2009 - número 5
Volta ao mundo no fio da seda

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 © UNESCO/Michel Ravassard
Cultivo da amoreira e criação de bicho-de-seda são registrados na Tailândia desde o séc. XIII.
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Depois de perder seu atrativo na primeira metade do século XX, a tradição da seda na Tailândia ganhou novo impulso na década de 1950 graças a um norte-americano : Jim Thomson. Uma jovem tailandesa – ninguém menos que a rainha Sirikit – se tornaria sua aliada. Essa arte secular, que atualmente promove a conciliação entre artesanato e industrialização, perpetua-se de geração em geração, contribuindo assim para o desenvolvimento do país.
Champanhe e seda: uma aliança real
No domingo de Páscoa de 1967, um empresário norte-americano instalado na Tailândia desapareceu na selva malaia em circunstâncias jamais elucidadas. O mistério chamou a atenção da mídia e da opinião pública na Ásia, assim como nos EUA e em outros países, pelo fato de não se tratar de um ilustre desconhecido: se naqueles dias alguém utilizasse o endereço “Jim Thomson, Bangkok”, a carta seria entregue ao destinatário em meio aos 3 milhões de habitantes da capital tailandesa.
Durante os 20 anos que precederam sua estada fatal na Malásia, Jim Thomson realizou o que outras pessoas não teriam conseguido no decorrer de uma vida inteira: especializado em uma arte antes completamente desconhecida para ele, este empresário criou uma importante indústria da seda na Tailândia. Sua casa em Bangkok, que conserva tesouros artísticos da região, é uma obra-prima da arquitetura.
Eis um percurso digno de um romance sobre a plena realização no plano pessoal e sobre a transformação de milhares de destinos: com efeito, o nome de Jim Thompson tornou-se, hoje, a denominação de uma empresa tailandesa florescente com reputação internacional, cujos produtos de seda guarnecem as mais belas vitrines das megalópoles e decoram hotéis e restaurantes no mundo inteiro.
A seda de Bangkok dá a volta ao mundo
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 © UNESCO/Michel Ravassard
Cena de espetáculo tailandês apresentado durante o Festival Internacional da Diversidade Cultural, em 18 de maio, na UNESCO.
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Jim Thompson, arquiteto de formação, descobriu a Tailândia ao ser enviado para esse país como oficial das forças armadas norte-americanas, em 1945. Naquele ano, a cidade de Bangkok contava com um reduzido número de imóveis e de viaturas e os canais ainda eram as principais vias de comunicação. Atraído pelos mercados e seduzido pelo sorriso dos tailandeses, ele decidiu instalar-se no país, após sua desmobilização.
Desde sua chegada, Thompson começou a colecionar pedaços de seda tailandesa que o fascinavam pela combinação surpreendente de cores e pela textura irregular que, efetivamente, a distingue da maleabilidade das sedas japonesa ou chinesa, em função da qualidade dos bichos-da-seda.
Ainda que a tradição siamesa do cultivo da amoreira e da criação dos bichos-de-seda seja atestada desde o século XIII por um diplomata chinês, o arquiteto norte-americano contribuiu para o reconhecimento da qualidade ímpar da seda tailandesa. Quando ele se instalou em Bangkok, os tecelões eram raros e a tradição havia sido preservada apenas por alguns muçulmanos do bairro de Benkrua. Ao decidir comercializar o produto, Thompson entrou em contato com esses artesãos, que mostraram desconfiança. Embora intrigado, um dos chefes de família acabou por aceitar a proposta. Teve início, então, uma grande aventura.
Em 1947, carregando um baú repleto de amostras de seda, Thompson tomou o avião para Nova York, onde uma editora de moda apaixonou-se pelos tecidos e ofereceu-lhe imediatamente seu apoio. Ao retornar à Tailândia, criou uma empresa da qual foi diretor e acionista majoritário e a gerenciou de uma nova forma: contratou prioritariamente mulheres, autorizando-as a trabalhar em casa a fim de não perturbar suas vidas familiares. Introduziu importantes mudanças nas modalidades de fabricação e substituiu as tinturas vegetais por tintas químicas, sem deixar de conservar as cores tradicionais da seda.
No início da década de 1950, Thompson abriu uma loja em Bangkok que obteve enorme sucesso. Em breve, recebeu a visita da rainha Sirikit – empenhada obstinadamente na promoção do artesanato e do patrimônio cultural tailandês –, que se tornou sua cliente mais célebre e mais influente. Ao visitar oficialmente outros países, ela vestia indumentárias confeccionadas em seda tradicional, o que atraiu a atenção do grande costureiro francês Pierre Balmain. Do outro lado do Atlântico, Irene Sharaff – criadora dos figurinos para a comédia musical O rei e eu, do norte-americano Walter Lang – inaugurou uma série de filmes que contribuíram para o prestígio da seda tailandesa. As encomendas chegaram de toda a parte.
Preservar a tradição
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 © UNESCO/Michel Ravassard
A arte da seda tailandesa é apresentada na UNESCO. Festival Internacional da Diversidade Cultural, maio de 2009.
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A partir da década de 1970, a fabricação da seda implantou-se na província de Khorat, no nordeste da Tailândia. Ao percorrer essa região agrícola com clima quente e poucos recursos, a rainha Sirikit percebeu as dificuldades dos camponeses e propôs-lhes relançar a tecelagem da seda e a tintura tradicional. Em 1976, a rainha criou a Fundação SUPPORT com o objetivo de desenvolver atividades artesanais na zona rural e de conservar as antigas técnicas de fabricação. Hoje, cerca de mil famílias possuem seus próprios campos de amoreiras e criam bichos-da-seda em casa. Os casulos, que atingem a maturidade em 23 dias, são vendidos à empresa de Jim Thompson.
Nos dias de hoje, a tecelagem, que constitui a etapa central no processo da fabricação da seda, encontra-se nas mãos de 600 tecelões, homens e mulheres, que transmitem seu conhecimento de geração em geração. Em uma tentativa para conciliar tradição e modernidade, a operação de imprimir tecidos utiliza não apenas moldes de madeira, mas também impressoras digitais. O controle da qualidade e o acabamento à mão, porém, são obrigatórios, garantindo assim o indispensável compromisso entre artesanato e industrialização.
Como o empresário norte-americano havia previsto, a grande aventura da seda tailandesa contribuiria para a prosperidade do país: atualmente, 90% dos acionistas da empresa Jim Thompson são tailandeses. Um terço deles, filhos e netos dos primeiros tecelões muçulmanos de Benkrua.
Resenha da conferência de Eric B. Booth, da “Jim Thompson’s Thai Silk Company”, pronunciada na UNESCO, em maio passado, por ocasião do Festival Internacional da Diversidade Cultural.