2008 - número 10
Diversidade cultural e educação: o que mudou nos últimos 60 anos?

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 © Cominique Tilkin Gallois
A tradição dos desenhos geométricos (kusiwa) preservada pelos Wajapi, no Brasil, foi proclamada obra-prima da humanidade pela UNESCO.
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1948: a antropóloga americana Ruth Benedict enfatiza o papel da cultura na educação e na cooperação internacional.
2008: a antropóloga francesa Cécile Duvelle faz um balanço: a idéia penetrou no nosso pensamento, mas ainda luta para ser incorporada à prática.
Em 1948, a antropóloga social americana, Ruth Benedict, publicou o artigo Continuidade Cultural em um Mundo Civilizado em uma das primeiras edições do Correio da UNESCO. Eu o li e tive sentimentos variados a respeito.
Por um lado, foi desconcertante ler uma mensagem tão relevante hoje, 60 anos mais tarde, e perceber que a UNESCO fez um progresso apenas modesto nessa área. Mas eu também senti um certo entusiasmo diante da destreza de seu pensamento e da impressão de que a UNESCO, em sua longa carreira, nunca se desviou de seu objetivo principal.
Última mensagem de Ruth Benedict sobre Continuidade Cultural no Mundo Civilizado Correio, 1948 (74 KB)
A observação de Ruth Benedict parece óbvia: a cultura é um processo de aprendizagem. “Os padrões culturais que homens em todas as sociedades inventam para si e transmitem para as gerações futuras têm, em cada comunidade, um grau considerável de consistência entre si […] e devem ser ensinados novamente a cada geração”, escreveu ela, antes de adicionar o reconhecimento de que as “diferenças culturais [termo que, décadas depois, for substituído por ‘diversidade cultural’] podem promover a cooperação internacional” e não devem ser culpadas pelo “caos do mundo”, como alguns querem nos convencer ainda hoje.
Ela concluiu que “se quisermos aceitar os diferentes ideais e os arranjos sociais alternativos das nações do mundo, aqueles que estão profissionalmente preocupados com a educação infantil têm uma tarefa que se estende muito além dos problemas de revisão curricular. Precisamos da clareza e da tolerância que nos ajudará a apreciar os diferentes tipos de forças com as quais as diferentes nações podem contribuir para o mundo no qual desejamos viver”.
Sessenta anos mais tarde, conseguimos garantir uma educação de qualidade para todos, uma educação que respeite a diversidade cultural e sirva como alavanca para o desenvolvimento sustentável, concebido e promovido pelas próprias pessoas?
A educação como um vetor para a transmissão cultural
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 ©UNESCO/O.Pasquiers
A cultura é transmitida de uma geração a outra por meio da educação.
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Aceita-se amplamente hoje que uma educação de qualidade é, acima de tudo, aquela capaz de responder às necessidades locais. Os especialistas também concordam que o processo de alfabetização tem mais sucesso quando realizado na língua materna.
Mas, em muitos países, especialmente nas antigas colônias, os sistemas de educação formal ainda estão lutando para se tornarem vetores de transmissão cultural a serviço do desenvolvimento social. Semelhantemente, várias ‘falhas de desenvolvimento’ podem ser explicadas pelo fracasso de se levar em consideração a dimensão cultural do desenvolvimento juntamente com seus aspectos econômicos, sociais e ambientais.
Mesmo assim, o potencial crítico e emancipatório, inerente a qualquer processo educacional, permanece inalterado, apesar do que podem pensar alguns caluniadores da educação ‘culturalmente adaptada’. Como Ruth Benedict apontou, a transmissão da cultura de geração para geração possibilita que ela continue a evoluir e a se recriar. “Não importa o quão distintamente francesa a França possa parecer em comparação a outros países, ou o quão holandesa a Holanda pareça, a cada nova geração a personalidade da França e da Holanda muda completamente. Uma geração morre e outra nasce. No modo pelo qual os pais lidam com seus bebês, no modo pelo qual outras crianças tratam as crianças mais novas, no modo pelo qual os professores recompensam e punem seus alunos, emoções são selecionadas e cultivadas, formando-os para serem membros de sua própria comunidade e nação.”
