico quem usa a palavra enquanto no segundo caso é o paciente. Um bom psicanalista que conhecemos raramente dirá uma palavra durante a maior parte do tratamento, seu papel é oferecer ao paciente um estímulo (alguém pode até dizer uma provocação) que a presença de uma outra pessoa provê, de modo que o paciente possa destilar todas as suas emoções agressivas sobre essa "outra pessoa" sem nome.
Em ambos os casos, a criação de um mito é parte do tratamento. A diferença é que com os Cuna o mito já é construído. Familiar a todos e perpetuado pela tradição, o pajé apenas o adapta a cada caso individual.
No caso do parto, por exemplo, o pajé traduz o mito em termos que são significativos para a mãe. Isso a permite nomear, então entender e talvez finalmente dominar a ansiedade que até então ela tem sido totalmente incapaz de expressar por qualquer outro modo.
Na psicanálise, todavia, o paciente elabora o seu próprio mito. Quando paramos para pensar sobre isso a diferença não é tão grande, porque a psicanálise reduz a causa das desordens psicológicas a um número muito pequeno de situações possíveis entre as quais o paciente pode escolher, mas não pode fazer muito mais a respeito. Todas elas dizem respeito a experiências anteriores na vida do paciente e sua relação com sua família enquanto criança. Aqui também, um estado de alívio é alcançado quando as ansiedades que o paciente não poderia expressar ou não ousou admitir é ao menos traduzida em termos de um mito que se encaixa em sua história particular.
Para trazer um pouco de conforto aos psicanalistas e seus seguidores, permitam-me deixar claro ao menos que, ao utilizar a palavra "mito", eu não quero dizer que a história em questão é falsa ou inventada. Muitos mitos são baseados em ocorrência real mas, como eu tenho indicado, o que faz um mito depende não apenas de quão precisamente ele reflete a história ou o evento originais mas a sua capacidade de dar significado ao presente.
Portanto, não é uma surpresa descobrir que habilidosos psicanalistas que visitaram sociedades primitivas para fazer pesquisas com os mais atualizados métodos de investigação se encontraram em pé de igualdade com a medicina tradicional, e em alguns casos até mesmo reconheceram a superioridade desta última.
(continua)