ISSN 1993-8616

2008 – número 10


A dignidade humana em questão






© Julien Lanthier
Células estaminais. Os avanços científicos mudam os termos dos dilemas éticos.

O progresso científico pode pegar o pensamento ético de surpresa. Foi o caso da clonagem da ovelha Dolly, em 1997, e é o que ocorre com os cíbridos e a nanotecnologia, hoje. O filósofo e antropólogo Georges Kutukdjian, autor do artigo "UNESCO e bioética", publicado em nossa revista em 1994, analisa os últimos desafios da bioética.



UNESCO e bioética
Correio, 1994
(PDF - 17,29 Mo)

No momento em que a pesquisa científica está cada vez mais internacional, a legislação nacional e as práticas biomédicas divergem e criam uma aparente desordem que esconde a questão principal: o tratamento da vida como mercadoria.

“O corpo humano e suas partes não deverão levar a ganhos financeiros,” estipula a Convenção de 1997 sobre Direitos Humanos e Biomedicina (Conselho Europeu). Devido ao princípio da não-comercialização do corpo humano, suas partes (órgãos e tecidos) e produtos (gametas, células, etc.), foram excluídos de ganhos comerciais. Mas vários países reconsideram suas posições. A França, por exemplo, está pensando em autorizar a barriga de aluguel e em relaxar a legislação sobre a remuneração de doadores de órgãos, tecidos ou óvulos e, ao mesmo tempo, regular as práticas rigidamente. A Holanda e o Reino Unido permitem a gestação livre através da barriga de aluguel em certas condições. O Parlamento Britânico estuda a possibilidade de permitir que agências especializadas recebam pagamento por certos serviços. Mesmo que a barriga de aluguel seja ilegal na Espanha, casais espanhóis muitas vezes usam mulheres da América Latina na gestação se seus filhos.

Hoje, o princípio da não-comercialização do corpo humano está sendo testado pelas práticas e legislações diferentes em partes distintas do mundo referentes a transplantes de órgãos e tecidos, remoção de gametas para doação e “locação de úteros”. A tarifa atual para o último está entre US$ 60 mil e US$ 100 mil em Estados onde a barriga de aluguel é permitida.

Enquanto isso, o debate ético sobre a criação de embriões está sendo reativado com embriões quiméricos ou cíbridos. O procedimento, derivado da clonagem, consiste na extração do núcleo de uma célula humana não-reprodutiva, introduzindo-o em um óvulo de um coelho ou vaca. Após um debate de dois anos, o Parlamento Britânico autorizou recentemente a pesquisa com embriões cíbridos, enquanto a fertilização dos óvulos animais por sêmen humano ou vice-versa continua ilegal. A lei, de 13 de junho de 2008, requer sua destruição após no máximo 14 dias de sua criação e não permite a implantação em um útero humano ou animal.

Sem dúvida, a pesquisa com embriões cíbridos aprofundará nosso entendimento sobre o comportamento de células de embriões durante os seus primeiros 14 dias, como também os mecanismos de desenvolvimento de doenças graves durante essas primeiras etapas da vida. Também substituirá a remoção de óvulos humanos, alvo de debate ético, pela remoção de óvulos animais. Mesmo assim, vários órgãos científicos e éticos no Reino Unido acreditam que esses embriões cíbridos devem ser considerados embriões humanos caso seu DNA contenha material genético humano.

Esse último desenvolvimento mexeu com dois entendimentos básicos e implícitos aceitos pela comunidade internacional há 30 anos: a não criação de quimeras humano-animais e a não implantação de um embrião humano no útero de um animal e vice-versa.

Nanotecnologias: evitando o mau uso


© Minco
As aplicações da nanotecnologia se estendem a diferentes áreas da vida humana.

Outra área científica que está dando muito que falar aos defensores da ética são as nanotecnologias. Implantes eletrônicos miniaturas são cada vez mais usados para propósitos médicos e outras aplicações. Conjuntamente com o seu potencial para o diagnóstico, também estão sendo usadas em testes clínicos para estudar os efeitos de novos medicamentos sobre o sistema nervoso. Tratamentos também estão sendo aperfeiçoados para reestabelecer a comunicação com áreas danificadas do sistema nervoso e destruir tumores cancerígenos.

Podemos esperar um boom considerável no uso desses implantes, já que o progresso em neurociências nos permite entender como influenciar o comportamento, como melhorar a memória, suprimir o desejo presente na dependência de drogas e álcool, etc.