Quando os chefes de Estado africanos se encontraram em Cartum, em janeiro de 2006, para a sexta reunião da União Africana, eles chegaram à mesma conclusão. Convencidos de que “os valores e o patrimônio cultural devem oferecer as bases para a educação em todos os níveis”, eles reconheceram “a importância das línguas africanas como meio de instrução e veículos de cultura”, enfatizando “a interface inquestionável entre a cultura e a educação e o papel de ambas no desenvolvimento sócio-econômico sustentável”. Finalmente, fizeram um apelo para que os governos “criem fóruns de consulta regular e de integração da cultura na educação e da educação na cultura, particularmente por meio da reconstrução dos sistemas educacionais africanos”. Isso deve ser música para os ouvidos de Ruth Benedict, em seu lugar final de descanso...
Culture: fonte e estuário

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 © UNESCO/Philippe Bordas
Espaço Cultural Sosso-Bala (Guiné), proclamado obra-prima da humanidade pela UNESCO.
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Pela primeira vez, em 2001, a UNESCO reconheceu a diversidade cultural como patrimônio comum da humanidade.
A adoção pela UNESCO, em 2003, da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Intangível também a agradaria, uma vez que representa mais um passo rumo ao reconhecimento do vínculo inquebrável entre a cultura e a educação, o que gera esperanças. Longe de objetivar a manutenção do patrimônio cultural moribundo como uma peça de museu, essa Convenção permite aos povos perpetrarem um patrimônio que transmita valores e significado, recriando-o permanentemente, e oferece a eles um senso de identidade e continuidade.
É verdade que muitos elementos do patrimônio cultural intangível estão hoje ameaçados. Freqüentemente, eles são assimilados a tradições desnecessárias e obsoletas que não desempenham nenhum papel no desenvolvimento da nação e que, dentro do processo de globalização, não despertam nenhum interesse por parte dos jovens, cuja atenção está legitimamente voltada para fora, para o mundo. É claro que os sistemas educacionais atuais devem assumir parte da responsabilidade por essa atitude das gerações mais jovens.
A Convenção de 2003 oferece uma oportunidade para que os sistemas educacionais se abram não apenas para a diversidade cultural em nível nacional, mas também para a descoberta e apreciação da riqueza extraordinária do patrimônio cultural intangível no mundo como um todo. Ela insiste sobre “a necessidade de se construir uma maior consciência, especialmente entre as gerações mais jovens, sobre a importância do patrimônio cultural intangível e sua salvaguarda”, como um fator para a aproximação dos seres humanos, para o intercâmbio e para o maior entendimento. Em outras palavras, ela pode contribuir para que se silencie a tese arcaica e tenaz sobre o choque de civilizações.
Ao convidar os Estados a conscientizarem seus jovens quanto aos valores de seu patrimônio cultural, principalmente por meio da educação, a Convenção parece ter chegado para colocar as coisas em seu devido lugar. Ela nos lembra de que a cultura é tanto uma fonte quanto um estuário de todos os processos de desenvolvimento, sendo a educação o seu vetor de transmissão preferido. Essa lembrança chega no tempo certo e esperamos que vá garantir que a diversidade de culturas não seja relegada aos arquivos da memória, mas permaneça uma realidade viva, cheia de significado e criatividade para o futuro da humanidade como um todo.
Cécile Duvelle, chefe da Seção de Patrimônio Intangível da UNESCO
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“A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. Essa diversidade se manifesta na originalidade e na pluralidade de identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. Fonte de intercâmbios, de inovação e de criatividade, a diversidade cultural é, para o gênero humano, tão necessária como a diversidade biológica para a natureza. Nesse sentido, constitui o patrimônio comum da humanidade e deve ser reconhecida e consolidada em beneficio das gerações presentes e futuras.”
Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural , Artigo 1
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Leia também:
Diversidade cultural não se decreta nem se improvisa (O Correio, novembro de 2005/em inglês);
Compreendendo o intangível (O Correio, maio de 2006/em inglês); e
Diversidade Cultural e Patrimônio (Museu Internacional, n° 227/em inglês)
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