2008 - número 10
Madagascar: ato de equilíbrio

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 © Anisa Abid
Indri, o maior lêmure do Madagascar: espécie em perigo.
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Madagascar, a quarta maior ilha do mundo, famosa por sua incomum biodiversidade, pode logo ser conhecida como um exemplo moderno da Tragédia dos Bens Comuns. Tanto as pessoas quanto a vida selvagem estão lutando para sobreviver à medida que os recursos naturais se definham. Pouco tempo resta para que a ilha seja salva do desastre ecológico.
Florestas: o grande negócio
Correio, 2000
(N.B. PDF - 32,53 Mo)
Desde que Madagascar completou sua separação do continente há 60 milhões de anos, esse território de tamanho semelhante ao da França tem desenvolvido uma fauna e uma flora únicas. O lêmure, um pequeno primata, é o exemplo mais típico dos níveis incomparáveis de endemismo de Madagascar. Embora haja um grande número de espécies em geral no continente africano, a ilha possui mais espécies e táxons endêmicos. Por exemplo, podem-se encontrar sete das oito árvores baobás em Madagascar e apenas uma no continente. Das 101 espécies terrestres registradas na ilha, quase todas elas são endêmicas. É por isso que Madagascar é considerada um dos mais importantes centros de biodiversidade e está entre os seis líderes da lista dos 18 países de megadiversidade.
Tristemente, grandes números de animais e plantas pouco comuns têm desaparecido da ilha desde a chegada do homem, há apenas 1.500 anos. Um quinto de todas as espécies de lêmures conhecidas já foi extinto. A Lista Vermelha de 2007 da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais cita 355 espécies animais e 281 espécies vegetais que estão em risco de extinção em Madagascar, enquanto muito da biodiversidade do país permanece desconhecida. Novas descobertas continuam sendo feitas, tais como as duas novas espécies de microcebus identificadas no nordeste da região de Makira.
Ameaças Múltiplas
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 © Anisa Abid
O Brookesia minima, pequeno camaleão do Madagascar com no máximo 3 centímetros, integra a Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).
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As espécies correm risco de extinção devido a uma variedade de fatores. A perda de seu habitat devido à destruição das florestas é a principal ameaça para a majestosa águia-peixe de Madagascar, por exemplo. Pressões econômicas (pessoas competindo por comida e outros recursos) estão por trás do problema, como no caso das populações de peixes que estão sendo exauridas em virtude da pesca excessiva. De 1980 a 2005, a quantidade de peixes capturados aumentou enormemente de 53 para 8.500 toneladas. Várias espécies de tartarugas estão criticamente ameaçadas devido ao comércio de animais de estimação exóticos. De acordo com a ONG britânica Durrell, os jabutis Ploughshare caíram para apenas 600 animais remanescentes no mundo. Outros bichos são vítimas de superstições culturais, como o inofensivo e noturno lêmure aie-aie, morto rotineiramente por ser considerado como um portento do demônio.
A mudança climática é uma ameaça adicional que, de acordo com estudos, agiganta-se diante das populações selvagens. Um estudo feito por Dunham, da Biological Conservation, sobre o lêmure Sifaka de Milne Edwards, que se encontra sob risco de extinção, projeta um provável declínio de 50% da população durante suas próximas três gerações e que os efeitos dos ciclos climáticos globais, como o El Niño, podem representar uma ameaça adicional. Identificou-se que a fecundidade dos lêmures foi mais de 65% inferior durante os anos do El Niño. Patricia Wright elabora uma pesquisa semelhante sobre o impacto da mudança climática, tal como um declínio potencial nas espécies devido a alterações na distribuição anual da chuva e nos ecossistemas, o que deixa a ilha vulnerável a mudanças.
Desenvolvendo soluções
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 © Anisa Abid
Das cerca de 130 espécies de camaleão existentes no Madagascar, metade é endêmica.
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Para que Madagascar escape do que os cientistas chamam de a “sexta grande extinção”, a população local deve encontrar a fórmula certa para balancear conservação e crescimento. A população total, estimada em 18 milhões, mas que deve dobrar até 2025, está se voltando para o meio-ambiente para a obtenção de seu sustento e do lucro.
Arrozais estão substituindo as florestas, o que tem levado à extinção de espécies como o pássaro elefante e o hipopótamo-pigmeu. “Se a taxa atual de destruição das florestas continuar, dentro dos próximos 25 anos já não haverá mais floresta na ilha”, afirma Jonah Ratsimbazafy, um especialista em primatas de Madagascar que trabalha com a Durrell Wildlife Conservation Trust. No entanto, desde 2003, quando o presidente de Madagascar, Marc Ravalomanana, prometeu triplicar a superfície de áreas protegidas, a organização Conservation International registrou uma redução na taxa anual de destruição das florestas de 0,8%, nos anos 90, a 0,1%, hoje.
Muitas organizações como a Conservation International, a World Wildlife Fund, a Durrell e a Mitsinjo (uma ONG local estabelecida em Andosibe) têm trabalhado duro para prevenir o desastre com o envolvimento da população local. A Durrell, por exemplo, assinou um acordo no qual os habitantes se comprometem a proteger a floresta em troca da construção de infra-estrutura e de escolas. Enquanto a preservação dos recursos naturais permanece uma prioridade, as ONGs estão cooperando com a população local para melhorar a vida de todos. O eco-turismo gera emprego e, embora tenha seu próprio impacto sobre o meio-ambiente, pode oferecer benefícios econômicos sustentáveis quando adequadamente administrado.
As questões ambientais permanecem como objeto de discordância, o que é um fato levado em consideração pelo governo na tomada de decisões sobre o uso dos recursos naturais. O Parque Nacional de Ranamofana é um exemplo de área protegida que é vista como um triunfo pelos conservacionistas, mas como um desastre econômico, pelos locais. A floresta só é acessível para o ecoturismo, o que é alvo de reclamação dos locais, que não podem usar os recursos naturais do parque. Ao caminhar dentro dele, qualquer um se sente grato por isso ao ver, em seu habitat natural, criaturas elusivas que estão criticamente ameaçadas de extinção, como é o caso do lêmure bambu dourado. No entanto, fora do parque, sente-se muita pena da população que vive em condições extremas de pobreza.
Para que se preserve a cultura e a beleza natural de Madagascar, deve haver um plano de desenvolvimento que leve em consideração tanto os povos quanto a vida selvagem. As pessoas e os lugares selvagens de Madagascar são tão encantadores que perdê-los para sempre seria uma tragédia. Além disso, a crise de biodiversidade da ilha deveria colocar o resto do mundo em alerta para que se mantenha vigilância sobre outros ecossistemas. É nossa sobrevivência coletiva que está em jogo.
Anisa Abid, jornalista americana
Leia também:
Inventoriando a biodiversidade: uma perspectiva africana (Museu Internacional, p.45/em inglês)
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