As aplicações já se estendem ao tratamento de água e à conservação e conversão de energia. Mas, nesse atual momento, existe pouco conhecimento confiável sobre os riscos de nanopartículas para o meio-ambiente ou saúde humana.

Ainda mais, implantes que usam tecnologias da comunicação e informação (TCIs) podem ser usados para controle individual, social e para reunir, armazenar ou transferir dados pessoais.

As nanotecnologias chegaram a uma encruzilhada. Poucos Estados possuem legislação sobre o seu uso, ou pelo menos, a legislação vigente não aborda a questão da manipulação de indivíduos através da interferência com os implantes de TCI, e muito menos, o uso dos dados pessoais que elas possam fornecer.

Lições para o futuro


© Jérôme Liégeois
11 mil pessoas aguardam por um transplante na França.

A bioética foi construída sob o respeito pela dignidade humana e a proteção dos direitos humanos e liberdades básicas. Um exame de perto da bioética, porém, revela que os seus paradigmas e análises são revisados periodicamente devido ao constante progresso atingido nas ciências da vida e médicas e os desenvolvimentos resultantes da sua aplicação. No entanto, essa abordagem, longe de deixar a bioética mais vulnerável, a firma na realidade científica contemporânea.

Durante os últimos 20 anos, o pensamento ético, em sua maior parte, lidou com questões que propiciaram muita esperança, prevendo o seu domínio técnico. Isso foi o caso com o xenotransplante, isto é, o transplante de órgãos de animais geneticamente modificados para torná-los compatíveis com recipientes humanos. Entre 1993 e 2002, as reflexões éticas sobre essas questões ocuparam vários grupos de trabalhos interdisciplinares, universidades e órgãos de ética. Um resultado foi a elaboração de uma Recomendação sobre o xenotransplante para o Conselho Europeu, em junho de 2003. O interesse nessa prática, que responderia à falta de órgãos humanos disponíveis para transplantes, diminuiu gradativamente devido à multiplicação dos obstáculos. Essas dificuldades eram científicas, como também culturais e religiosas, devido à reticência ou mesmo repugnância em relação ao uso dos órgãos de alguns animais, especialmente porcos. Essa reflexão ética pode ter facilitado a aceitação social da criação dos híbridos humano-animais mencionados acima.

Avanços científicos estão mudando os termos de um dilema ético. Por exemplo, a pesquisa em embriologia e o congelamento a longo prazo de sêmen em nitrogênio líquido nos propiciou a fertilização in vitro de mulheres com o sêmen de seus falecidos maridos. Mesmo há 15 anos, essa possibilidade levou mulheres a reclamarem esse direito nos tribunais. Juízes em alguns estados americanos foram favoráveis a essas demandas, enquanto, na França, as mesmas demandas foram rejeitadas.
O progresso científico também pode surpreender especialistas em ética, pois abre possibilidades imagináveis. O exemplo recente mais surpreendente foi a clonagem da ovelha Dolly, anunciada em 24 de fevereiro de 1997. Foi como um raio, aparecendo em todas as manchetes do mundo, da Suécia ao Brasil, dos Emirados Árabes à Indonésia. Esse grande avanço também liberou vários tipos de fantasias e especulação. Ambas as comunidades científicas e políticas responderam rapidamente e a conseqüência é que, hoje, a comunidade internacional tem uma série de salvaguardas referentes a essa prática: a Declaração Universal sobre o Genoma Humano e dos Direitos Humanos (UNESCO, 1997, e ONU, 1998), o Protocolo Adicional à Convenção Européia que Proíbe a Clonagem de Seres Humanos (1998), e a Declaração das Nações Unidas sobre a Clonagem Humana (2005).

Essas ondas de choque científicas e suas aplicações tecnológicas trazem um número de benefícios, mexendo com as nossas certezas e também com nossas incertezas. No entanto, precisamos cuidar para que o conceito de “dignidade humana”, um marco da intangibilidade e inalienação dos direitos humanos, não seja fraturado.

Georges Kutukdjian, filósofo e antropólogo, ex-diretor da Divisão de Ética nas Ciências e Tecnologia (UNESCO)

Leia também Os desafios éticos da tecnociência (Correio da UNESCO, maio de 2002, p. 58/em francês)

Mais informações sobre xenotransplante (Conseil de l'Europe, 2003) e nanoética (em inglês)

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