2008 - número 10
Wangari Maathai: esperanças e decepções

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© Frederick Onyango
Wangari Maathai com Barack Obama, novo presidente dos Estados Unidos, em Nairobi, Quênia (2006).
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Orgulhosa do progresso feito pela África, mas cética quanto a seus governos, Wangari Maathai, queniana e Prêmio Nobel da Paz em 2004, acredita que os líderes africanos são em grande parte responsáveis pelas mazelas que afetam o continente. Em vez de reclamar, eles deveriam controlar melhor a exploração dos recursos e das populações africanas.
Em dezembro de 1999, a ativista ambiental e fundadora do Green Belt Movement (Movimento do Cinturão Verde) concedeu uma entrevista ao nosso correspondente do Correio da UNESCO, Ethirajan Anbarasan, da Índia. Três anos mais tarde, ela começou sua carreira política no governo do Quênia. Cinco anos depois, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. E agora, nove anos mais tarde, concede nova entrevista ao mesmo jornalista - hoje, repórter da BBC, em Londres.
Wangari Muta Maathai: militante verde do Quênia
O Correio, 1999 (PDF 34,8 KB)
As nações industrializadas alocaram mais de um trilhão de dólares para evitar uma crise financeira global. Alguns líderes africanos dizem que uma fração apenas daquela quantia, menos de 2%, teria resolvido a maioria dos problemas africanos. Qual é a sua reação diante de tal comentário?
É fácil para a liderança africana reclamar que o resto do mundo não cuida dos problemas da África. Com todo respeito, eu acho que a liderança africana é em grande parte responsável pelas atuais mazelas do continente. Foram eles que permitiram que seus recursos e seu povo fossem explorados. É interessante ver que os governos dos países industrializados ocidentais estão tentando salvar seus bancos e suas instituições financeiras. Mas eu não consigo entender o fato de que muitos desses bancos não eram regulados. Portanto, isso mostra que se os negócios não são regulados, é possível que a ambição e o egoísmo entrem em cena. É isso que vemos em muitos países em desenvolvimento nos quais bancos e empresas estrangeiras entram e exploram os recursos locais, sem compartilharem os lucros equitativamente e sem se preocuparem com o meio ambiente. Por que não os regulamos? Por que não os controlamos? É de responsabilidade da liderança africana proteger seu povo contra a exploração. O continente africano tem muitos recursos e riqueza, mas a liderança africana não tem investido adequadamente no nosso povo e não os tem protegido da exploração.
Você serviu como vice-ministra do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais no nono parlamento do Quênia. Você ficou satisfeita com sua contribuição?
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 © Wanjira Mathai
Wangari Maathai fundou o Movimento Cinturão Verde, maior projeto de reflorestamento da África, em 1977.
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Bom, fico muito contente em poder ter feito parte de um movimento pró-democracia que no fim das contas trouxe um governo mais responsável para o nosso país. Fomos escolhidos com tanta esperança pelo nosso povo. O povo queniano tinha esperança de que pudéssemos acabar com a corrupção, praticar a boa governança e estabelecer instituições que protegessem o povo, que protegessem os camponeses dos intermediários. Mas acho que nosso governo acabou sendo sugado para a corrupção e a má administração pelos nossos próprios ministros. Nós falhamos em honrar as promessas que fizemos uns para os outros e falhamos em honrar as promessas que fizemos ao povo, como a criação de uma nova constituição e o compartilhamento do poder. Acabamos do jeito que você viu em janeiro deste ano (durante a violência pós-eleições), quando perdemos muita gente. Estou satisfeita com o progresso, mas ao mesmo tempo é decepcionante ver o quão rapidamente os políticos podem se tornar egoístas e esquecer seu compromisso com o povo.
Em uma entrevista ao Correio da UNESCO há cerca de nove anos, você expressou preocupação com a falta de atenção global quanto às questões ambientais. Você acha que a conscientização sobre as questões ambientais e o aquecimento global tem melhorado?
Não tenho dúvida disso. Tem havido um grande progresso nos últimos dez anos. As pessoas estão se dando conta de que o meio ambiente é de fato uma fonte de conflito especialmente em áreas como o compartilhamento de recursos hídricos e da terra. Agora, com o problema da mudança climática, estamos nos dando conta de que o clima é central para que vivamos em paz uns com os outros. Sim, tem havido grande conscientização, mas há ainda muito que precisa ser feito. Por exemplo, com relação a problemas relacionados ao fim das emissões de gases que provocam o efeito estufa.
Você está satisfeita com as promessas feitas pelas nações industrializadas quanto aos cortes nas emissões de gás carbônico?
Sim, eu acho que é encorajador ver que os países industrializados, que tem sido os principais responsáveis pelas emissões de gases causadores do efeito estufa, estejam agora trabalhando conjuntamente e dispostos a agir e a encorajar o resto do mundo a fazer o mesmo. Eu estou particularmente satisfeita com o fato de que eles estejam falando sobre a necessidade de preservar as florestas do mundo. Eu sinceramente espero que eles ajudem aqueles governos que têm uma grande extensão de florestas para manter, como as florestas da Amazônia, no Brasil, as florestas no Congo e do sudeste asiático. Eu espero que eles incluam a preservação das florestas em sua agenda ambiental.
Ganhar o Prêmio Nobel da Paz encorajou você a ser ainda mais atuante?

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 © Yves Herman
Cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz, 2004.
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O Prêmio Nobel realmente trouxe muita atenção para o trabalho que fazemos para a promoção da consciência ambiental, dos direitos humanos e da boa governança na África. Eu tenho sido convidada por um grande número de pessoas que querem compartilhar essa mensagem e que eu conheça seu trabalho. Portanto, eu tenho viajado ao redor do mundo para falar sobre a necessidade de cuidarmos do meio ambiente e sobre boa governança. Não temos conseguido alcançar a paz e não temos conseguido alcançar a boa gestão de nossos recursos naturais. Por isso, temos tido pobreza massiva e muitos conflitos. Durante minhas viagens por todo o mundo, tenho tentado explicar o vínculo entre a paz e o cuidado com o meio ambiente.
Como você vê o papel da mulher na vida política da África? A mulher está finalmente emergindo em um território dominado pelos homens?
Tem havido grandes progressos. Há uma campanha sustentada pelas mulheres para conscientizar as pessoas sobre a necessidade de que elas tenham oportunidades que vão além dos papéis tradicionais nas várias profissões. Vemos as mulheres como médicas, como advogadas, como professoras. É claro que ser político, ser parte do governo com a habilidade de servir as pessoas é uma posição importante e simbólica para as mulheres. Não há dúvida de que mulheres como Ellen Johnson-Sirleaf, presidente da Libéria, têm se desempenhado muito bem na África. É muito bom ver uma mulher africana eleita como presidente de um país. É importante reconhecer que estamos agora nos beneficiando dos muitos anos de luta pelas mulheres no continente. Acho que elas podem oferecer uma governança mais responsável, demonstrando respeito pelos direitos humanos.
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