2009 - número 8
Em foco

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 © Babak Sedighi
Sítio arqueológico de Behistun (Irã).
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A Pedra de Roseta de Behistun
Um plano de urgência acaba de ser lançado para a salvaguarda de Behistun, sítio iraniano incluído na Lista do Patrimônio Mundial e ameaçado pela erosão. O lugar abriga uma inscrição redigida em três línguas – elamita, babilônio e persa antigo – por meio da qual foi possível decifrar a escrita cuneiforme.
A cerca de 30 quilômetros de Kermanshah, na principal estrada comercial que liga o Curdistão e a Mesopotâmia ao planalto central do Irã, o sítio arqueológico de Behistun contém vestígios que se referem tanto à história da Pérsia Antiga, quanto a uma parte de sua pré-história. Todos esses elementos situam-se em torno do monte sagrado de Behistun e do Monumento de Behistun, a saber: a inscrição e o baixo-relevo de Dario 1º, o Grande, datados de 521 a.C., ano em que este rei subiu ao trono do Império Persa.
Os tesouros de Behistun
Os vestígios do sítio de Behistun remontam à pré-história e se estendem além dos períodos medas, aquemênidas, sassânidas e ilkhanidas. Mais
Esculpido em uma falésia praticamente inacessível, a uma centena de metros de altura, o baixo-relevo mostra o rei de pé; e seu perfil está voltado para a direita. Ele veste o traje persa, os sapatos reais, a pulseira e a coroa, além de segurar um arco com a mão esquerda, símbolo de sua soberania; a mão direita, por sua vez, está levantada no nível do rosto. Com o pé esquerdo, ele esmaga o torso de um homem deitado de costas à sua frente; segundo a lenda, tratar-se-ia simplesmente de Gaumata, o mago pretendente ao trono, cujo assassinato permitiu a Dario ter acesso ao poder.
Vestido, também, à moda persa, Gaumata levanta os braços em sinal de submissão. À direita, os chefes rebeldes avançam em direção ao rei: além de terem as mãos atadas atrás das costas, eles estão acorrentados por uma corda à volta do pescoço de cada um. Acima e em torno do baixo-relevo, umas 1.200 linhas com caracteres cuneiformes relatam a história das batalhas travadas por Dario, em 521-520 a.C., contra os governadores que tentavam dividir o império de Ciro; segundo parece, a batalha decisiva teria ocorrido neste local.
A chave da escrita cuneiforme
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 © Babak Sedighi
Inscrição trilíngue de Behistun: chave da escrita cuneiforme.
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A inscrição de Behistun desempenhou um papel determinante no estudo das línguas antigas. O texto, repetido em três idiomas – elamita, babilônio e persa antigo – é o único documento aquemênida conhecido que aborda a fundação do novo Império por Dario 1º. A última parte da inscrição é particularmente importante por incluir, pela primeira vez, a versão das façanhas de Dario em persa antigo: ele havia ordenado que a narrativa fosse redigida em escrita cuneiforme, especialmente para esta inscrição. Com efeito, tal transcrição pode ser encontrada em outros monumentos régios, por exemplo, em Persépolis ou em Susa. Os caracteres utilizados são mesopotâmicos, mas de acordo com um uso, simultaneamente, alfabético e silábico, de modo que cada palavra está separada por um símbolo distinto.
Verdadeira “Pedra de Roseta”, a inscrição trilíngue de Behistun forneceu a chave da escrita cuneiforme. Depois dos primeiros esforços de decifração do persa antigo pelo alemão, Georg Friedrich Grotefend, em 1802, foi um inglês, Sir Henry Creswicke Rawlinson, quem efetuou a primeira cópia da inscrição; e, em 1835, após vários anos de trabalho obstinado, ele conseguiu desvendar completamente os códigos dessa escrita.
Behistun é um testemunho excepcional das influências mútuas que marcaram o desenvolvimento da arte monumental e da escrita, nesta região do Império Persa. A representação simbólica de Dario, diante de seu inimigo, inspira-se em outros baixos-relevos do Antigo Egito e do Antigo Próximo Oriente; essa tradição teve continuidade sob os aquemênidas e nos impérios seguintes.
Os desafios da conservação
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 © Babak Sedighi
Esculpido diretamente na rocha, o monumento é ameaçado pela erosão.
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Convencido do valor universal ímpar desse documento, um dos mais notáveis da história humana, o Comitê do Patrimônio Mundial decidiu inscrever o sítio na Lista do Patrimônio Mundial, em 2006; mas, Behistun está sendo alvo de várias ameaças.
A primeira resulta da urbanização: Behistun encontra-se à beira de uma planície agrícola que conta com várias aldeias dispersas; entretanto, nesse local, foi implantada uma usina petroquímica de certa importância. Apesar de não ter sido detectado qualquer impacto químico sobre a inscrição, o impacto visual é realmente preocupante. Além disso, Behistun situa-se em zona sísmica, como é testemunhado pelas profundas fissuras que atravessam toda a obra rupestre. Com a infiltração de águas pluviais, acentua-se o fenômeno natural da erosão que, independentemente de sua origem física, química ou biológica, é inevitável por tratar-se de um monumento talhado diretamente na rocha.
A fim de atenuar, o mais rapidamente possível, os danos provocados pela erosão, a UNESCO mobilizou os recursos necessários para constituir uma missão de perícia internacional, confiada no final de 2008 ao professor Costantino Meucci, especialista da conservação da pedra. Por seu intermédio, acaba de ser lançado um plano de urgência: em uma primeira etapa, serão construídos andaimes, assim como um sistema de evacuação das águas infiltradas; em seguida, será empreendido um estudo mais aprofundado para sua conservação a longo prazo.
Desde já, as autoridades iranianas estão empenhadas em acionar essas medidas de urgência. A seção local da Organização Iraniana do Patrimônio Cultural, do Artesanato e do Turismo (ICHHTO) pretende propor, igualmente, uma ampliação considerável do perímetro protegido. No entanto, esses trabalhos exigem uma gestão rigorosa e qualquer intervenção futura deverá estar respaldada em um plano de conservação a longo prazo. Recursos em tecnologia à altura desse conjunto inestimável deverão ser mobilizados a nível nacional e internacional. Behistun e sua inscrição aguardam, portanto, uma efetiva participação em escala planetária.
Junko Taniguchi, Representação da Unesco em Teerã (Irã), e Farzin Fardanesh, consultor da UNESCO.
Junko Taniguchi, Representação da UNESCO em Teerã (Irã), e Farzin Fardanesh, consultor da UNESCO.