ISSN 1993-8616

2009 – número 5


Música viajante






© Yücel Yildirimkaya
Caminhada com canções, em Rizé (Turquia).

Abandonado durante várias décadas, o folclore bretão conhece atualmente uma notável renovação. A cerca de 2.500 quilômetros, as cantigas tradicionais retornam às casas anatolianas que as haviam deixado no esquecimento. Hoje, a Associação Uma Ponte sobre o Bósforo restabelece a ligação entre músicos da França e da Turquia que compartilham a mesma paixão e as mesmas preocupações.




No próximo verão, em Rizé (Turquia), o “Festival das Pastagens Vertes” recebe, para sua quarta edição, músicos estrangeiros. Eles vêm da França: não a dos turistas ou das astúcias da diplomacia que têm ocupado a mídia turca nos últimos anos, mas a França dos apreciadores das canções tradicionais que está empenhada, por um lado, em encontrar solução para os problemas decorrentes do êxodo rural e, por outro, em reconstituir o tecido social.

Certamente, a urbanização, a industrialização e o impacto do “show-biz” fazem-se sentir tanto na Turquia quanto na França: a canção tradicional se perde pelo uso desmesurado da tecnologia que se deixa arrastar pelo aspecto sedutor da globalização e se submete ao star system. Mas, ocorre que os dois países conservaram bolsões de autenticidade, tais como a Bretanha, no extremo oeste da França, à beira do Oceano Atlântico, ou a província de Rizé, situada no extremo nordeste da Anatólia, exatamente na região em que começa o Cáucaso.

O renascimento bretão


© Jean-Maurice Colombel
Noite de música em café de Bovel.

Do lado francês, os bretões não pouparam seus esforços nos últimos 50 anos para fazer ressurgir suas músicas, danças e festas tradicionais. Tendo ficado afastada de seu passado pela urbanização, a segunda geração empenhou-se em procurar a herança de seus ancestrais. Tal busca incidiu, em primeiro lugar, sobre a região do idioma bretão; em seguida, sobre a região do gaulês, língua próxima do francês. Com o tempo, no entanto, teoria e práticas foram evoluindo. Outrora, o “revivalismo” estava nas mãos dos pesquisadores, cujo objetivo consistia, antes de mais nada, em coletar, analisar, compreender e publicar; atualmente, como observa o etnomusicólogo Yves Defrance, os investigadores, além das atividades citadas, “pretendem reapropriar-se desse repertório, atualizá-lo sem alterar seu espírito e transformá-lo em um meio de expressão contemporâneo”.

Hoje em dia, as cantigas gaulesas – que haviam sido abandonadas pelos novos modelos de vida – deixaram de ser peças de museu ou passatempos confidenciais reservados às reuniões festivas de um punhado de militantes da cultura. Elas renascem, aos poucos, nos concursos anuais, nas reuniões em casa ou nos bares, nas refeições comunitárias da aldeia, nas caminhadas organizadas pelas municipalidades ou pelos estabelecimentos escolares e nos ateliês de música de diferentes lugarejos. Ao mesmo tempo, nas zonas rurais, jovens e idosos, empregados e desempregados, mulheres e homens reatam seus vínculos sociais graças à ressurgência das canções tradicionais.

Os cantores que fazem a viagem até Rizé, este ano, figuram entre os atores mais relevantes dessa ressurgência. Alguns, como Charles Quimbert ou Vincent Morel, são originários da comunidade dos pesquisadores: eles receberam uma formação universitária e trabalham no Dastum, organismo regional de pesquisa e de preservação do patrimônio imaterial. Em 1996, promoveram a “Festa da canção tradicional de Bretanha e de alhures”, que se realiza, anualmente, em Bovel, um lugarejo bretão da região de Rennes. Outros, que cresceram embalados pelos cantares tradicionais, são camponeses portadores da memória local, verdadeiros tesouros vivos.

Seu primeiro encontro verificou-se em decorrência de uma chuva diluviana: no verão de 1997, os participantes do Festival aprestavam-se a efetuar sua caminhada de canções quando, devido a um súbito aguaceiro, foram obrigados a se abrigar no único bar de Bovel. Nesse local, encontrava-se a geração dos “mestres da tradição”, reunida em torno dos proprietários, Léone e Louis Bernier. Para eles, o Festival, “era um negócio dos jovens”. Mas, quando estes começaram a cantar, eles reconheceram suas canções. Desde então, esse barzinho tornou-se um lugar emblemático de reencontro entre gerações. Na primeira sexta-feira de cada mês, ele acolhe alunos do primário e do secundário, professores e um grande número de outros habitantes da região, até mesmo de Paris, que varam a noite cantando...

Músicas de todas as cores e sabores


© Yücel Yildirimkaya
Arquitetura típica do Mar Negro entre plantações de chá.

Do lado turco, foi ainda um desenraizado, Birol Topaloglu, quem inspirou os primeiros sinais de um retorno em canções para o país natal acompanhados, também, por uma profunda tomada de consciência ecológica. Com efeito, à semelhança do que ocorre em outras regiões da Turquia, as margens encravadas das torrentes que correm em direção ao Mar Negro, abandonadas por camponeses à procura de uma vida supostamente mais fácil na cidade, estão ameaçadas de extinção por diferentes projetos de barragens.

Ainda ontem, as canções e as danças comunitárias ressoavam nas magníficas moradias de pedra incrustadas na floresta. Aos poucos, elas foram reduzidas ao silêncio. Assim é que, há alguns anos – a partir de uma visão que engloba ao mesmo tempo a defesa do patrimônio, da terra natal e da oralidade –, Birol empreendeu a coleta, a publicação e a ressurgência do repertório tradicional. Ele faz questão de servir-se de sua notoriedade de músico, instalado em Istambul, assim como das amizades estabelecidas fora da Turquia.

Organizado no “Vale da Tempestade”, em agosto, nas encostas verdejantes e luxuriantes de Rizé, onde se destaca a brancura dos minaretes, o Festival anual dirige-se a todos os públicos. À semelhança do que ocorre em Bovel, ele se empenha em reunir jovens e idosos, os que vivem no próprio local e os que tiveram de sair da região. As canções estão em toda parte: as pessoas cantam ao dançarem, cantam enquanto caminham, cantam durante as refeições. Por tradição, são organizadas coleções de contos, ateliês de cozinha tradicional, colheitas de plantas selvagens… e as pessoas exibem seu orgulho por terem conservado o laze, língua rara do grupo georgiano.

Mesma paixão, mesmas iniciativas e, no entanto, um encontro improvável: afinal, onde fica Bovel ou Rizé? Como se as duas regiões tivessem sido feitas uma para a outra, a Associação Uma Ponte sobre o Bósforo serviu de intermediário para esse encontro. Associação francesa sem fins lucrativos e de intercâmbio cultural com a Turquia, ela está na origem de uma bela história de amor, contada em música, e que dá todos os sinais de perdurar para sempre.

Françoise Arnaud-Demir, intérprete de canções populares turcas e professora-pesquisadora no Instituto de Línguas e Civilizações Orientais (INALCO) em Paris, é presidenta da Associação Uma Ponte sobre o Bósforo, criada por ela, em 2004.