ISSN 1993-8616

2008 - número 10


Conflitos congelados





© UNESCO/Danica Bijeljac
Martti Ahtisaari na UNESCO, em 2 de outubro de 2008.

Artesão da paz da Namíbia, nos Bálcãs, na Indonésia e na Irlanda do Norte, Martti Ahtisaari, Prêmio Nobel da Paz de 2008, estima que o número de conflitos esteja diminuindo no mundo, mas denuncia a tendência geral de se considerar natural que certos conflitos sejam congelados para sempre.


Vadim Ardatovsky: o desafio da paz
Correio, 1967
(PDF - 115,4 KB)

No dia 2 de outubro, Martti Ahtisaari, presidente da Finlândia de 1994 a 2000, recebeu o Prêmio Felix Houphouët-Boigny pela pesquisa pela paz, concedido pela UNESCO. Oito dias depois, o Comitê de Oslo anunciou sua decisão de conceder a ele o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços em vários continentes e por seu envolvimento durante mais de três décadas na resolução de conflitos internacionais.

Martti Ahtisaari responde às perguntas de Roni Amelan (UNESCO).

Entre as suas experiências de negociação, qual foi a mais satisfatória e qual se revelou mais árdua, mais desafiadora e mais frustrante?

Não sou do tipo de pessoa que se frustra facilmente, do contrário não estaria envolvido nesse exercício. Além do que, tenho tido sorte em encontrar soluções. De uma certa forma, na Namíbia, isso levou tempo demais: tornei-me Representante Especial das Nações Unidas em 1977 e o conflito durou até 1989, quando conseguimos começar nossas operações. Houve momentos em que considerei partir, mas ainda bem que fiquei, pois valeu muito a pena no final. Talvez a Namíbia seja uma exceção, talvez porque a Finlândia tenha um vínculo especial com o país em função dos missionários que trabalharam há cem anos por lá. Isso foi muito útil, pois as igrejas da Namíbia desempenharam um papel especial no processo de paz. Além disso, pessoalmente, como secretário-geral da Associação Estudantil Finlandesa, eu recebi os primeiros estudantes da Namíbia que vieram à Finlândia no início da década de 60. O meu envolvimento pessoal, portanto, começou muito antes de me tornar comissário das Nações Unidas para a Namíbia.

Olhando-se para o contexto mais amplo, você considera que a paz mundial esteja progredindo ou regredindo?



© UNICEF/Mohammed Jadallah
Criança em frente a edifícios destruídos pelo conflito no Oriente Médio (Beit Hanoun, norte de Gaza).

O número de conflitos está diminuindo, mas temos muitos conflitos congelados, o mais importante deles no Oriente Médio. Ele realmente precisa ser resolvido e todos sabem qual é a base sobre a qual isso deve acontecer. Esse conflito perturba a atmosfera internacional e enquanto não for resolvido não seremos capazes de solucionar conflitos no Afeganistão, Iraque e Irã.

As Nações Unidas têm tido sucesso em servir os interesses da paz?

Certamente, sim. Temos tido tempo para melhorar as preparações para a mediação e a negociação de conflitos e muitas operações de paz também ajudam o nosso trabalho. As Nações Unidas estão melhorando sua capacidade por meio do estabelecimento de novas unidades e de novos mecanismos de resolução de conflitos.

No entanto, em todos os discursos que faço, denuncio a atitude que as pessoas adotam como se fosse normal que os conflitos se congelem. Penso que temos que exigir que os países que têm maior influência em qualquer conflito e cuja cooperação é vital estejam preparados para usar essa influência sobre os países envolvidos para resolver esses conflitos congelados. Não consigo aceitar que nada seja feito para convencer esses países a usar sua influência.

Temos que mostrar que levamos a sério os direitos humanos. Estes são prejudicados de uma maneira ou de outra em cada conflito e as Nações Unidas devem ser vistas como uma organização séria no que diz respeito a eles.

Em geral, eu diria que, para além dos direitos humanos, temos que fazer avançar o domínio da lei no mundo como um todo. Na ausência do domínio da lei não pode haver respeito pelos direitos humanos.

E quanto ao mandato da UNESCO de criar solidariedade entre os povos na educação, ciência, cultura e comunicação? Isso tem feito alguma diferença na construção da paz nas mentes dos homens, para usar a frase utilizada na constituição da UNESCO?



© UNESCO
Crianças namíbias. A Namíbia foi um dos destinos mais difíceis e mais gratificantes de Martti Ahtsaari.

Eu me envolvi com a UNESCO pela primeira vez quando trabalhei com os movimentos de libertação, especialmente a SWAPO (Organização dos Povos Africanos do Sudoeste, Namíbia), e com os recursos educacionais que a UNESCO ofereceu, extremamente úteis. Não acho que o trabalho de organizações como a UNESCO vá acabar. Tenho esperança que esse trabalho seja mantido. Também tenho esperança de que organizações como a UNESCO ajudem países que emergem de conflitos a olhar para o seu passado. O único país que fez isso na Europa foi a Alemanha. Ninguém mais fez isso. É possível notar que alguns problemas que nos perseguem, na Europa, estão diretamente relacionados ao fato de que não examinamos nosso passado adequadamente.

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