ISSN 1993-8616

2009 - número 5


Caligrafia, a arte de fazer palavras cantarem





© Hassan Makaremi
"Arte rupestre e Direitos Humanos", quadro de Hassan Makaremi.

“A caligrafia persa inclui uma série de elementos de outras culturas, ao passo que a caligrafia chinesa permanece profundamente enraizada na tradição local”, explica Hassan Makaremi, pintor-calígrafo e psicanalista iraniano. Mas, qualquer que seja a tradição em que ela esteja inscrita, a caligrafia encarna nossa maneira de “estar no mundo”.



“Os filhos de Adão fazem parte de um corpo
Todos foram criados da mesma essência.
Se uma dor aflige um de seus membros
Os outros também perdem seu bem-estar.
Se, com a dor dos outros, não sofres
És indigno de pertencer a esse corpo.”

Estrofe de Sa’adi (13th century), célebre poeta persa (século XIII), inscrita no frontão da sede das Nações Unidas, em Nova York.

Por ocasião do Festival Internacional da Diversidade Cultural, organizado pela UNESCO no mês de maio passado, Hassan Makaremi proferiu, em companhia do grande mestre chinês Fan Zeng, uma conferência sobre o tema «Visões complementares sobre a caligrafia». Entrevistado por Monique Couratier, redatora do Correio, ele explica como a caligrafia persa de estilo nas’taliq permitiu-lhe exprimir seus ideais por meio da cor e do movimento, através de uma busca pessoal alimentada pela intuição poética, assim como pelo rigor científico.

Que afinidades você compartilha com o mestre Fan Zeng? E quais as diferenças?

Acima de tudo, mestre Fan Zen e eu próprio temos em comum a relação estreita com a natureza: vemos as mesmas coisas e procuramos transmiti-las pelo viés da caligrafia. Convém ter presente que a caligrafia é uma arte que consiste em estilizar a escrita; aliás, ela foi inventada a partir da observação da natureza. Em seu inventário das formas visuais, Marc Changizi, pesquisador no Rensselaer Polytechnic Institute, em Troy (EUA), colocou em evidência uns 50 elementos que aparecem tanto na natureza quanto em quatro famílias de escrita: cuneiforme, hieroglífica, chinesa e maia. Para o mestre Fan Zeng, assim como para mim, a caligrafia encarna nossa maneira de “estar no mundo”.

Quanto às nossas diferenças, elas têm a ver com o vínculo social. Tendo surgido 4.000 a.C., a escrita chinesa permaneceu profundamente enraizada na natureza: existe um nexo direto entre os desenhos rupestres e os pictogramas que, há seis milênios, não sofreram qualquer alteração. Eis o motivo pelo qual o fio de tinta traçado pelo pincel do calígrafo chinês continua, através das épocas, a transformar-se instantaneamente em cavalo, boi ou tigre. O ritmo do tempo é escandido apenas pelo talento dos mestres.

Em compensação, a caligrafia persa inclui uma série de elementos de outras culturas. Estou pensando, em particular, nas escritas kufi (angulosa e geométrica) e naskh (maleável e arredondada), de inspiração árabe. Estas foram abandonadas por ela que, desde o século XIV, se focalizou na natureza: assim, ao observá-la, extraía a suavidade das curvaturas que caracterizam o nas’taliq, estilo que inspirou minha obra. Por exemplo, o ovo é simbolizado, nessa escrita, por uma esfera voluptuosa que parece levantar voo com a leveza de um cílio…

Esse intercâmbio com outros imaginários – mongol, árabe, turco, indiano, etc. – que se refletem na linguagem dos corpos e, portanto, no gesto do calígrafo, faz com que a caligrafia persa tenha lançado, igualmente, um olhar estilizado sobre o “ser falante”, esse “ser desejante” que vive na cidade. Por sua vez, a caligrafia chinesa permanece circunscrita à natureza, sublimada por ela. Por quê? Não sou um especialista da filosofia do Extremo Oriente, mas penso que seria possível encontrar a resposta na superação do desejo, preconizada pelo budismo.



© DR
Estrofe de Sa’adi, poeta persa do séc. XIII.

Seu encontro com mestre Fan Zen certamente não se resumiu a constatar semelhanças e diferenças; em seu entender, em que aspectos foi estabelecido um verdadeiro diálogo?

O próprio fato de estarmos juntos já é uma forma de diálogo não só em relação ao que temos em comum, mas também às nossas diferenças. O resultado deste diálogo? A vida, simplesmente. Nosso compromisso em traçar com nosso pincel a curvatura do universo constitui uma mensagem segundo a qual a humanidade, apesar de sua diversidade, é uma só.

Se utilizo, frequentemente, a metáfora da árvore, é porque a humanidade tem raízes comuns que fazem sua unidade, milhares de ramos que fazem sua diversidade (seus povos, ao mesmo tempo, tão diferentes e tão mestiçados), além de inúmeras folhas tão sinuosas quanto as obras do gênio criador. Sem suas raízes profundamente arraigadas na terra, sem seus ramos – alguns morrem, outros se desenvolvem –, sem suas folhas constantemente “renovadas”, a árvore seria incapaz de sobreviver.

E como explicar, então, a violência? Esta ocorre porque alguns povos ou indivíduos julgam que estão fora do “cenário” comum de nossa humanidade. Ora, sem o sentimento de pertencimento à mesma espécie e sem o reconhecimento da diversidade, a humanidade não terá condições de sobreviver. Essa é a mensagem de nosso intercâmbio, entre calígrafo chinês e calígrafo persa. Essa é também a mensagem, por um lado, da ONU, que inscreveu no frontão de sua sede, em Nova York, uma estrofe do ilustre poeta persa Sa’adi [ver destaque] e, por outro, da UNESCO, que me enche de orgulho por depositar sua confiança em minha colaboração em favor da “diversidade cultural em diálogo”.



© Hassan Makaremi
«Dervixe rodopiante», quadro de Hassan Makaremi.

Por que razão a caligrafia não teve sucesso no Ocidente? E atualmente, será que ela ainda tem um sentido?

No Ocidente, desde o século XVI, houve uma preferência pela rapidez e pela eficácia, em particular, pelo empenho em controlar a natureza; no Oriente, por sua vez, preferiu-se “exprimi-la”, “escrevê-la” em suas espessuras e sutilezas, em suas curvas e seus silêncios, em suma, ao deixar um espaço para a interpretação, para a liberdade…

Com base na minha formação de cientista, está fora de questão renunciar ao rigor, à clareza e à concisão; mas, sei pertinamente que o teclado do computador nunca chegará a substituir a mão. De acordo com a minha avaliação, a caligrafia representa, atualmente, um valor agregado. Com efeito, em um movimento cúmplice com a natureza, à semelhança de um dervixe rodopiante, o gesto do calígrafo-filósofo-poeta faz “cantar as palavras” que exprimem o universo. Eis o que significa a caligrafia nas’taliq: a alquimia da vida.