2008 - número 10
Aids: construindo imunidades

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 © UNESCO/Michel Ravassard
Logo após o anúncio do Prêmio Nobel de Medicina, Luc Montagnier deu uma entrevista coletiva na UNESCO, em 8 de outubro de 2008.
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Nos últimos dez anos, Luc Montagnier, Prêmio Nobel de Medicina em 2008, tem insistido que os esforços para controlar a epidemia de AIDS devem envolver uma combinação entre prevenção e vacinas terapêuticas. Primeiramente, sua demanda por uma vacina não foi ouvida. Hoje, porém, ele tem a esperança de que logo uma vacina terapêutica permita que um corpo infectado com HIV construa sua própria defesa.
John R. Vane: para vencer a Aids, a cooperação é a única arma
Correio, 1988
(PDF - 17,53 Mo)
Luc Montagnier foi entrevistado por Jasmina Šopova.
A Fundação Mundial para Pesquisa e Prevenção da AIDS, que você estabeleceu sob a égide da UNESCO, já tem 15 anos de idade. Quais são os objetivos da Fundação e que resultados ela tem produzido?
A Fundação objetiva promover a pesquisa e a prevenção da AIDS especialmente nos países em desenvolvimento, que são os mais afetados pela doença. Ela cria centros pilotos nesses países para desenvolver uma estratégia tripla, combinando prevenção, educação e pesquisa.
Em 1996, criamos um centro de pesquisa na Costa do Marfim com, é claro, o consentimento e o auxílio do governo nacional. Desde então, recebemos o apoio de todos os sucessivos governos do país. O Centro está na capital, Abdijan, mas há filiais em outras cidades.
Começamos com o estabelecimento de um laboratório dedicado a isolar o vírus. Hoje, o Centro tem um novo edifício para a diagnose e o tratamento de pacientes. Também tem uma sala de aula para treinamentos e atividades de prevenção. Aqui, treinamos formadores para conscientizar a população local sobre a prevenção da AIDS no trabalho. Por exemplo, grande parte dos que, principalmente na África, são chamados de “uniformizados” – militares, policiais, bombeiros, agentes de alfândega, guardas florestais e outros – tem enviado delegações para treinamento em nosso Centro.
Você recentemente abriu um centro também em Camarões. Mas, de acordo com a UNAIDS, é no sul da África que a epidemia tem alcançado proporções desastrosas.
Embora os números para o oeste da África sejam menos alarmantes que os números para o sul da África, eles são ainda muito mais altos do que qualquer coisa que temos visto para os países industrializados. A atual taxa de infecção na Costa do Marfim é de cerca de 5,7%. Não é uma taxa que se possa negligenciar.
Analisamos a possibilidade de abrir um centro na África do Sul há alguns anos. Mas naquela época as autoridades do país não estavam convencidas de que o vírus causava AIDS e por isso não ofereceram apoio. No Congo, Gabão e Tanzânia, os chefes de Estado estavam interessados, mas enfrentamos o problema do financiamento.
Deve-se destacar que a Fundação só pode agir se os Estados a apoiarem, provendo terra e financiamento. O Centro em Camarões é financiado pelo governo e pela ajuda externa de países desenvolvidos como a Itália. Devo também dizer que o governo de Camarões está fazendo grandes esforços em relação à educação dos jovens. Eu fiquei surpreso ao visitar escolas nas quais crianças entre 8 e 10 anos sabiam sobre a AIDS.
O Centro de Abdijan opera parcialmente com seus próprios recursos e um grande número de pacientes o utiliza. Aqueles que têm recursos pagam, claro. Os que não podem, não pagam. O tratamento é geralmente provido gratuitamente graças a uma política do governo e à ajuda do Fundo Global de Luta contra a AIDS, Tuberculose e Malária.
Você já encontrou obstáculos culturais?
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 © Adam Cohn
Algumas práticas, como a escarificação, facilitam a transmissão do HIV.
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Luc Montagnier fala (vídeo)
A África tem seus problemas específicos. Portanto, é extremamente importante levar em conta o contexto cultural. Certas práticas locais facilitam a transmissão do vírus, tais como os rituais para marcar recém-nascidos ou partos sem instrumentos esterilizados.
Freqüentemente, as mulheres chegam à maternidade com boa saúde e saem de lá portadoras do HIV devido à reutilização de equipamento médico não esterilizado. A principal razão é a falta de recursos, mas há também a falta de informação. Os filhos das mães que trabalham às vezes são infectados pelo leite das mães de leite que cuidam deles.
