ISSN 1993-8616

2009 - número 5


O olhar pessoal de um estranho familiar






Shigero Asano expôs suas obras na prefeitura do primeiro distrito de Paris, em maio passado, durante o Festival de Diversidade Cultural organizado pela UNESCO. (© Shigeru Asano).

“Nesta foto, vemos não um carrossel, mas seu reflexo”, explica Shigeru Asano, fotógrafo japonês apaixonado pelas luzes e sombras de Paris, cidade que percorre há 30 anos. A quase 10 mil quilômetros, em linha reta, de sua terra natal, Osaka, ele se sente em casa na capital francesa, cidade cuja atmosfera de melancolia lhe fazia falta em uma Tóquio, segundo ele, excessivamente ofuscante.



Clarabóias reluzentes, as fotografias de Shigeru Asano deixam entrever apenas uma parte da realidade: aquela que uma pequena poça de água, em uma calçada, é capaz de conter. Shigeru Asano não é o único fotógrafo apaixonado pelo reflexo, mas é certamente um dos raros que acabou por transformá-lo em um princípio de estética. Às vezes, atravessado por um raio desfocado, ao sabor do vento, ou rodeado por uma zona de sombra, ao capricho da água, o reflexo conserva, porém, uma nitidez surpreendente; de qualquer modo, ele constitui a
única realidade perceptível em suas obras.

“As pessoas vêm ao meu encontro, na rua, para me perguntar se tenho algum mal-estar... elas ficam inquietas ao verem um homem agachado sob um aguaceiro tentando abrigar-se o melhor possível debaixo do guarda-chuva.” Elas não se dão conta de que esse homem está empenhado a colocar a máquina fotográfica em um tripé, deixando a objetiva a 2 ou 3 cm do chão. Nem suspeitam que ele passou alguns meses – às vezes, anos – para imaginar a foto que está em via de bater; que ele gastará, talvez, trinta películas para conseguir o clichê pretendido.

O mesmo é dizer como é importante a duração na tentativa artística de Shigeru Asano, que não se serve das tecnologias digitais por não experimentar qualquer afinidade com o instantâneo. “Com a película, existe a expectativa… em seguida, a descoberta do sucesso ou do fracasso. Às vezes, no momento da revelação, a imagem não aparece... Tudo está preto. Então, tenho de recomeçar... é como uma luta perpétua com a imagem. Aliás, é algo de bastante motivante.” Em oito anos, desde que ele iniciou seu projeto das “poças de água”, Shigeru Asano elaborou apenas 60 fotos.




Shigero Asano expôs suas obras na prefeitura do primeiro distrito de Paris, em maio passado, durante o Festival de Diversidade Cultural organizado pela UNESCO. (© Shigeru Asano).
Diametralmente oposto a Nobuyoshi Araki, seu célebre compatriota, Shigeru Asano cria um universo paralelo, tecido com ilusões e sonhos: à violência, ele opõe o lirismo; ao tumulto, o silêncio; à multidão, a solidão. Em sua Paris, não há praticamente vivalma. “Que nada!”, protesta ele, “como pode ver, aqui, há um homem”. Certamente, algumas raras silhuetas atravessam as cenas que Shigeru Asano compõe em preto e branco com seu inseparável aparelho Pentax 6.7. Elas são, porém, sempre solitárias. Por fim, ele acaba por reconhecer: “Para mim, essas fotos são semelhantes a um espelho”.

O fotógrafo relata sua solidão. Com 14 anos, ficou orfão de mãe, sem nunca ter conhecido o pai. Tampouco teve irmãos ou irmãs. Nem tem filhos. “Por enquanto...” Em 1971, esteve em Tóquio para estudar estilismo. Cinco anos depois, passou algum tempo em Paris, cidade em que se instalou definitivamente em 1979. Durante seus primeiros dez anos parisienses, fez de tudo – pintor, mecânico, garçon –, antes de descobrir um aparelho Minolta e de se lançar na fotografia. Seguiram-se outros dez anos de busca que se traduziu em uma infinidade de fotos com cores flamejantes, algumas das quais destinadas aos magazines de moda. “Depois, em uma certa noite em que me sentia bastante infeliz por ter sido abandonado pela mulher que eu amava – o que acontece com todo o mundo, não é mesmo? –, fui para a rua e andei debaixo de um aguaceiro. Confundindo-se com as gotas da chuva, as lágrimas embaciavam meus olhos e, nesse momento, vi imagens semelhantes às que podem ser vistas, atualmente, nas minhas fotos. Eu havia encontrado meu nicho.”






Shigero Asano expôs suas obras na prefeitura do primeiro distrito de Paris, em maio passado, durante o Festival de Diversidade Cultural organizado pela UNESCO. (© Shigeru Asano).

Curiosas coincidências com “O estrangeiro”, do poeta francês Charles Baudelaire, em seu livro Pequenos poemas em prosa [O spleen de Paris]: “Diga-me, homem enigmático, quem é seu maior amor: seu pai, sua mãe, sua irmã ou seu irmão? / Não tenho pai, tampouco mãe, irmã ou irmão [...] / Ei! O que é, então, que você ama, extraordinário estrangeiro? / Amo as nuvens... as nuvens que passam... lá... além... as maravilhosas nuvens!”

Jasmina Šopova