ISSN 1993-8616

2008 - número 10


O racismo é um mutante





© Ivan de Monbrison
Desenho, tinta da China. Galeria Art’Est (Paris).

A xenofobia e o racismo são construções intelectuais que firmaram raiz na mente humana ao longo dos séculos. Medidas legais têm se mostrado inadequadas, uma vez que apenas tocam o topo do iceberg. Necessita-se de uma estratégia intelectual para alcançar a profundeza histórica e cultural dessas pragas e para eliminá-las das mentes dos homens.



“É ainda fértil o útero do qual veio a besta”, escreveu o dramaturgo alemão Berthold Brecht, quando a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge. A seriedade dessa frase ainda ressoa hoje. A vitória recente de Barack Obama nas eleições presidenciais dos Estados Unidos é, de fato, um golpe para o racismo e pode ter repercussões significativas. É difícil deixar de se alegrar diante da idéia de que o sonho de Martin Luther King pode ter se tornado realidade. Mas, ao mesmo tempo, como podemos ignorar a violência interétnica que eclodiu no início deste ano no Quênia, país em que nasceu o pai do novo presidente?

John Rex: o racismo mascarado
Correio, 1968
(PDF - 85 KB)

O racismo é um mutante. Antes de conseguirmos combater suas manifestações mais antigas (como o anti-semitismo, o racismo contra negros e contra árabes), já vemos o ódio ressurgir com outra roupagem. Especialmente desde os ataques de 11 de setembro de 2001, tem emergido a noção alarmante de comunidades potencialmente terroristas, mostrando o quão perigosa pode ser uma abordagem que funde fatores como raça, cultura e religião.

O racismo não cai do céu


© CARF/Gregory J. Smith
A imagem distorcida do negro é fruto de um trabalho intelectual de legitimação do comércio negreiro.

Esse tipo de amálgama obscurece a análise ou compreensão do racismo. Houve um tempo em que as idéias racistas eram promovidas por partidos claramente identificados como pertencentes à extrema-direita. Mas, gradualmente, sob o pretexto de se defender a identidade nacional e combater a imigração ilegal e o terrorismo, argumentos inerentemente racistas têm sido adotados nas campanhas eleitorais de partidos democráticos. Alianças dentro de certos governos estão permitindo que partidos nacionalistas e de extrema-direita implementem ideais xenófobos e racistas ao lhes conferirem legitimidade democrática.

O uso do racismo para propósitos eleitorais ou políticos está agora sendo complementado por uma legitimação intelectual ou científica do racismo e da xenofobia, como visto nas declarações de figuras públicas conhecidas, em pesquisas universitárias e em publicações comerciais.

Para usar apenas um exemplo, havia a teoria do choque entre civilizações desenvolvida pelo acadêmico norte-americano Samuel Huntington em meados dos anos 90, de acordo com a qual o Ocidente seria ameaçado pela China e pelo islã. Poucos anos mais tarde, em seu livro Quem somo nós?, Huntington deu mais um passo nessa direção ao supor uma ameaça à identidade americana como resultado da presença dos latino-americanos que vivem nos EUA.

Idéias racistas e xenófobas expressadas por pessoas que gozaram de fama em certo momento da história penetram a política, a religião, a literatura, a educação e os meios de comunicação e acabam firmando raiz nas mentes das pessoas. A imagem distorcida dos muçulmanos não começou no 11 de setembro. Ela é o resultado de um longo processo intelectual que se iniciou com os primeiros encontros entre o Islã e o Cristianismo. A imagem distorcida dos negros é fruto de um processo intelectual que legitimou o tráfico transatlântico de escravos e justificou a venda de seres humanos com base em uma alegada inferioridade, que os demonizava e os reduzia a meros objetos, buscando apoio em teorias e leis. Em outras palavras, o racismo tem profundas raízes culturais e históricas. Ele não caiu simplesmente do céu.

Um silêncio explosivo


© François Lafite
A crise dos subúrbios na França. Paris, gare du Nord, abril de 2006.

Se o choque de civilizações é uma ilusão, o multiculturalismo é uma realidade. Tomemos o exemplo da nova Europa. As identidades nacionais que foram legitimamente herdadas pelos Estados-nação têm que conviver diariamente com as identidades de outras comunidades étnicas, culturais e religiosas. Aquelas se sentem ameaçadas; estas, frustradas.

Essa frustração não advém apenas da marginalização política, econômica e social das pessoas às quais pedimos para se despirem de suas identidades, para entulharem suas memórias e adotarem, como na França, a fantasia da República, o símbolo de sua nova identidade. As raízes dessa frustração têm origens históricas profundas. Mas o debate público sobre a presença dessas comunidades em solo europeu quase não existe. O colonialismo e o tráfico de escravos são capítulos da história que foram suprimidos ou desconsiderados. Afinal de contas, tivemos que esperar até a Conferência Internacional sobre o Racismo em Durban (África do Sul), em 2001, para que o tráfico transatlântico de escravos fosse finalmente reconhecido como um crime contra a humanidade. A distorção ou a ignorância de certas realidades históricas, ao impedirem que elas façam parte da memória nacional, podem apenas levar a chamas, como aquelas que emergiram nos subúrbios franceses, há dois anos.

Podemos nos perguntar se, no processo de unificação, a Europa não desconsiderou um problema fundamental: a criação de uma nova identidade. Em outras palavras, o multiculturalismo que a define hoje. Olhando-se para certas políticas de imigração, podemos nos perguntar se a Europa tem até mesmo a consciência de que os imigrantes são também membros da humanidade e que o multiculturalismo é mutuamente enriquecedor. Os estrangeiros que vêm viver na Europa têm de se adaptar às regras sociais do país que lhes recebe. Não é isso que está sendo questionado. Mas eles também devem ser capazes de plantar algumas bonitas flores no jardim da Europa.

O multiculturalismo no centro do combate

O multiculturalismo está no centro das manifestações contemporâneas de racismo e xenofobia e é em torno do multiculturalismo que a luta contra o racismo deve tomar forma.

Casos de violência entre grupos étnicos e religiosos estão se espalhando rapidamente e podem ser observados ao redor do mundo, demonstrando que uma estratégia puramente legislativa não é suficiente. É essencial que se continue a aprovar leis e que se estabeleçam regulamentos e outros textos nacionais e internacionais que condenem o racismo, a discriminação e a xenofobia, mas isso atinge apenas a ponta do iceberg. O que torna o útero fértil, nas palavras de Brecht, são as fontes mais profundas de racismo, as quais não podem ser influenciadas apenas pelas legislações.

É essencial que se tenha uma estratégia intelectual e ética. Sem isso, não seremos capazes de abalar a mentalidade racista. Isso significa ir até a base histórica e cultural do racismo; unir-nos contra a fecundidade dos argumentos racistas, contra seu uso por políticos e sua banalização pela mídia. Isso significa reconhecer a realidade da diversidade cultural, étnica e religiosa como a base para o diálogo entre civilizações, nos âmbitos nacional e internacional. Em uma palavra: aprender a viver juntos.

A fim de acabarmos com a ideologia racista, é necessário desenvolvermos uma arqueologia das causas profundas do racismo. A ideologia anti-racista deve seguir a mesma trajetória que o racismo tem utilizado para se insinuar (a política, a religião, a literatura, a educação e a mídia) para conseguir se firmar nas mentes de homens e mulheres.

Doudou Diène, ex-diretor da Divisão de Diálogo Intercultural da UNESCO e relator especial das Nações Unidas sobre as formas contemporâneas de racismo, de 2002 a 2008.

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