Ao mesmo tempo, muitas pessoas não querem fazer o teste do HIV por medo de serem estigmatizados. Nosso papel é de convencê-los a fazer o teste de modo que eles possam ser tratados. Mas quando estão em tratamento, alguns abandonam a terapia por razões financeiras assim que começam a se sentir melhor. O resultado é que eles acabam ficando doentes novamente.
Você trabalha com curandeiros tradicionais?
Poderíamos certamente trabalhar com curandeiros tradicionais. Mas não é fácil regular seus produtos, uma vez que a composição destes é um segredo transmitido de geração para geração. E como não podem ser patenteados, esses produtos não interessam à indústria farmacêutica.
No nosso Centro de Abdijan testamos um produto do Japão baseado em extrato de mamão fermentado. Os japoneses mantêm o segredo de como ele é feito, mas esse é um exemplo de um produto bem definido de acordo com critérios farmacêuticos e que tem sido objeto de experimentos clínicos controlados. Cada lote é idêntico, o que é não é sempre o caso com os extratos de plantas.
Testes demonstraram que esse produto não substitui a terapia tripla, claro, mas ele intensifica os efeitos benéficos dela no sistema imunológico dos pacientes. Iniciamos um segundo teste clínico e estamos à espera de seus resultados.
Também estamos testando outros imuno-estimulantes. Se a vacina terapêutica na qual estamos trabalhando tiver sucesso, o sistema imunológico do paciente tem que ser reconstruído. A terapia tripla, em si mesma, não é suficiente.
Você considera que a AIDS será erradicada por meio de uma vacina terapêutica. Você já falou sobre isso na revista Sources da UNESCO. Qual é a condição da pesquisa, hoje?
O conceito já leva dez anos. No começo, a idéia de uma vacina terapêutica não foi bem recebida pelos órgãos financiadores franceses e internacionais. A idéia não chamava a atenção porque havia esperanças de uma vacina preventiva e se pensava que uma cura seria encontrada.
Muita coisa mudou desde então. Agora, sabemos que a terapia tripla não é uma cura e que o tratamento ao longo da vida provoca efeitos tóxicos, levando a outras doenças que também são fatais.
Hoje, o projeto de uma vacina terapêutica amadureceu em uma condição melhor, pois receberá financiamento privado.
Você acha que o Prêmio Nobel te ajudará a encontrar outras fontes de financiamento?
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 © Wilfried Maisy
Um casal com seu bebê. Os três membros da família são soropositivos (China).
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Eu espero que sim.
Quais são as vantagens de uma vacina terapêutica?
A natureza nos dá exemplos de pessoas que são HIV-positivo, mas que não estão doentes com a AIDS. Estamos buscando uma vacina terapêutica que aumente a imunidade de alguém que foi infectado, permitindo que seu corpo se defenda. Conseqüentemente, alguém infectado com o vírus será capaz de viver com o HIV sem desenvolver a doença.
Deve-se lembrar que o tratamento para uma pessoa custa US$ 12.000,00 por ano e pode durar de 20 a 30 anos. Uma vacina, por outro lado, requer apenas três injeções: duas doses sucessivas e um reforço mais tarde. É padrão. Independentemente de quanto custe, será de 20 a 50 vezes mais barata que a terapia tripla.
Quando veremos uma cura para a AIDS?
Curar as pessoas e se livrar da epidemia são duas coisas diferentes. A cura é de fato nosso objetivo imediato e isso terá efeitos significativos sobre a epidemia. Quando as pessoas souberem que podem ser curadas, elas ficarão mais dispostas a serem testadas; as que forem curadas não transmitirão mais o vírus e assim por diante.
Mas não podemos esperar encontrar uma cura milagrosamente do dia para a noite. Não podemos contar com uma vacina preventiva no futuro imediato. Pessoalmente, eu não acredito em uma vacina preventiva para a AIDS. Experimentos clínicos têm mostrado que os grupos que foram vacinados têm maior probabilidade de serem infectados do que os que não foram porque acreditam que estão protegidos da doença, o que não é verdade.
A AIDS poderia ser erradicada por meio de uma combinação de tratamentos que envolve cura, informação e educação, especialmente para os jovens nas escolas. Mesmo que encontremos uma vacina preventiva, devemos continuar a educar as pessoas para que elas se comportem com responsabilidade para evitar que o HIV se espalhe.
Luc Montagnier acaba de publicar
As batalhas da vida (Edições JC Lattès).
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